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Questão de Português — Figuras de Linguagem — VUNESP 2023

PortuguêsFiguras de Linguagem
Código
vu185281
Banca
VUNESP
Órgão
FAMEMA
Ano
2023
Cargo
Vest ( )

Leia o conto “Diálogo das notas”, de Carlos Drummond de Andrade, para responder a questão.

 

A nota de cinco mil cruzeiros estava preocupada. Anunciaram para breve a sua entrada em circulação, e já passavam muitos sóis sem que a retirassem do almoxarifado. No almoxarifado, chega-lhe o zum-zum de que continuamente as coisas sobem de preço e as notas baixam de valor. Embora os algarismos continuem os mesmos, cada dia significam uma realidade menor. Quando chegar minha vez de andar por aí — receia a nota de cinco mil — quanto valerão meus cinco mil?

 

Ao ser desenhada, sentira-se toda garbosa, cheia de minhocas na cabeça. Iria suplantar as coleguinhas, dando a vera ideia de grandeza. Mas até agora nada, e a nota inquieta- se:

 

— Quando vejo o cruzeiro metálico passar do tamanho de medalha de chocolate ao de botão de manga de camisa (e amanhã ele chegará talvez a semente de tangerina), sinto que meu futuro não será nada fagueiro. Vão-me reduzir às proporções de ficha de ônibus, feita de papel, e servirei para pagar a passagem de um coletivo circular. No máximo.

 

Estava nessa tristeza quando lhe apareceu, ainda em forma de neblina futura, o projeto da nota de cinco milhões, com efígie de cabeça para baixo, e sussurrou-lhe:

 

— Maninha, depois de mim virá a cédula de cinco trilhões, e assim sucessivamente, pois infinito é o número dos números. Até que um dia o homem se cansará de escrever no papel grandezas que são insignificâncias, e passará a escrever insignificâncias que valham grandezas. Já pressinto no horizonte maravilhosa nota zero, que nos resumirá a todas e alcançará o máximo valor metafísico.

 

(Carlos Drummond de Andrade. Contos plausíveis, 2012.)

Na construção de seu conto, Drummond recorre essencialmente ao seguinte recurso retórico:
  1. Ahipérbole.
  2. Beufemismo.
  3. Cantítese.
  4. Dpersonificação.
  5. Epleonasmo.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoD — personificação.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Figuras de linguagem no conto de Drummond

Gabarito: letra D. O recurso essencial do conto é a personificação (também chamada prosopopeia), pois Drummond atribui características humanas a um ser inanimado — a nota de cinco mil cruzeiros — que sente, pensa, fala e se preocupa. Como se lê já na abertura: "A nota de cinco mil cruzeiros estava preocupada" — uma cédula não pode se preocupar; isso é traço humano. As demais figuras (hipérbole, eufemismo, antítese, pleonasmo) aparecem pontualmente, mas não são o recurso essencial que estrutura o conto.

O comando

A questão pede que você identifique o recurso retórico essencial na construção do conto. Isso é diferente de perguntar "qual figura aparece no texto?" — várias figuras podem aparecer; a banca quer a que sustenta a construção narrativa, o recurso que dá vida ao texto. Em questões de figura de linguagem, o caminho é: (1) reconhecer a definição de cada figura; (2) localizar no texto a ocorrência mais marcante e estruturante; (3) eliminar as que são apenas acessórias.

O texto: a nota que sente e fala

O conto inteiro é construído a partir de uma personificação: a nota de cinco mil cruzeiros é o personagem principal, com emoções ("estava preocupada", "sentira-se toda garbosa", "inquieta-se"), pensamentos ("receia a nota de cinco mil") e até fala (nos diálogos com a nota de cinco milhões). Veja as marcas no texto:

"A nota de cinco mil cruzeiros estava preocupada."

"Quando chegar minha vez de andar por aí — receia a nota de cinco mil — quanto valerão meus cinco mil?"

"Estava nessa tristeza quando lhe apareceu... o projeto da nota de cinco milhões... e sussurrou-lhe"

Preocupar-se, recear, sentir tristeza, sussurrar — tudo isso é comportamento humano atribuído a um objeto inanimado. É exatamente a definição de personificação (ou prosopopeia): conferir a seres inanimados ou irracionais ações, sentimentos ou falas próprias de seres humanos.

