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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — VUNESP 2023

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
vu185072
Banca
VUNESP
Órgão
CM Aparecida
Ano
2023
Cargo
At Rec ( )

Meias

 

A gente sempre pensa que a mudança virá de grandes resoluções: parar de fumar, pedir demissão. Às vezes, contudo, são as pequenas atitudes que alteram definitivamente o rumo da nossa vida. Ontem, por exemplo, pela primeira vez desde que me conheço por gente, saí pra comprar meias. Sou um novo homem.

 

O leitor pode achar que estou exagerando. É que não teve o desprazer de conhecer a minha gaveta de meias até vinte e quatro horas atrás. Mais parecia um saloon de Velho Oeste: poucos pares estropiados em meio a pés desconjuntados — tenazes sobreviventes de diferentes etapas da minha vida. As três brancas, de algodão, haviam sido ganhas na compra de um tênis de corrida, lá por 98. A marca da loja, escrita no elástico esgarçado, já quase não se lia. Pior que as brancas estavam as azuis, da companhia aérea Varig, do tempo em que as aeromoças davam brindes, não broncas.

 

Uma vida com poucas meias é uma vida de expectativa e ansiedade. Toda manhã aquele suspense ao abrir a gaveta: quais estariam ali, quais andariam na longa peregrinação que passa pelo cesto, pela máquina, pelo varal — e, a se julgar pela demora, talvez por Meca, Fátima, Juazeiro do Norte e Jerusalém? Cheguei ao fundo do poço na sexta, 31, dez da noite. Minha mulher batia na porta do banheiro, me apressando para a ceia, enquanto eu, sentado no chão de azulejos, encaixava as meias cinza na boca do secador de cabelos. Não queria virar o ano com os pés úmidos, nem gostaria que todos me vissem com as velhas meias da Varig quando tirasse os sapatos pra pular sete ondinhas. Naquele momento de angústia, pude ouvir uma voz grave, que vinha de toda parte e de parte alguma: “Antonio: tu és homem-feito. Pagas as contas e impostos em dia. És casado, asseado, vacinado: por que vives nesta penúria podal?”. Se eu soubesse como era fácil, tinha feito antes: nem cem reais, caro leitor, custou minha alforria.

 

(Antonio Prata. Trinta e poucos: crônicas. São Paulo: Cia das Letras. 2016. Adaptado

A partir da leitura da crônica, é correto afirmar que o autor
  1. Acompara a sua gaveta de meias ao Velho Oeste, visto que nela há pares de meias estampadas com figuras de cowboys e xerifes.
  2. Bmanifesta preferência pelas meias da empresa Varig, as quais datam de um período da sua vida repleto de boas histórias em viagens aéreas.
  3. Cé contrário a mudanças drásticas na vida, como parar de fumar ou pedir demissão de um emprego, visto que elas não produzem efeito.
  4. Dcostuma comprar meias de má qualidade, o que fica evidente quando ele fala dos pares em que já não se lê o nome da marca.
  5. Epassa vários anos com meias cujos pares estão perdidos e que já não estão em bom estado para serem utilizadas.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoE — passa vários anos com meias cujos pares estão perdidos e que já não estão em bom estado para serem utilizadas.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Compreensão da crônica "Meias" — o que o autor afirma

Gabarito: letra E. O autor afirma que passou vários anos com meias cujos pares estão perdidos e que já não estão em bom estado para serem utilizadas. Essa é a única alternativa inteiramente sustentada pelo texto: a descrição da gaveta de meias, no 2º parágrafo, mostra pares "estropiados", "pés desconjuntados" e "tenazes sobreviventes", e o 3º parágrafo revela o "suspense" diário de não saber quais meias estariam na gaveta — tudo indica que os pares se perderam e as meias estão velhas. As demais alternativas extrapolam, acrescentando informações que o texto não traz.

O comando pede que se identifique o que o autor afirma — ou seja, uma informação que está explícita ou diretamente inferível do texto, sem acréscimos externos. Não se trata de interpretar entrelinhas profundas, mas de reconhecer a descrição objetiva que o cronista faz de sua situação. A técnica é: para cada alternativa, pergunte "onde o texto autoriza isto?" — se a resposta exigir imaginação ou conhecimento de mundo, a alternativa está errada.

