Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — VUNESP 2023
Português›Interpretação de Textos (Compreensão)
Código
vu185047
Banca
VUNESP
Órgão
Pref Piracicaba
Ano
2023
Cargo
Aux (Piracicaba)
Desacelerar é preciso
Com pressa, o Coelho Branco de olhos cor-de-rosa tirou um relógio do bolso do colete e disse: “Ai, ai, ai! Vou chegar atrasado demais”. Alice, espantada por nunca ter visto um coelho falante e vestido, saiu em disparada e o seguiu até sua toca, de onde começaria uma fantástica viagem rumo ao País das Maravilhas.
Publicada em 1865, a obra Aventuras de Alice no País das Maravilhas, uma das histórias mais importantes da literatura mundial, foi fruto da imaginação do escritor e matemático Lewis Carroll (1832-1898), mas também de suas indagações sobre a relatividade temporal. O Coelho Branco pode simbolizar, por meio de sua obsessão pelo tempo, a angústia causada pela brevidade da experiência humana.
Afinal, na época em que a história foi escrita, os dias passaram a ser contados pelos ponteiros do relógio, e não mais pelo nascer e pôr do sol. Foi a partir da Revolução Industrial, na segunda metade do século 18, que a vida foi compartimentada em horas, minutos e segundos, entre “tempo de trabalho” e “tempo livre”. Assim como Alice, a humanidade caiu na toca do Coelho Branco e começou a correr atrás do tempo.
Desde então, a sociedade sonha com a dilatação das 24 horas do dia para conciliar o rendimento no trabalho com momentos de lazer com família e amigos, fazer atividade física, ler um livro ou simplesmente ficar de pernas para o ar. Num século em que o tempo se tornou privilégio, a consequência dessa “falta de tempo” vem provocando quadros de ansiedade, depressão e outros sofrimentos psíquicos. De acordo com o mais recente mapeamento global de transtornos mentais, realizado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), o Brasil possui a população mais ansiosa do mundo.
(Maria Júlia Lledó. Desacelerar é preciso. Revista E, maio de 2023)
A partir da leitura do texto, é correto concluir que a referência à obra de Lewis Carroll
Ailustra como a relação com o tempo é igual em todas as sociedades humanas, com a compartimentalização em horas, minutos e segundos.
Bdemonstra como a ficção antecipa os fatos da realidade, como a invenção do relógio, os quais só irão ocorrer séculos mais tarde.
Cfaz alusão a um tipo de experiência temporal, vivida pelo Coelho Branco, que se encerrou com o fim da Revolução Industrial.
Dmostra como a relação com o tempo se transforma quando se passa a apreendê-lo pelo relógio e não mais pela natureza.
Eexpõe como a relação com o tempo é pessoal e independe do contexto histórico e social em que se está inserido.
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GabaritoD — mostra como a relação com o tempo se transforma quando se passa a apreendê-lo pelo relógio e não mais pela natureza.
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Interpretação de texto: a referência à obra de Lewis Carroll
Gabarito: letra D. A alternativa D é a única inteiramente sustentada pelo texto, pois parafraseia a ideia central do 3º parágrafo: a relação com o tempo se transforma quando se passa a apreendê-lo pelo relógio e não mais pela natureza. Como se lê no texto: "na época em que a história foi escrita, os dias passaram a ser contados pelos ponteiros do relógio, e não mais pelo nascer e pôr do sol" — é exatamente essa mudança de paradigma que a alternativa D resume.
O comando pede uma conclusão a partir da leitura, ou seja, uma inferência ancorada no texto: a resposta não está literalmente escrita, mas é deduzida com base em pistas claras. A banca não quer que você decore o texto, mas que perceba como a referência à obra de Carroll é usada para ilustrar uma tese sobre a relação da humanidade com o tempo. O texto não fala de literatura em si; usa a obra como ponto de partida para discutir a mudança histórica na percepção do tempo.