A técnica: como distinguir as figuras

Vamos revisar cada figura para você nunca mais confundir:

  • Personificação (prosopopeia): atribui características humanas a seres inanimados, animais ou entes abstratos. Ex.: "As árvores sussurravam ao vento." É o caso do conto.

  • Hipérbole: exagero intencional. Ex.: "Morreu de rir." No texto, há exageros ("infinito é o número dos números"), mas são pontuais, não estruturais.

  • Eufemismo: suaviza uma ideia desagradável. Ex.: "Ele partiu cedo demais" (morreu). Não há eufemismo no conto.

  • Antítese: aproximação de palavras ou expressões de sentido oposto. Ex.: "O amor e o ódio caminham juntos." No texto, há oposições ("grandezas que são insignificâncias"), mas não é o recurso essencial.

  • Pleonasmo: repetição de ideia com palavras diferentes. Ex.: "Subir para cima." Não ocorre no conto.

Análise das alternativas

1Personificação (prosopopeia)
Atribui características humanas a seres inanimados
Recurso essencial do conto
2Hipérbole
Exagero intencional
Acessória no texto
3Eufemismo
Suaviza ideia desagradável
Não ocorre no conto
4Antítese
Aproxima termos opostos
Acessória no texto
5Pleonasmo
Repete ideia com outras palavras
Não ocorre no conto
Figuras de linguagem
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Figuras de linguagem: Personificação (prosopopeia) (Atribui características humanas a seres inanimados, Recurso essencial do conto); Hipérbole (Exagero intencional, Acessória no texto); Eufemismo (Suaviza ideia desagradável, Não ocorre no conto); Antítese (Aproxima termos opostos, Acessória no texto); Pleonasmo (Repete ideia com outras palavras, Não ocorre no conto)

Alternativa A — ❌ Incorreta

Hipérbole é o exagero intencional. No conto, há exageros, como a "maravilhosa nota zero" ou "infinito é o número dos números", mas eles são acessórios, não o recurso que estrutura a narrativa. A hipérbole não explica o fato de a nota sentir e falar. A alternativa tangencia o texto: reconhece um elemento presente, mas erra o foco.

Alternativa B — ❌ Incorreta

Eufemismo é o emprego de expressão mais suave para comunicar algo desagradável. Não há, no conto, nenhuma atenuação de uma ideia pesada — a nota não "partiu", não "descansou"; ela simplesmente se preocupa e conversa. A alternativa foge ao tema: não há eufemismo no texto.

Alternativa C — ❌ Incorreta

Antítese é a aproximação de termos de sentido oposto. O conto apresenta oposições conceituais ("grandezas que são insignificâncias"), mas elas são secundárias; o recurso essencial é a personificação. A alternativa restringe o alcance: pega um detalhe e o eleva à condição de recurso principal, o que o texto não autoriza.

Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO

Personificação (ou prosopopeia) é a atribuição de características humanas a seres inanimados. O conto inteiro é construído sobre isso: a nota de cinco mil cruzeiros preocupa-se, receia, sente-se garbosa, inquieta-se, fica triste e dialoga com a nota de cinco milhões. A passagem que prova:

"A nota de cinco mil cruzeiros estava preocupada."

"Quando chegar minha vez de andar por aí — receia a nota de cinco mil — quanto valerão meus cinco mil?"

"Estava nessa tristeza quando lhe apareceu... o projeto da nota de cinco milhões... e sussurrou-lhe"

Esses verbos e sentimentos são humanos; atribuí-los a uma cédula é personificação. É o recurso que dá vida ao conto e o torna possível.

Alternativa E — ❌ Incorreta

Pleonasmo é a repetição de uma ideia já contida em outra palavra ("subir para cima"). Não há pleonasmo no conto. A alternativa contradiz o texto: não há redundância expressiva; há, sim, personificação.

Fechamento

A regra de ouro: quando a banca perguntar pelo recurso essencial, procure a figura que estrutura o texto, não a que aparece uma vez ou outra. No conto de Drummond, a nota é um personagem que sente e fala — isso é personificação, e é isso que a alternativa D captura. As demais ou não ocorrem (eufemismo, pleonasmo) ou são acessórias (hipérbole, antítese).

PEGA ESSA DICA!

Em questões de figura de linguagem, sublinhe os verbos e sentimentos atribuídos a seres não humanos — eles denunciam a personificação. E desconfie de alternativas que citam figuras que "até aparecem", mas não são o eixo do texto.

Gabarito: letra D

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