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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — VUNESP 2023

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
vu185069
Banca
VUNESP
Órgão
Pref Piracicaba
Ano
2023
Cargo
DPO ( )

Os algoritmos de redes sociais serão o fim da verdade?

 

Quem define o que é verdade? É um questionamento corriqueiro que demonstra a distopia que vivemos. A verdade se impõe, ela é, simples assim. Verdade é constituída de fatos objetivos e verificáveis. A questão surge porque distorcemos, sem perceber, o conceito de verdade. Muitas vezes a palavra verdade é usada para descrever outra coisa, algo que seja mais palatável para um grupo, que geralmente se chama de narrativa.

 

Um estudo publicado na revista Nature em janeiro de 2017 mostra que, na lógica de massas, a resposta “surpreendentemente popular” tende a ser mais adotada que a verdade dos fatos. A técnica do estudo consistiu em fazer perguntas a grupos específicos e ter um detalhamento a mais, diferenciando o que as pessoas acham que é a resposta correta e o que elas pensam que seria a resposta mais popular. Chamou-se esse processo de “algoritmo do surpreendentemente popular”.

 

Diante do dilema moral, nossa tendência é condenar as pessoas que optam pela corrente majoritária. Ocorre que todos nós já fizemos isso em algum momento, seja por necessidade de aceitação ou de sobrevivência. É algo que faz parte do nosso cotidiano. É melhor ser feliz ou ter razão?

 

Isso permeia toda a convivência humana. Pense na sua família e amigos. É comum abandonarmos discussões infrutíferas fingindo concordar com algo de que discordamos. Isso não é uma falha, é uma tática de sobrevivência em grupo escolher nossas brigas. Pense agora na vida educacional e profissional. Esse mecanismo geralmente é descrito como engolir sapos.

 

O que muda nas redes sociais é o contexto. Acabamos sempre enfiados nas famosas bolhas, onde assumimos que existe uma opinião de consenso ou incrivelmente popular.

 

Isso potencializa muito o efeito natural de desprezar o que sabemos ser a verdade para optar pelo que é mais popular dentro do grupo. Ocorre que essa prática molda nossa mente, cria um hábito. As situações em que enfrentamos o dilema entre optar pela verdade ou pelo pertencimento são aumentadas num nível de normalizar a opção pela aderência ao grupo sempre.

 

Aceitar a condição humana é um desafio gigantesco. Temos vergonha de ser quem somos e temos a oportunidade de projetar nas redes a imagem do ser ideal que gostaríamos de ser. É uma tentação gigantesca para abolir a verdade. Não é possível, no entanto, ter avanços para as sociedades humanas abrindo mão da realidade objetiva. Passou da hora de refletir sobre esses temas. Quanto mais a tecnologia avança, mais precisamos entender de gente. É um processo tão doloroso quanto necessário.

 

(Madeleine Lacsko. Disponível em: <https://www.gazetadopovo.com.br. Acesso em: 06.08.2023. Adaptado.)

É correto afirmar que, na passagem – É um questionamento corriqueiro que demonstra a distopia que vivemos. –, a autora emprega o termo distopia como uma referência
  1. Acrítica ao estado de coisas na sociedade, haja vista a distorção que se faz do conceito de verdade.
  2. Birônica aos grupos sociais dependentes das redes sociais, embora seus integrantes pensem de forma autônoma e imparcial.
  3. Cconcessiva em relação aos usuários das redes que hesitam em reconhecer a verdade, pois isso já é tradição.
  4. Dtransigente para com a vida contemporânea, visto que a mentira tem se tornado uma norma.
  5. Edepreciativa aos que se gabam de neutralizar a discordância, como é o caso de familiares.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoA — crítica ao estado de coisas na sociedade, haja vista a distorção que se faz do conceito de verdade.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

O sentido de "distopia" no texto

Gabarito: letra A. A autora emprega o termo distopia como uma referência crítica ao estado de coisas na sociedade, marcada pela distorção do conceito de verdade. A passagem citada no enunciado é o ponto de partida de uma argumentação que denuncia como a verdade vem sendo substituída por narrativas mais palatáveis aos grupos, e é exatamente essa distorção que caracteriza a "distopia que vivemos".

O comando da questão

O enunciado pede que se identifique o sentido contextual do termo "distopia" na passagem indicada. Não se trata de uma questão de compreensão literal (o que a palavra significa no dicionário), mas de interpretação: é preciso entender que valor a autora atribui ao termo dentro da argumentação do texto. A banca quer saber se o leitor percebe que "distopia" não é um adjetivo neutro, mas uma avaliação negativa da realidade contemporânea.

O texto e o movimento argumentativo

O texto abre com uma pergunta retórica — "Quem define o que é verdade?" — e a resposta vem na sequência: "É um questionamento corriqueiro que demonstra a distopia que vivemos." A autora então explica o que entende por verdade ("constituída de fatos objetivos e verificáveis") e aponta o problema central: "distorcemos, sem perceber, o conceito de verdade", usando a palavra para descrever algo "mais palatável para um grupo, que geralmente se chama de narrativa".

