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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — VUNESP 2023

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
vu185247
Banca
VUNESP
Órgão
Pref Osasco
Ano
2023
Cargo
TEnf ( )

Como falei nesta coluna, Richard Moneygrand, meu velho mentor, sofreu um AVC (acidente vascular cerebral) e ficou com seu lado esquerdo paralisado. Assim que soubemos, entramos em contato. Seguem, com a devida censura aos expletivos que são parte das nossas conversas, trechos que podem ajudar outras vítimas da vida e de seu próprio corpo, como sublinhou meu amigo.

 

“E aí, Dick, como está?” “Estou bem. O mais estranho está passando.”

 

“Me traduz esse ‘estranho’...”

 

“Meu lado esquerdo – braço, perna e a minha imprescindível mão – fugiu do controle, foi paralisado. Era como se tivessem aplicado neste lado do meu corpo uma poderosa anestesia. Eu queria escrever e o braço e a mão não se mexiam – e era impossível mover a perna! No entanto, meu caro Roberto, a minha consciência (que é a minha alma) estava intacta. Ela pensava em tudo, e pedia o que queria, mas esse pedaço do meu corpo estava fora de mim e definitivamente contra mim. Senti-me despedaçado. Minha consciência estava inteira; meu corpo, porém, estava partido...”

 

“Não dramatiza, Dick. Vamos com calma...”

 

“Calma é a palavra de ordem no Brasil! Fiquei intrigado e surpreendido com essa subversão do meu lado esquerdo porque sou canhoto. Como é que o meu corpo (o único que possuo) fez isso comigo? Em algumas horas, foi-se um lado.

 

Ora, isso só ocorre com um humano que, a partir do nascimento, começa uma luta para inventar e domar o seu corpo.

 

Um combate curioso porque, no fim, a gente sabe que o corpo vai embora.”

 

“Deve ser doloroso sentir essa divisão...”

 

“Mais que isso, o nosso corpo é o instrumento pelo qual atuamos no mundo. Ele é vida e a minha mais triste experiência foi sentir que um lado dele havia me abandonado.

 

Esse sentimento de uma meia-morte só me abandonou quando comecei a mexer o braço e a andar.”

 

“Bob (era assim que ele me chamava quando queria me provocar), quando um pedaço da sua subjetividade não lhe obedece, a vida vira um barco numa tempestade e você pensa que vai morrer; aliás, mais que isso, você fica meloso – e, muito pior, você tem pena de si mesmo e pode até chorar.

 

É triste sentir essa covardia, esse medo real da morte que, cedo ou tarde, virá...”

 

A essa altura, quem estava sentindo a perna dormente era eu que, no meu raro mutismo, ouvia parte dessas confidências que meu amigo considerava vergonhosas. E eu, brasileiro, ouvia comovido porque, como todo mundo, jamais deixei de temer a morte, mas pensava (também como todo mundo) que ela estava sempre longe, muito longe de todos nós.

 

(Roberto da Mata, Reflexões de um enfermo. https://digital.estadao.com.br, 19.07.2023. Adaptado)

O drama pessoal vivido pela vítima de AVC do texto provoca no amigo
  1. Aempatia, causada pelo excesso de resignação manifestado pelo doente.
  2. Btédio, pois precisou ouvir uma longa exposição sem poder se manifestar.
  3. Cconstrangimento, em função do fato de ser brasileiro e não poder ajudar.
  4. Demoção, pois o impacto da situação rememorou-lhe a fragilidade da vida.
  5. Erevolta, já que a doença atingira as funções intelectuais de seu mentor.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoD — emoção, pois o impacto da situação rememorou-lhe a fragilidade da vida.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

O drama do AVC e a reação do amigo

Gabarito: letra D. O drama pessoal vivido pela vítima de AVC provoca no amigo emoção, pois o impacto da situação rememorou-lhe a fragilidade da vida. A passagem que ancora essa leitura está no último parágrafo: "E eu, brasileiro, ouvia comovido porque, como todo mundo, jamais deixei de temer a morte, mas pensava (também como todo mundo) que ela estava sempre longe, muito longe de todos nós." A palavra "comovido" é a pista direta da emoção, e a reflexão sobre a morte — que "estava sempre longe" — é exatamente a fragilidade da vida que o relato do amigo trouxe à tona.

O comando: o que a banca pede

O enunciado pergunta "O drama pessoal vivido pela vítima de AVC do texto provoca no amigo" — ou seja, quer o efeito emocional que a narrativa do doente causa no narrador (o amigo Roberto). Isso é uma questão de inferência: a resposta não está escrita com todas as letras ("o amigo sentiu X"), mas é uma dedução ancorada em pistas do texto. Não se trata de compreensão literal (localizar uma frase), e sim de interpretar o que as palavras do narrador revelam sobre seu estado de espírito.

