Pular para o conteúdo principal

Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — VUNESP 2023

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
vu185243
Banca
VUNESP
Órgão
APTA
Ano
2023
Cargo
PCie I ( )

O leitor já o terá lido em algum lugar, mas eu insisto, porque é bem provável que não o saiba mais. Estamos vivendo uma onda de desconcentração, uma incapacidade crescente de atentar a um único assunto pelo tempo necessário, uma forte tendência à dispersão. Permito-me uma suposição inverificável: que nunca antes tantos caminhos foram abandonados por já não se saber aonde se vai, tantas mensagens foram escritas pela metade, tantas panelas foram largadas ao fogo, tantos gestos se dissolveram em pleno ar, tantas ideias foram concebidas e então esquecidas de imediato. Nossa mente entrou em colapso, e não o percebemos porque nossa mente entrou em colapso.

 

Esse defeito talvez seja o outro lado de uma virtude das mais prezadas: a capacidade crescente de dividir atenções, de lidar com muitas demandas simultâneas, de realizar tarefas díspares em um mesmo momento. Não é que tenhamos nos tornado menos eficientes, menos hábeis. Em tudo o que nos exige comunicação e agilidade talvez nunca tenhamos sido tão funcionais: somos, por vezes, trabalhadores exemplares. O problema vem à tona quando se procura uma virtude contrária, quando se deseja a contemplação serena, o olhar agudo, a apreciação exata. Nossas novas faculdades mentais são valiosas, mas pouco propícias ao descanso, à lucidez, à profundidade, à arte.

 

Não acuso ninguém, muito mais me ponho a admitir minha própria dificuldade. Já fui um desses homens inaptos à multiplicidade e à simultaneidade, e por isso me julgavam distraído, alheio ao mundo que me cercava. Então me fiz adulto, fiz-me pai, e fui respondendo aos apelos incessantes de uma rotina inviável que procura conciliar trabalho e mundo e casa e riso e palavra. Por um tempo me orgulhei de, num só compasso, brincar com as minhas filhas, preparar o almoço, responder mensagens inumeráveis, pensar o livro que eu escreveria mais tarde. Depois descobri que aquilo não era brincar, que o feijão ficava ralo, que o livro apenas se adiava. E me bateu uma inconfessável saudade do tempo em que eu era distraído, isto é, concentrado, do tempo em que eu sabia pensar.

 

(Julián Fuks. Notícias de uma mente em colapso: vivemos uma onda

de desconcentração. Em https://www.uol.com.br/ecoa/colunas/julian-

-fuks/2023/08/19/noticias-de-uma-mente-em-colapso-vivemos-uma-onda-de-

-desconcentracao.htm. 19.08.2023. Fragmento adaptado)

Leia a tira e o texto para responder à questão.   Considere a fala do último quadrinho da tira e o seguinte trecho do 3º parágrafo do texto:   Eu só não sei o que significam todos estes quadrados e pontos e linhas e cores e números e nomes. ... apelos incessantes de uma rotina inviável que procura conciliar trabalho e mundo e casa e riso e palavra.   Nos contextos em que ocorre, a repetição da palavra e tem como efeitoImagem associada para resolução da questão
  1. Arelativizar ideias expressas anteriormente.
  2. Brealçar características dos personagens.
  3. Cvalorizar elementos visuais.
  4. Denfatizar a ideia de quantidade.
  5. Edestacar o modo de as pessoas agirem.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoD — enfatizar a ideia de quantidade.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

A repetição da conjunção "e" como recurso de ênfase

Gabarito: letra D. A repetição da conjunção e nos trechos citados tem como efeito enfatizar a ideia de quantidade, pois a enumeração de elementos ligados por sucessivos "e" sugere uma lista extensa, quase infinita, de itens. No texto, a passagem "...apelos incessantes de uma rotina inviável que procura conciliar trabalho e mundo e casa e riso e palavra" reforça a sobrecarga de demandas simultâneas, e a fala da tira "...todos estes quadrados e pontos e linhas e cores e números e nomes" transmite a mesma sensação de acúmulo e multiplicidade.

O comando da questão pede que se identifique o efeito de sentido produzido pela repetição da palavra e nos dois contextos. Não se trata de uma questão de compreensão literal, mas de interpretação do recurso expressivo: é preciso perceber que a repetição da conjunção aditiva, em vez de apenas somar elementos, cria um efeito estilístico de acúmulo e ênfase na quantidade. A banca explora a diferença entre a função gramatical da conjunção (adicionar) e seu efeito discursivo (realçar a multiplicidade).

