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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — VUNESP 2023

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
vu185055
Banca
VUNESP
Órgão
Pref Guararema
Ano
2023
Cargo
Ana ( )

Olhos D’água

 

Eu me lembrava também de algumas histórias da infância de minha mãe. Ela havia nascido em um lugar perdido no interior de Minas. Ali, as crianças andavam nuas até bem grandinhas. As meninas, assim que os seios começavam a brotar, ganhavam roupas antes dos meninos. Às vezes, as histórias da infância de minha mãe confundiam-se com as de minha própria infância. Lembro-me de que muitas vezes, quando a mãe cozinhava, da panela subia cheiro algum. Era como se cozinhasse, ali, apenas o nosso desesperado desejo de alimento. As labaredas, sob a água solitária que fervia na panela cheia de fome, pareciam debochar do vazio do nosso estômago, ignorando nossas bocas infantis em que as línguas brincavam a salivar sonho de comida. E era justamente nesses dias de parco ou nenhum alimento que ela mais brincava com as filhas. Nessas ocasiões a brincadeira preferida era aquela em que a mãe era a Senhora, a Rainha. Ela se assentava em seu trono, um pequeno banquinho de madeira. Felizes, colhíamos flores cultivadas em um pequeno pedaço de terra que circundava o nosso barraco. As flores eram depois solenemente distribuídas por seus cabelos, braços e colo. E diante dela fazíamos reverências à Senhora. Postávamos deitadas no chão e batíamos cabeça para a Rainha. Nós, princesas, em volta dela, cantávamos, dançávamos, sorríamos. A mãe só ria de uma maneira triste e com um sorriso molhado... Mas de que cor eram os olhos de minha mãe? Eu sabia, desde aquela época, que a mãe inventava esse e outros jogos para distrair a nossa fome. E a nossa fome se distraía.

 

(Conceição Evaristo, Olhos d’água)

As recordações da narradora evidenciam uma infância de
  1. Adificuldade, que se contrapõe à afetividade que envolve a família.
  2. Bdesencontro, que se reforça com a dispersão dos entes familiares.
  3. Cresiliência, que se desmorona com a criação de um mundo de fantasias.
  4. Desperança, que se consome pela tristeza que vai atingindo a família.
  5. Esuperação, que se opõe à fragilidade das crianças diante do sofrimento.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoA — dificuldade, que se contrapõe à afetividade que envolve a família.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Infância marcada pela dificuldade e pela afetividade

Gabarito: letra A. As recordações da narradora evidenciam uma infância de dificuldade, que se contrapõe à afetividade que envolve a família. O texto descreve a pobreza extrema — "da panela subia cheiro algum", "água solitária que fervia na panela cheia de fome" — mas, ao mesmo tempo, mostra a mãe brincando com as filhas, transformando-se em "Senhora, a Rainha", num gesto de carinho que "distraía" a fome. A alternativa A capta exatamente essa oposição entre a privação material e o afeto familiar.

O comando da questão

O enunciado pede que se identifique o que as recordações evidenciam sobre a infância da narradora. Trata-se de uma questão de compreensão/interpretação global: não se busca um detalhe isolado, mas a síntese do que o texto revela sobre a experiência narrada. A resposta deve ser uma paráfrase fiel do conjunto de informações apresentadas, sem acrescentar ideias que não estejam no texto.

O texto: tema, tese e movimento argumentativo

O texto de Conceição Evaristo narra memórias de uma infância marcada pela pobreza extrema. A narradora descreve a fome de forma quase poética: "as labaredas, sob a água solitária que fervia na panela cheia de fome, pareciam debochar do vazio do nosso estômago". A escassez é o pano de fundo constante.

No entanto, o texto não se limita a descrever a miséria. Ele mostra como a mãe, mesmo diante da falta de alimento, criava momentos de afeto e fantasia: "E era justamente nesses dias de parco ou nenhum alimento que ela mais brincava com as filhas". A brincadeira da "Senhora, a Rainha" transforma o barraco em um reino, e as filhas em princesas. A mãe, porém, "só ria de uma maneira triste e com um sorriso molhado", revelando a dor por trás da alegria.

A chave da questão está na oposição entre a dificuldade material (fome, pobreza) e a afetividade (brincadeiras, carinho, união familiar). O texto não apresenta a infância como apenas triste ou apenas feliz, mas como uma experiência em que a privação convive com o amor.

A técnica que decide

Para resolver, é preciso identificar a relação de oposição que estrutura o texto. O conectivo "mas" e a expressão "E era justamente" sinalizam o contraste: a mãe brincava justamente nos dias de fome. A alternativa correta deve refletir essa dualidade, sem exagerar em nenhum dos polos.

"E era justamente nesses dias de parco ou nenhum alimento que ela mais brincava com as filhas."

Esse trecho prova que a dificuldade (fome) e a afetividade (brincadeiras) coexistem e se contrapõem. A alternativa A é a única que expressa essa oposição de forma equilibrada.

Análise das alternativas

Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A alternativa A é a única inteiramente sustentada pelo texto. Ela afirma que a infância foi de dificuldade, o que é comprovado por passagens como "da panela subia cheiro algum" e "panela cheia de fome". Ao mesmo tempo, afirma que essa dificuldade se contrapõe à afetividade que envolve a família, o que é comprovado pela descrição das brincadeiras e do carinho materno: "Felizes, colhíamos flores... e diante dela fazíamos reverências à Senhora". A oposição é explícita no texto, e a alternativa a parafraseia com precisão.

Alternativa B — ❌ Incorreta

A alternativa B fala em desencontro e dispersão dos entes familiares. O texto, porém, mostra a família unida em torno da mãe: as filhas brincam juntas, colhem flores, cantam e dançam. Não há qualquer menção a separação ou desencontro. A alternativa extrapola e tangencia o tema, pois introduz uma ideia que não está no texto.

Alternativa C — ❌ Incorreta

A alternativa C fala em resiliência que se desmorona com a criação de um mundo de fantasias. O texto, ao contrário, mostra que a fantasia ajuda a suportar a fome: "a mãe inventava esse e outros jogos para distrair a nossa fome. E a nossa fome se distraía". A fantasia não desmorona; ela alivia o sofrimento. A alternativa inverte o sentido do texto, contradizendo o que está escrito.

Alternativa D — ❌ Incorreta

A alternativa D fala em esperança que se consome pela tristeza. O texto não menciona esperança nem sua destruição. A mãe ri "de uma maneira triste", mas isso não indica que a esperança se consome. A alternativa extrapola ao acrescentar um sentimento (esperança) que não está no texto e inverte a relação entre tristeza e afeto.

Alternativa E — ❌ Incorreta

A alternativa E fala em superação que se opõe à fragilidade das crianças. O texto não apresenta as crianças como frágeis nem a superação como um tema central. A brincadeira é uma forma de distração, não de superação. A alternativa extrapola ao introduzir o conceito de superação, que não está ancorado no texto.

Conclusão

A questão exige perceber a oposição entre a dificuldade material e a afetividade familiar. A alternativa A é a única que expressa essa dualidade de forma fiel ao texto. As demais ou extrapolam (B, D, E) ou contradizem (C) o que está escrito.

PEGA ESSA DICA!

Ao resolver questões de interpretação, grife as palavras que indicam oposição (mas, porém, contudo, entretanto) e as expressões de contraste (justamente, ao contrário). Elas costumam apontar para a ideia central do texto.

Gabarito: letra A

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