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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — VUNESP 2023

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
vu185270
Banca
VUNESP
Órgão
Pref SBO
Ano
2023
Cargo
Ana ( )

Minha contribuição à humanidade.

 

Talvez, por alguma lei divina ou natural, a cada ser humano corresponda uma única grande ideia. Em dado momento, no curso de nossa medíocre existência, esta ideia se pendurará no trapézio que trazemos no cérebro, como diria Machado de Assis, “se porá a bracejar, a pernear, a fazer as mais arrojadas cambalhotas de acrobata”, até que, súbito, ela dará um grande salto, estenderá seus braços e pernas, tomará a forma de um X e dirá: decifra-me ou devoro-te.

 

Claro que há gênios como Leonardo da Vinci, que projetou helicópteros, paraquedas, tanques de guerra e um zilhão de outros artefatos, mas nós, os simples mortais, temos de estar sempre atentos para perceber quando a grande ideia, filha única e de mãe solteira, bater à nossa porta, sob o risco de que ela passe batido e desperdicemos o resto dos nossos dias no lodaçal do arrependimento.

 

Minha ideia veio, como a maioria nos chega, num momento de distração. Eu estava lavando a louça e entendi, naquele instante, que o maior problema de lavar a louça é o fazermos de pé. E por que lavamos louça de pé? Porque ainda não haviam inventado a cadeira de lavar louça.

 

Não se trata, é preciso explicar, apenas de uma cadeira, mas de um conjunto cadeira-pia. Meu modelo lembra o de uma escrivaninha. Há um espaço embaixo da cuba onde se pode espichar as pernas. A cadeira será giratória, é claro, porque lavar louça é uma atividade que requer bastante movimentação horizontal. Pegar o detergente na direita, colocar os pratos no escorredor, à esquerda, secar a mão no pano de prato pendurado no fogão, na extrema esquerda, pegar o rodinho apoiado na parede, na extrema direita. A cadeira terá um apoio para a lombar e dois para os braços. Será revestida de material impermeável, é claro, e terá rodinhas. Assim, a pessoa poderá guardar os pratos no armário sem ter de se levantar, deslizando pela cozinha com um único impulso dado pelas pernas.

 

Não precisam agradecer. Podem mandar construir o conjunto cadeira-pia e vender por aí. Não quero lucrar com minha invenção. As 10 milhões de coroas suecas a serem dadas pela Fundação Nobel já estarão de bom tamanho.

 

(Antonio Prata. Folha de S. Paulo. 12.08.2023. Adaptado)

Com base na crônica, é correto afirmar que o autor
  1. Aironiza as diversas invenções do italiano Leonardo da Vinci, como se não se tratasse de coisas importantes, mas de meros objetos sem utilidade.
  2. Bconfere um valor excessivo à sua invenção quando imagina que ela poderá lhe render um prêmio da Fundação Nobel.
  3. Ccria um tipo de móvel inovador em sua mente, mas que é impossível de ser realizado do modo como ele descreve.
  4. Dpressupõe que todas as pessoas odeiam lavar louça e que irão se arrepender se não derem ouvido à sua ideia.
  5. Edescreve o modo de utilização de seu conjunto cadeira-pia, o qual havia sido planejado cuidadosamente por ele em seu tempo livre.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoB — confere um valor excessivo à sua invenção quando imagina que ela poderá lhe render um prêmio da Fundação Nobel.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Interpretação de texto: a ironia da invenção banal

Gabarito: letra B. O autor confere um valor excessivo à sua invenção ao imaginar que ela poderá lhe render um prêmio da Fundação Nobel, como se lê no último parágrafo: "As 10 milhões de coroas suecas a serem dadas pela Fundação Nobel já estarão de bom tamanho." A alternativa B é a única que capta a ironia central da crônica: o contraste entre a banalidade da invenção (uma cadeira para lavar louça) e a grandiosidade do prêmio imaginado.

O comando pede uma compreensão do texto — "é correto afirmar que o autor" —, ou seja, a resposta deve ser uma paráfrase fiel de uma informação explícita, sem deduções ou acréscimos. A tarefa é localizar a passagem que sustenta cada alternativa e verificar se ela diz exatamente o que a alternativa afirma.

O texto é uma crônica humorística de Antonio Prata. O autor narra o momento em que teve uma "grande ideia": inventar uma cadeira para lavar louça. Ele descreve o invento em detalhes (giratória, com rodinhas, apoio para lombar, material impermeável) e, no final, faz uma piada: diz que não quer lucrar com a invenção, mas aceitaria o prêmio Nobel. O humor está justamente nessa desproporção — uma ideia trivial sendo tratada como digna do maior prêmio científico do mundo.