"A questão surge porque distorcemos, sem perceber, o conceito de verdade. Muitas vezes a palavra verdade é usada para descrever outra coisa, algo que seja mais palatável para um grupo, que geralmente se chama de narrativa."

É essa distorção — a troca da verdade objetiva por narrativas convenientes — que configura a "distopia". O termo, portanto, não é usado de forma neutra ou descritiva: ele carrega uma carga crítica, apontando uma realidade social indesejável, em que o que deveria ser objetivo (a verdade) é relativizado. A alternativa A capta exatamente isso: "crítica ao estado de coisas na sociedade, haja vista a distorção que se faz do conceito de verdade".

A técnica que decide

A questão testa a capacidade de não confundir o sentido denotativo com o valor argumentativo do vocábulo. "Distopia" denota uma sociedade imaginária indesejável; no texto, porém, a autora a usa para qualificar a sociedade real, marcada pela distorção da verdade. A alternativa correta é a que traduz esse juízo crítico sem acrescentar elementos que o texto não traz. As demais ou extrapolam (atribuem intenções que não estão no texto) ou restringem o alcance da crítica (limitam-na a um grupo específico, quando a autora fala da sociedade como um todo).

Análise das alternativas

Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A alternativa A é a única inteiramente sustentada pelo texto. A autora qualifica a realidade como "distopia" logo após afirmar que "distorcemos, sem perceber, o conceito de verdade". A distopia, portanto, é a sociedade em que a verdade é distorcida — um estado de coisas criticável. A alternativa parafraseia com fidelidade o juízo da autora, sem acrescentar nada que o texto não diga.

Alternativa B — ❌ Incorreta

Erro: extrapolação. A alternativa afirma que a autora faz referência "irônica aos grupos sociais dependentes das redes sociais, embora seus integrantes pensem de forma autônoma e imparcial". O texto não diz que os usuários pensam de forma autônoma e imparcial — muito pelo contrário: afirma que "acabamos sempre enfiados nas famosas bolhas, onde assumimos que existe uma opinião de consenso ou incrivelmente popular". A ideia de "autonomia e imparcialidade" é inventada pela alternativa, e a "ironia" não está presente na passagem citada.

Alternativa C — ❌ Incorreta

Erro: extrapolação e troca de sentido. A alternativa fala em referência "concessiva" (isto é, que faz uma ressalva) e afirma que "isso já é tradição". O texto não faz nenhuma concessão em relação aos usuários que hesitam em reconhecer a verdade; ao contrário, a autora critica a prática de "desprezar o que sabemos ser a verdade para optar pelo que é mais popular". A palavra "tradição" também não encontra apoio: o texto fala em "hábito" que se cria, mas não em tradição. A alternativa distorce o valor argumentativo do termo.

Alternativa D — ❌ Incorreta

Erro: contradiz o texto. A alternativa afirma que a autora é "transigente" (condescendente, tolerante) com a vida contemporânea, "visto que a mentira tem se tornado uma norma". O texto, porém, é crítico, não transigente: a autora diz que "Passou da hora de refletir sobre esses temas" e que "não é possível ter avanços para as sociedades humanas abrindo mão da realidade objetiva". A autora não aceita a mentira como norma; ela a denuncia. A alternativa inverte o tom do texto.

Alternativa E — ❌ Incorreta

Erro: restringe o alcance e tangencia o tema. A alternativa afirma que a autora faz referência "depreciativa aos que se gabam de neutralizar a discordância, como é o caso de familiares". O texto menciona familiares apenas como exemplo de "convivência humana" em que "abandonamos discussões infrutíferas fingindo concordar", mas não diz que eles "se gabam" de neutralizar a discordância — isso é acréscimo de informação. Além disso, a crítica da autora não se dirige especificamente a familiares, mas à sociedade como um todo. A alternativa restringe o alvo da crítica e extrapola ao atribuir uma atitude (gabar-se) que o texto não menciona.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a confusão entre o sentido denotativo de "distopia" (sociedade imaginária indesejável) e o uso contextual (crítica à sociedade real). As distratoras tentam seduzir com ideias que o texto não sustenta — como a "ironia" (B), a "tradição" (C), a "transigência" (D) e o "gabar-se" (E).

PEGA ESSA DICA!

Ao identificar o sentido de uma palavra no texto, pergunte-se: "que avaliação o autor faz?" Se a palavra carrega juízo negativo, a alternativa correta deve traduzir esse juízo — e não neutralizá-lo ou invertê-lo.

Gabarito: letra A. A resposta certa é a que reconhece o caráter crítico do termo "distopia", ancorado na distorção do conceito de verdade que a autora denuncia logo no primeiro parágrafo.

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