O texto de Julián Fuks trata da desconcentração e da dispersão mental contemporânea. No 3º parágrafo, o autor descreve sua rotina sobrecarregada: "...apelos incessantes de uma rotina inviável que procura conciliar trabalho e mundo e casa e riso e palavra". A repetição do e entre cada elemento da lista sugere que são muitas coisas para conciliar, uma após a outra, sem pausa — a enumeração polissindética (repetição da conjunção) é um recurso clássico para intensificar a sensação de acúmulo. Na tira, a fala "...todos estes quadrados e pontos e linhas e cores e números e nomes" tem o mesmo efeito: a lista interminável de elementos visuais reforça a ideia de que são muitos, em grande quantidade.

A técnica para resolver é identificar o recurso estilístico (polissíndeto) e seu efeito. A repetição da conjunção e não apenas soma, mas acumula, criando a impressão de uma lista que poderia continuar indefinidamente. Esse efeito de quantidade é o que a alternativa D captura. As demais alternativas ou se afastam do efeito produzido ou introduzem ideias que não estão ancoradas nos trechos.

NÃO CAIA NESSA!

A banca oferece alternativas que descrevem efeitos possíveis em outros contextos (realçar características, valorizar elementos visuais), mas que não correspondem ao efeito específico da repetição da conjunção e nos trechos citados. A armadilha é trocar o efeito de quantidade por efeitos de qualidade ou modo.

  1. 1Enumera elementos
  2. 2Acumula sem pausa
  3. 3Sugere lista infinita
  4. 4Enfatiza quantidade
LEVEL · soulevel.com.br

Alternativa A — ❌ Incorreta

Relativizar ideias expressas anteriormente. A repetição do e não relativiza (não atenua, não torna relativo) nenhuma ideia. A conjunção e é aditiva, soma elementos; não há nenhum traço de relativização ou ressalva nos trechos. O efeito é de acúmulo, não de atenuação. A alternativa tangencia o tema ao propor um efeito que não se verifica no texto.

Alternativa B — ❌ Incorreta

Realçar características dos personagens. Nos trechos citados, a repetição do e não tem como foco realçar características de personagens. No texto, a enumeração "trabalho e mundo e casa e riso e palavra" descreve as demandas da rotina, não as características de alguém. Na tira, a lista "quadrados e pontos e linhas e cores e números e nomes" refere-se a elementos visuais, não a traços de personagens. A alternativa extrapola ao atribuir um efeito que não está ancorado nos trechos.

Alternativa C — ❌ Incorreta

Valorizar elementos visuais. Na tira, a lista "quadrados e pontos e linhas e cores e números e nomes" de fato se refere a elementos visuais, mas a repetição do e não tem como efeito valorizá-los (atribuir-lhes valor), e sim acumulá-los, enfatizando a quantidade. Além disso, no trecho do texto, a enumeração não é de elementos visuais, mas de aspectos da rotina. A alternativa restringe o efeito a um dos contextos e o descreve de forma imprecisa.

Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO

Enfatizar a ideia de quantidade. A repetição da conjunção e em "trabalho e mundo e casa e riso e palavra" e em "quadrados e pontos e linhas e cores e números e nomes" cria uma enumeração polissindética, cujo efeito é acumular elementos e enfatizar a multiplicidade. A lista extensa, ligada por sucessivos "e", sugere que são muitos itens, reforçando a ideia de quantidade. No texto, isso traduz a sobrecarga da rotina; na tira, a profusão de elementos visuais. A alternativa é a única que nomeia corretamente o efeito do recurso.

Alternativa E — ❌ Incorreta

Destacar o modo de as pessoas agirem. A repetição do e não destaca o modo (a maneira) como as pessoas agem. No texto, a enumeração descreve o que precisa ser conciliado (trabalho, mundo, casa, riso, palavra), não como alguém age. Na tira, a lista refere-se a elementos (quadrados, pontos, linhas), não a ações. A alternativa contradiz o texto ao propor um efeito que não corresponde ao conteúdo dos trechos.

Conclusão: a repetição da conjunção e é um recurso de ênfase na quantidade, pois a enumeração extensa de elementos ligados por sucessivos "e" sugere acúmulo e multiplicidade. Ao testar cada alternativa, pergunte: o efeito descrito está ancorado nos trechos citados? A única que se sustenta é a D.

Gabarito: letra D

Link permanente: /questoes/vu185243