O texto: onde mora a resposta

O texto é uma crônica em que o narrador reproduz o diálogo com Richard Moneygrand, vítima de AVC. O amigo descreve a paralisia, a sensação de "meia-morte", o medo da morte. No final, o narrador sai do papel de mero transcritor e revela sua reação:

"A essa altura, quem estava sentindo a perna dormente era eu que, no meu raro mutismo, ouvia parte dessas confidências que meu amigo considerava vergonhosas. E eu, brasileiro, ouvia comovido porque, como todo mundo, jamais deixei de temer a morte, mas pensava (também como todo mundo) que ela estava sempre longe, muito longe de todos nós."

O trecho é decisivo: "ouvia comovido" — comovido é sinônimo de emocionado. E a razão da comoção é explicitada: o relato do amigo fez o narrador confrontar a própria mortalidade ("jamais deixei de temer a morte"), algo que ele, como todo mundo, preferia manter distante ("pensava que ela estava sempre longe"). O drama do outro rememorou-lhe a fragilidade da vida — exatamente o que a alternativa D afirma.

A técnica: inferência com pista, não extrapolação

Aqui vale a distinção entre inferência legítima e extrapolação. Inferência legítima é aquela que se apoia em pressupostos — pistas deixadas pelo próprio texto. O verbo "comovido" é uma pista linguística clara; a reflexão sobre a morte é outra. A alternativa D apenas parafraseia essa pista: troca "comovido" por "emoção" e explica o motivo ("fragilidade da vida") que o texto explicita. Já as demais alternativas extrapolam: atribuem ao narrador sentimentos que o texto não autoriza — tédio, constrangimento, revolta — ou distorcem o que está dito (empatia por "resignação" que não existe).

Análise das alternativas

Alternativa A — ❌ Incorreta

Empatia, causada pelo excesso de resignação manifestado pelo doente. O texto não fala em "resignação" do doente. Richard Moneygrand descreve a experiência com sofrimento e até autopiedade ("você tem pena de si mesmo"), mas não há nenhuma passagem que o apresente como resignado. A alternativa extrapola — acrescenta um atributo (resignação) que não está no texto e ainda o usa como causa da empatia. Além disso, o texto não diz que o amigo sentiu "empatia" especificamente; diz que ouviu "comovido".

Alternativa B — ❌ Incorreta

Tédio, pois precisou ouvir uma longa exposição sem poder se manifestar. O narrador diz que ouviu "no meu raro mutismo" — mas mutismo não é tédio; é silêncio por comoção. O texto não dá nenhuma pista de aborrecimento; pelo contrário, o narrador está comovido. A alternativa contradiz o texto ao trocar o sentimento real (emoção) por outro (tédio) que não tem respaldo. Além disso, "sem poder se manifestar" é uma interpretação forçada: o narrador escolhe ouvir, não é impedido.

Alternativa C — ❌ Incorreta

Constrangimento, em função do fato de ser brasileiro e não poder ajudar. O narrador se identifica como "brasileiro" no trecho final, mas isso não gera constrangimento — é apenas uma forma de dizer "como qualquer pessoa". Não há no texto nenhuma menção a "não poder ajudar" ou a um sentimento de vergonha. A alternativa extrapola ao inventar uma relação causal entre a nacionalidade e um suposto constrangimento. O texto diz que o narrador ouviu "comovido", não "constrangido".

Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO

Emoção, pois o impacto da situação rememorou-lhe a fragilidade da vida. Esta é a única alternativa inteiramente sustentada pelo texto. A pista está em "ouvia comovido" e na reflexão sobre a morte: o relato do amigo fez o narrador lembrar que a vida é frágil e que a morte, embora temida, "estava sempre longe" — até deixar de estar. A alternativa parafraseia com precisão: "emoção" = "comovido"; "rememorou-lhe a fragilidade da vida" = a reflexão sobre a morte que o texto explicita. Não há acréscimo nem distorção.

Alternativa E — ❌ Incorreta

Revolta, já que a doença atingira as funções intelectuais de seu mentor. O texto diz explicitamente o contrário: Richard Moneygrand afirma que "a minha consciência (que é a minha alma) estava intacta". A doença paralisou o lado esquerdo do corpo, mas não atingiu as funções intelectuais. A alternativa contradiz o texto ao afirmar o oposto do que está escrito. Além disso, não há nenhum sentimento de revolta no narrador — ele está comovido, não indignado.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a tendência de projetar sentimentos não ditos. As alternativas B, C e E parecem plausíveis se você "imaginar" como reagiria, mas o texto só autoriza a emoção (D). Desconfie de qualquer alternativa que dependa de suposições externas.

PEGA ESSA DICA!

Em questões de efeito no interlocutor, procure verbos e adjetivos que revelem o estado emocional do personagem (aqui: "comovido"). Eles são a pista que separa a inferência legítima da extrapolação.

Conclusão: a resposta correta é a letra D, pois é a única que se apoia diretamente nas pistas textuais — "ouvia comovido" e a reflexão sobre a morte. As demais ou extrapolam (A, C) ou contradizem o texto (B, E).

Gabarito: letra D

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