Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — VUNESP 2023
Português›Interpretação de Textos (Compreensão)
Código
vu185274
Banca
VUNESP
Órgão
Pref SBO
Ano
2023
Cargo
Ana ( )
Para comer depois
Na minha cidade, nos domingos de tarde,
as pessoas se põem na sombra com faca e laranjas.
Tomam a fresca e riem do rapaz de bicicleta,
a campainha desatada, o aro enfeitado de laranjas:
Daqui a muito progresso tecno-ilógico,
quando for impossível detectar o domingo
pelo sumo das laranjas no ar e bicicletas,
em meu país de memória e sentimento,
basta fechar os olhos:
é domingo, é domingo, é domingo.
(Adélia Prado. Bagagem. Rio de Janeiro: Record, 1976.)
A partir da leitura do poema, é correto afirmar que o eu-lírico
Aimagina uma cidade fictícia em que as pessoas sejam mais felizes e vivam uma vida mais simples do que aquela que existe na realidade.
Bfala dos alimentos que são consumidos no domingo com o objetivo de mostrar a vida de fartura que existe nas cidades do interior do país.
Cteme a chegada da tecnologia porque ela pode modernizar a cidade e fazer as pessoas trabalharem até mesmo aos finais de semana.
Dacredita que o progresso tecnológico irá descaracterizar o modo de vida em sua cidade, que permanecerá vivo em sua memória.
Edefende que as pessoas recusem o uso de tecnologia em excesso em suas cidades e mantenham vivas as tradições locais.
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GabaritoD — acredita que o progresso tecnológico irá descaracterizar o modo de vida em sua cidade, que permanecerá vivo em sua memória.
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Interpretação do poema "Para comer depois", de Adélia Prado
Gabarito: letra D. O eu-lírico acredita que o progresso tecnológico irá descaracterizar o modo de vida de sua cidade, que permanecerá vivo em sua memória. Essa leitura se ancora diretamente nos versos finais do poema, em que o eu-lírico projeta um futuro de "muito progresso tecno-ilógico" e afirma que, quando o domingo não puder mais ser detectado "pelo sumo das laranjas no ar e bicicletas", bastará fechar os olhos para que o domingo reviva em seu "país de memória e sentimento".
O comando pede uma interpretação do poema: não se trata de localizar uma informação literal, mas de depreender a atitude do eu-lírico diante do progresso. A resposta correta é a que sintetiza com fidelidade o movimento do texto: o progresso é visto como algo que descaracteriza o modo de vida simples (o domingo com laranjas e bicicletas), mas esse modo de vida permanece vivo na memória do eu-lírico, que pode revivê-lo apenas fechando os olhos.
O poema descreve uma cena bucólica e afetiva: pessoas na sombra, com faca e laranjas, rindo de um rapaz de bicicleta. Em seguida, o eu-lírico projeta um futuro em que esse cenário não existirá mais, vítima do "progresso tecno-ilógico". A chave interpretativa está na oposição entre o mundo concreto e sensorial (o sumo das laranjas, as bicicletas) e o mundo da memória e do sentimento, que é o refúgio onde o domingo permanece acessível.
A armadilha central da questão é a extrapolação: várias alternativas acrescentam ideias que não estão no poema, como a defesa de um modo de vida, o temor do trabalho aos finais de semana ou a ideia de uma cidade fictícia. A alternativa D, ao contrário, limita-se a parafrasear o que o texto efetivamente diz, sem acrescentar opiniões ou julgamentos.
"Daqui a muito progresso tecno-ilógico, / quando for impossível detectar o domingo / pelo sumo das laranjas no ar e bicicletas, / em meu país de memória e sentimento, / basta fechar os olhos: / é domingo, é domingo, é domingo."
Este trecho prova a alternativa D: o progresso tornará impossível detectar o domingo pelos sinais sensoriais (o sumo das laranjas, as bicicletas), ou seja, descaracterizará o modo de vida; mas o eu-lírico guarda esse domingo em seu "país de memória e sentimento", onde ele permanecerá vivo — basta fechar os olhos para revivê-lo.
Alternativa A — ❌ Incorreta
A alternativa extrapola o texto ao afirmar que o eu-lírico "imagina uma cidade fictícia em que as pessoas sejam mais felizes". O poema não descreve uma cidade fictícia nem faz comparação de felicidade entre cidades. A cena inicial é apresentada como algo real e afetivo ("Na minha cidade, nos domingos de tarde"), e a projeção futura é sobre a perda desse modo de vida, não sobre a criação de um lugar imaginário. O texto não autoriza a ideia de que as pessoas seriam "mais felizes" em outro lugar.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A alternativa tangencia o tema ao falar de "alimentos consumidos no domingo" e "vida de fartura". O poema menciona laranjas, mas elas funcionam como símbolo do modo de vida simples e sensorial, não como prova de fartura ou de consumo. Não há nenhuma menção a "fartura" ou a "cidades do interior" como tema central. A alternativa reduz o poema a uma leitura literal e superficial, ignorando o sentido figurado e a reflexão sobre o progresso.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A alternativa extrapola ao afirmar que o eu-lírico "teme a chegada da tecnologia porque ela pode fazer as pessoas trabalharem até mesmo aos finais de semana". O poema não menciona trabalho, nem a ideia de que o progresso afetaria o descanso dominical. O que se perde com o progresso é a possibilidade de detectar o domingo pelos sentidos (o sumo das laranjas, as bicicletas), não o descanso em si. A alternativa inventa uma motivação que não está no texto.
Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A alternativa parafraseia fielmente o texto. O eu-lírico afirma que, com o progresso, será impossível detectar o domingo pelos sinais sensoriais — ou seja, o modo de vida será descaracterizado. No entanto, esse modo de vida permanecerá vivo em sua memória ("em meu país de memória e sentimento"), pois basta fechar os olhos para que o domingo se faça presente. A alternativa não acrescenta nada que não esteja no poema.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A alternativa extrapola ao afirmar que o eu-lírico "defende que as pessoas recusem o uso de tecnologia em excesso". O poema não faz uma defesa ou recomendação; ele apenas expressa uma constatação melancólica sobre o futuro. Não há verbo no imperativo nem qualquer tom de aconselhamento. A ideia de "recusar" a tecnologia é uma opinião que o leitor pode ter, mas que o eu-lírico não externa.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a extrapolação — oferece alternativas que acrescentam opiniões ou motivações que não estão no poema (como o temor do trabalho, a defesa das tradições ou a ideia de cidade fictícia). A correta é a única que se limita a parafrasear o que o texto diz.
PEGA ESSA DICA!
Ao interpretar um poema, identifique a atitude do eu-lírico (o que ele sente/pensa) e busque a alternativa que traduza essa atitude sem acrescentar julgamentos. Desconfie de alternativas que introduzam verbos como "defende", "teme" ou "imagina" se o texto não os sustentar.