Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — VUNESP 2023
Português›Interpretação de Textos (Compreensão)
Código
vu185061
Banca
VUNESP
Órgão
Pref Piracicaba
Ano
2023
Cargo
IAC ( )
Eu, mutilado capilar
Os barbeiros me humilham cobrando meia tarifa.
Vinte anos atrás o espelho já delatou os primeiros clarões debaixo da melena(*) frondosa. Hoje o luminoso reflexo de minha calva em vitrines e janelas e janelinhas me provoca estremecimentos de horror.
Cada fio de cabelo que perco, cada um dos últimos cabelos, é um companheiro que tomba, e que antes de tombar teve nome ou pelo menos número.
A frase de um amigo piedoso me consola:
– Se o cabelo fosse importante, estaria dentro da cabeça, e não fora.
Também me consolo comprovando que em todos esses anos caíram muitos de meus cabelos mas nenhuma de minhas ideias, o que acaba sendo uma alegria quando a gente pensa em todos esses arrependidos que andam por aí.
(Eduardo Galeano, O livro dos abraços. Adaptado)
(*) melena: cabeleira
A afirmação do autor – Os barbeiros me humilham cobrando meia tarifa. – é uma referência, em tom
Adivertido, aos seus poucos cabelos.
Bcrítico, à depreciação do trabalho deles.
Cnostálgico, à fala do amigo piedoso.
Damargo, aos que pagam toda a tarifa.
Erancoroso, à incoerência dos barbeiros.
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GabaritoA — divertido, aos seus poucos cabelos.
Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.
Tom e sentido: a ironia bem-humorada da calvície
Gabarito: letra A. A frase "Os barbeiros me humilham cobrando meia tarifa" é uma referência, em tom divertido, aos seus poucos cabelos. O humor está na hipérbole (exagero) de chamar de "humilhação" o fato de os barbeiros cobrarem apenas metade do preço, porque ele tem tão pouco cabelo que o serviço vale menos. A passagem que ancora essa leitura é o trecho em que o autor descreve a perda dos fios como a queda de "companheiros":
"Cada fio de cabelo que perco, cada um dos últimos cabelos, é um companheiro que tomba"
A expressão "últimos cabelos" confirma que restam pouquíssimos fios — e é exatamente essa escassez que torna a "meia tarifa" uma piada: o barbeiro reconhece, pelo preço, que há pouco trabalho a fazer.
O comando: o que a banca pede
A questão não pergunta o que a frase significa literalmente, mas em que tom ela é dita. Isso muda tudo: não basta localizar a informação; é preciso captar a intenção do autor — o efeito de sentido que ele quis produzir. O verbo "é uma referência, em tom" indica que a resposta exige interpretação (inferir o subtexto), não mera compreensão literal.
O texto: a chave está no exagero
O texto inteiro é uma crônica bem-humorada sobre a calvície. O autor dramatiza a perda de cabelo com imagens exageradas: o espelho "delatou" os clarões, o reflexo da calva "provoca estremecimentos de horror", e cada fio é um "companheiro que tomba". Esse exagero é a marca do humor — ninguém sente horror de verdade por uma calva, e ninguém é humilhado de verdade por pagar meia tarifa. A palavra "humilham" é uma hipérbole irônica: o autor brinca com a própria situação, transformando um desconforto comum em um drama cômico.
A técnica: hipérbole e ironia como recursos de humor
A hipérbole (exagero) é o recurso central. Ao dizer que os barbeiros o "humilham" cobrando metade do preço, o autor inverte a lógica: em vez de reclamar do preço alto, reclama do preço baixo — porque o preço baixo revela que ele não tem cabelo suficiente para um corte completo. Essa inversão é cômica. O tom não é de revolta ("crítico", "amargo", "rancoroso"), mas de autodepreciação bem-humorada: ele ri de si mesmo.
Tom da frase: Divertido (gabarito) (Hipérbole: "humilham", Autodepreciação bem-humorada, Referência: poucos cabelos); Crítico (Não há depreciação do trabalho); Nostálgico (Não há saudade); Amargo (Não há alvo (quem paga tarifa cheia)); Rancoroso (Não há incoerência dos barbeiros)
Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A alternativa capta exatamente o efeito: o tom é divertido e a referência é aos poucos cabelos. A prova está na combinação de duas passagens: a "meia tarifa" (que só faz sentido se houver pouco cabelo) e a expressão "últimos cabelos" (que confirma a escassez). O exagero de "humilham" transforma a constatação em piada.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Erro: extrapolação. A alternativa diz que o tom é "crítico, à depreciação do trabalho deles". O texto não critica os barbeiros nem seu trabalho — o autor não reclama da qualidade do serviço, apenas brinca com o preço reduzido. Não há nenhuma passagem que autorize a ideia de "depreciação do trabalho" dos barbeiros. O texto fala da calvície do autor, não da profissão alheia.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Erro: troca de referente. A alternativa liga a frase à "fala do amigo piedoso" ("Se o cabelo fosse importante, estaria dentro da cabeça"). Mas a frase sobre a meia tarifa aparece no primeiro parágrafo, antes da fala do amigo, e trata de um assunto diferente: o preço do corte, não a importância do cabelo. O tom "nostálgico" também não se aplica — não há saudade na frase, e sim humor.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Erro: contradiz o texto. A alternativa diz que o tom é "amargo, aos que pagam toda a tarifa". O texto não menciona "os que pagam toda a tarifa" nem expressa amargura contra eles. Pelo contrário, o autor se consola no final com a ideia de que "nenhuma de minhas ideias" caiu — um tom leve e positivo, não amargo. A alternativa inventa um alvo (quem paga a tarifa cheia) que não existe no texto.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Erro: contradiz o texto. A alternativa afirma que o tom é "rancoroso, à incoerência dos barbeiros". Não há rancor nem acusação de incoerência. O autor não está irritado com os barbeiros; está fazendo uma piada sobre a própria calvície. A palavra "humilham" é irônica, não literal — e a ironia aqui é bem-humorada, não agressiva.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a hipérbole — o candidato lê "humilham" e "horror" e acha que o tom é negativo (crítico, amargo, rancoroso). Mas o exagero é justamente o recurso do humor. Desconfie de palavras fortes: em texto bem-humorado, elas costumam ser irônicas.
PEGA ESSA DICA!
Para identificar o tom, pergunte: o autor está reclamando de verdade ou brincando? Se a situação é cotidiana e o exagero é evidente (ninguém é humilhado por pagar meia tarifa), o tom é divertido.
Gabarito: letra A. A frase é uma piada sobre a calvície: o autor exagera ao chamar de "humilhação" o preço reduzido, revelando, com humor, que restam poucos cabelos.