O movimento argumentativo é: (1) apresenta a cena do Coelho Branco apressado; (2) conecta a obra à "relatividade temporal" e à "angústia causada pela brevidade da experiência humana"; (3) explica que, na época, o tempo passou a ser medido pelo relógio, não pela natureza; (4) conclui que a humanidade, como Alice, "caiu na toca do Coelho Branco e começou a correr atrás do tempo". A referência à obra, portanto, ilustra a transformação da relação com o tempo — exatamente o que a D afirma.
A técnica que decide esta questão é o teste da autorização: cada alternativa deve ser confrontada com o texto. Pergunte: "o texto autoriza esta afirmação, ou ela exige acrescentar algo de fora?". A D é autorizada pelo 3º parágrafo; as demais ou extrapolam, ou contradizem, ou tangenciam o que está escrito.
Referência a Lewis Carroll
1Ilustra tese sobre o tempo
Mudança histórica
Antes: natureza (sol)
Depois: relógio (ponteiros)
Contexto: Revolução Industrial
2Consequência atual
Corrida contra o tempo
Ansiedade e depressão
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Alternativa A — ❌ Incorreta
A alternativa afirma que a relação com o tempo é "igual em todas as sociedades humanas". O texto, porém, mostra o contrário: a relação mudou historicamente. O 3º parágrafo diz que "na época em que a história foi escrita, os dias passaram a ser contados pelos ponteiros do relógio, e não mais pelo nascer e pôr do sol" — ou seja, houve uma transformação, não uma igualdade. Além disso, o texto fala da sociedade pós-Revolução Industrial, não de "todas as sociedades humanas". Erro: generalização indevida — o texto trata de um contexto específico, e a alternativa amplia para um universal absoluto ("todas").
Alternativa B — ❌ Incorreta
A alternativa afirma que a ficção "antecipa os fatos da realidade, como a invenção do relógio". O texto não diz isso em nenhum momento. O relógio não foi "inventado" na ficção; o texto apenas diz que o Coelho Branco usa um relógio e que, na época, o tempo passou a ser medido por ponteiros. A obra não "antecipa" nada — ela reflete uma realidade já existente. Erro: extrapolação — a alternativa acrescenta uma relação de causa e efeito (ficção antecipa realidade) que não está no texto.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A alternativa afirma que a experiência temporal do Coelho Branco "se encerrou com o fim da Revolução Industrial". O texto não diz que essa experiência terminou; pelo contrário, o 4º parágrafo mostra que a "falta de tempo" é um problema atual ("a consequência dessa 'falta de tempo' vem provocando quadros de ansiedade, depressão"). A experiência do Coelho Branco continua — a humanidade ainda "corre atrás do tempo". Erro: contradiz o texto — a alternativa inverte o sentido: o texto mostra a permanência, não o fim.
Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A alternativa parafraseia o 3º parágrafo: "na época em que a história foi escrita, os dias passaram a ser contados pelos ponteiros do relógio, e não mais pelo nascer e pôr do sol". A referência à obra de Carroll mostra como a relação com o tempo se transforma quando se passa a apreendê-lo pelo relógio e não mais pela natureza. É exatamente isso que a alternativa D afirma. A obra é usada como ilustração dessa mudança histórica.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A alternativa afirma que a relação com o tempo é "pessoal e independe do contexto histórico e social". O texto mostra o oposto: a relação com o tempo é determinada pelo contexto histórico — a Revolução Industrial mudou a forma de medir o tempo. O 3º parágrafo é claro: "Foi a partir da Revolução Industrial, na segunda metade do século 18, que a vida foi compartimentada em horas, minutos e segundos". A relação com o tempo depende do contexto. Erro: contradiz o texto — a alternativa inverte a tese central do texto.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a generalização indevida (A) e a contradição (C e E) para confundir. A mais sedutora é a C, que usa palavras do texto ("Revolução Industrial") mas inverte o sentido: o texto mostra a permanência da "corrida contra o tempo", não o seu fim.
PEGA ESSA DICA!
Em questões de "concluir-se", teste cada alternativa perguntando: "o texto autoriza isto, ou exige acrescentar algo de fora?". A correta é a única que se sustenta com base nas pistas do texto, sem extrapolar.
Gabarito: letra D — a única que parafraseia fielmente a tese do texto sobre a transformação da relação com o tempo.