O texto é uma crônica narrativa em 1ª pessoa. O autor conta que, pela primeira vez, saiu para comprar meias, e descreve o estado deplorável de sua gaveta: meias velhas, sem par, de marcas antigas (como a Varig), que já não servem para uso. A tese central é que pequenas atitudes (comprar meias) podem mudar a vida — mas a questão não cobra a tese, e sim a descrição factual das meias.

A passagem decisiva está no 2º parágrafo:

"Mais parecia um saloon de Velho Oeste: poucos pares estropiados em meio a pés desconjuntados — tenazes sobreviventes de diferentes etapas da minha vida."

Aqui, "pares estropiados" e "pés desconjuntados" (meias sem o par correspondente) confirmam que os pares estão perdidos e as meias estão em mau estado. O 3º parágrafo reforça: "Toda manhã aquele suspense ao abrir a gaveta: quais estariam ali, quais andariam na longa peregrinação..." — ou seja, as meias somem, os pares se desfazem. A alternativa E é uma paráfrase fiel disso.

A armadilha central é a extrapolação: a banca cria alternativas que parecem plausíveis, mas acrescentam detalhes que o texto não menciona. Por exemplo, a letra A fala em "meias estampadas com figuras de cowboys e xerifes" — o texto compara a gaveta a um "saloon de Velho Oeste", mas não diz que as meias têm estampas. A letra B fala em "preferência" pelas meias da Varig — o texto apenas as menciona como antigas, sem juízo de valor. A letra C atribui ao autor uma opinião sobre "mudanças drásticas" que ele não expressa. A letra D fala em "comprar meias de má qualidade" — o texto não diz que ele as comprou, apenas que as ganhou ou herdou.

Alternativa A — ❌ Incorreta

Erro: extrapolação. O texto compara a gaveta a um "saloon de Velho Oeste" (2º parágrafo), mas não há nenhuma menção a "meias estampadas com figuras de cowboys e xerifes". A comparação é apenas visual/metafórica sobre o estado bagunçado e velho das meias, não sobre estampas. A alternativa inventa um detalhe que não está no texto.

Alternativa B — ❌ Incorreta

Erro: extrapolação + opinião embutida. O texto menciona as meias da Varig como exemplo de antiguidade: "as azuis, da companhia aérea Varig, do tempo em que as aeromoças davam brindes, não broncas". Não há qualquer indicação de que o autor as prefere ou que elas remetam a "boas histórias em viagens aéreas". A alternativa acrescenta um sentimento que o autor não externa.

Alternativa C — ❌ Incorreta

Erro: contradiz o texto + extrapolação. O autor não se posiciona contra "mudanças drásticas". Na verdade, ele abre o texto dizendo que "a gente sempre pensa que a mudança virá de grandes resoluções: parar de fumar, pedir demissão" — mas isso é uma constatação geral, não uma opinião contrária. Ele não diz que essas mudanças "não produzem efeito"; apenas contrapõe as pequenas atitudes. A alternativa atribui ao autor uma tese que ele não defende.

Alternativa D — ❌ Incorreta

Erro: extrapolação. O texto descreve meias velhas e gastas, mas não diz que o autor costuma comprar meias de má qualidade. Na verdade, ele diz que foi a primeira vez que saiu para comprar meias (1º parágrafo). As meias descritas foram "ganhas na compra de um tênis" ou são antigas — não compradas por ele. A alternativa confunde a origem das meias.

Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO

Correta. O texto descreve meias com pares perdidos e em mau estado: "poucos pares estropiados em meio a pés desconjuntados" (2º parágrafo) e o suspense diário sobre "quais estariam ali" (3º parágrafo). A alternativa é uma paráfrase fiel: "passa vários anos com meias cujos pares estão perdidos e que já não estão em bom estado para serem utilizadas". O texto confirma que ele viveu anos nessa situação, até decidir comprar meias novas.

PEGA ESSA DICA!

Em questões de compreensão, desconfie de alternativas que acrescentam detalhes específicos (como "estampadas com cowboys") ou que atribuem sentimentos (como "preferência"). A resposta correta é sempre a que parafraseia o texto, sem inventar nada.

Gabarito: letra E.

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