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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — VUNESP 2023

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
vu185027
Banca
VUNESP
Órgão
TRF 3
Ano
2023
Cargo
TJ TRF3
As pitangueiras d’antanho*


       Tem seus 23 anos, e eu a conheço desde os oito ou nove, sempre assim, meio gordinha, engraçada, de cabelos ruivos. Foi criada, a bem dizer, na areia do Arpoador; nasceu e viveu em uma daquelas ruas que vão de Copacabana a Ipanema, de praia a praia. A família mudou-se quando a casa foi comprada para construção de edifício.

             Certa vez me contou:

           – Em meu quarteirão não há uma só casa de meu tempo de menina. Se eu tivesse passado anos fora do Rio e voltasse agora, acho que não acertaria nem com a minha rua. Tudo acabou: as casas, os jardins, as árvores. É como se eu não tivesse tido infância...

             Falta-lhe uma base física para a saudade. Tudo o que parecia eterno sumiu.

         Outra senhora disse então que se lembrava muito de que, quando era menina, apanhava pitangas em Copacabana; depois, já moça, colhia pitangas na Barra da Tijuca; e hoje não há mais pitangas. Disse isso com uma certa animação, e depois ficou um instante com o ar meio triste – a melancolia de não ter mais pitangas, ou, quem sabe, a saudade daquela manhã em que foi com o namorado colher pitangas.

          Também em minha infância, há pitangueiras de praia. Não baixinhas, em moitas, como aquelas de Cabo Frio, que o vento não deixa crescer; mas altas; e suas copas se tocavam e faziam uma sombra varada por pequenos pontos de sol.


(Rubem Fonseca, “As pitangueiras d’antanho”. 200 crônicas escolhidas, 2001. Fragmento)


* d’antanho: de épocas passadas
Leia o texto para responder à questão.   Com a frase – ... ou, quem sabe, a saudade daquela manhã em que foi com o namorado colher pitangas. (5o parágrafo) –, o narrador faz uma
  1. Aafirmação sobre a animação da mulher por lembrar-se do namorado.
  2. Bconjectura sobre o que pode significar o ar meio triste da senhora.
  3. Ccrítica sobre o descaso da mulher quanto aos bons momentos vividos.
  4. Dconjectura sobre a felicidade da mulher com as pitangueiras do local.
  5. Ecrítica sobre as considerações da mulher a respeito das pitangueiras.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoB — conjectura sobre o que pode significar o ar meio triste da senhora.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Conjectura do narrador sobre o ar triste da senhora

Gabarito: letra B. A frase final do 5º parágrafo — "ou, quem sabe, a saudade daquela manhã em que foi com o namorado colher pitangas" — é uma conjectura (hipótese, suposição) do narrador sobre o que pode significar o "ar meio triste" da senhora. O texto não afirma nada; apenas levanta possibilidades, como se vê na passagem:

"Disse isso com uma certa animação, e depois ficou um instante com o ar meio triste – a melancolia de não ter mais pitangas, ou, quem sabe, a saudade daquela manhã em que foi com o namorado colher pitangas."

A expressão "quem sabe" é a pista decisiva: ela marca uma suposição, não uma certeza. O narrador não sabe o que se passa na cabeça da senhora; ele apenas arrisca uma explicação para a tristeza que observou.

O comando: o que a banca pede

A questão pergunta o que o narrador faz com a frase. O verbo "faz" aponta para a função discursiva do trecho: conjecturar, supor, levantar hipótese. Não se trata de localizar uma informação explícita (compreensão), mas de reconhecer o valor semântico da expressão "quem sabe" — uma marca de incerteza, de possibilidade. É uma questão de interpretação ancorada em pistas linguísticas claras.

O texto: onde mora a resposta

O 5º parágrafo narra a fala de "outra senhora" que se lembra de colher pitangas em Copacabana e na Barra da Tijuca. O narrador descreve a reação dela: primeiro "com uma certa animação", depois "com o ar meio triste". A frase em destaque vem logo em seguida, como uma tentativa de explicar essa tristeza. O narrador oferece duas hipóteses: a melancolia por não haver mais pitangas ou a saudade da manhã com o namorado. A conjunção "ou" e a expressão "quem sabe" deixam claro que são apenas possibilidades, não fatos.

A técnica: como reconhecer uma conjectura

Uma conjectura é uma afirmação baseada em indícios, mas sem certeza. No texto, ela é marcada por:

  • "quem sabe" — expressão que indica dúvida, possibilidade;

  • "ou" — conjunção que alterna hipóteses;

  • "a melancolia... ou... a saudade" — duas explicações possíveis, não uma conclusão fechada.

A banca adora explorar essa distinção: afirmação (certeza) × conjectura (hipótese). Quando o texto usa "quem sabe", "talvez", "é possível", "pode ser", a alternativa correta deve usar palavras como "conjectura", "hipótese", "suposição".

Análise das alternativas

Alternativa A — ❌ Incorreta

"afirmação sobre a animação da mulher por lembrar-se do namorado."

Erro: troca de conceito. A frase não é uma "afirmação" — é uma conjectura. Além disso, o texto não diz que a mulher se animou por lembrar do namorado; a animação veio antes, ao falar das pitangas, e a tristeza é que é explicada pela possível saudade do namorado. A alternativa inverte a relação e transforma hipótese em certeza.

Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO

"conjectura sobre o que pode significar o ar meio triste da senhora."

Perfeita paráfrase. O narrador observa o "ar meio triste" e levanta hipóteses: "a melancolia de não ter mais pitangas, ou, quem sabe, a saudade daquela manhã". A palavra "conjectura" capta exatamente o valor de "quem sabe" — uma suposição sobre o significado da tristeza.

Alternativa C — ❌ Incorreta

"crítica sobre o descaso da mulher quanto aos bons momentos vividos."

Erro: extrapolação + opinião embutida. Não há nenhuma crítica no trecho. O narrador não julga a mulher, não fala em "descaso" nem em "bons momentos" desperdiçados. A alternativa inventa um juízo de valor que o autor não externou.

Alternativa D — ❌ Incorreta

"conjectura sobre a felicidade da mulher com as pitangueiras do local."

Erro: troca de conceito. A conjectura não é sobre "felicidade" — é sobre a tristeza (o "ar meio triste"). Além disso, o texto fala em "saudade" e "melancolia", não em felicidade. A alternativa troca o sentimento central e foge ao que a frase realmente expressa.

Alternativa E — ❌ Incorreta

"crítica sobre as considerações da mulher a respeito das pitangueiras."

Erro: extrapolação. Não há crítica alguma. O narrador apenas descreve e conjectura; não avalia negativamente as considerações da mulher. A palavra "crítica" é um acréscimo sem apoio no texto.

NÃO CAIA NESSA!

A banca tenta confundir "conjectura" (hipótese, dúvida) com "afirmação" (certeza) e com "crítica" (juízo negativo). A expressão "quem sabe" é a chave: ela só pode indicar conjectura.

PEGA ESSA DICA!

Ao ver "quem sabe", "talvez", "é possível", "pode ser", marque mentalmente: hipótese. A alternativa correta usará palavras como "conjectura", "suposição", "possibilidade" — nunca "afirmação" ou "certeza".

Gabarito: letra B. A frase é uma conjectura do narrador sobre o significado do ar triste da senhora, ancorada na expressão "quem sabe" e na alternância de hipóteses com "ou".

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