A técnica para resolver é testar cada alternativa perguntando: o texto autoriza esta afirmação, ou ela exige acrescentar algo de fora? A alternativa correta é a que encontra eco literal no texto; as incorretas ou extrapolam, ou contradizem, ou tangenciam o que está escrito.

A ironia é uma figura de pensamento em que se diz o contrário do que se quer dar a entender, geralmente com intenção crítica ou humorística. Aqui, o autor não acredita realmente que ganhará o Nobel; ele usa o exagero para ridicularizar a própria pretensão. Perceber isso é essencial para não cair na armadilha de levar a afirmação ao pé da letra.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a ironia: o autor trata uma invenção banal como digna do Nobel, e a alternativa correta capta esse exagero cômico. As demais ou extrapolam (A, D) ou contradizem o texto (C, E).

PEGA ESSA DICA!

Ao ler uma crônica, identifique o tom (humorístico, crítico, irônico) antes de julgar as alternativas. A ironia muitas vezes está no exagero — e a resposta correta costuma reconhecer esse exagero.

Alternativa A — ❌ Incorreta

A alternativa afirma que o autor ironiza as invenções de Leonardo da Vinci como se fossem "meros objetos sem utilidade". O texto, porém, não faz isso. No 2º parágrafo, o autor reconhece a genialidade de Da Vinci:

"Claro que há gênios como Leonardo da Vinci, que projetou helicópteros, paraquedas, tanques de guerra e um zilhão de outros artefatos"

A palavra "gênios" e a enumeração de invenções mostram admiração, não ironia. A alternativa extrapola ao atribuir ao autor uma crítica que ele não faz.

Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A alternativa afirma que o autor confere um valor excessivo à sua invenção ao imaginar que ela poderá render um prêmio da Fundação Nobel. Isso está explícito no último parágrafo:

"Não quero lucrar com minha invenção. As 10 milhões de coroas suecas a serem dadas pela Fundação Nobel já estarão de bom tamanho."

O autor diz que não quer lucro, mas aceitaria o Nobel — um prêmio de prestígio mundial. A desproporção entre a invenção (uma cadeira para lavar louça) e o prêmio é exatamente o exagero irônico que a alternativa capta. É uma paráfrase fiel do texto.

Alternativa C — ❌ Incorreta

A alternativa afirma que o invento é impossível de ser realizado do modo como descrito. O texto, porém, descreve o conjunto cadeira-pia com detalhes plausíveis:

"A cadeira será giratória, é claro, porque lavar louça é uma atividade que requer bastante movimentação horizontal."

Não há nenhuma indicação de impossibilidade. A alternativa contradiz o texto, que apresenta o invento como viável e até convida o leitor a construí-lo: "Podem mandar construir o conjunto cadeira-pia e vender por aí."

Alternativa D — ❌ Incorreta

A alternativa afirma que o autor pressupõe que todas as pessoas odeiam lavar louça e que se arrependerão se não derem ouvido à sua ideia. O texto não diz isso. O autor fala de sua própria experiência:

"Minha ideia veio, como a maioria nos chega, num momento de distração. Eu estava lavando a louça e entendi, naquele instante, que o maior problema de lavar a louça é o fazermos de pé."

Ele não generaliza para "todas as pessoas" nem fala em arrependimento. A alternativa extrapola ao transformar uma opinião pessoal em uma afirmação universal.

Alternativa E — ❌ Incorreta

A alternativa afirma que o autor descreve o modo de utilização do conjunto cadeira-pia, o qual havia sido planejado cuidadosamente por ele em seu tempo livre. O texto descreve o uso, mas não diz que foi planejado em "tempo livre". Na verdade, a ideia veio "num momento de distração", enquanto lavava louça:

"Minha ideia veio, como a maioria nos chega, num momento de distração. Eu estava lavando a louça"

A alternativa contradiz o texto ao acrescentar a informação de "tempo livre", que não existe. Além disso, o texto descreve o invento, mas não o "modo de utilização" como um manual — é uma descrição do objeto.

Conclusão: a única alternativa inteiramente sustentada pelo texto é a B, que reconhece a ironia do autor ao tratar uma invenção banal como digna do Nobel. As demais ou extrapolam (A, D) ou contradizem o texto (C, E).

Gabarito: letra B

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