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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — VUNESP 2023

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
vu185288
Banca
VUNESP
Órgão
FAMERP
Ano
2023
Cargo
Vest ( )

Mulheres e homens têm apenas 30 mil genes! A divulgação desse dado pelo Projeto Genoma foi um balde de água fria no orgulho humano: imaginávamos que fossem pelo menos 100 mil. Se as moscas têm 13 mil genes, qualquer verme, 20 mil, um abacateiro, 25 mil, e os camundongos que caçamos nas ratoeiras têm 30 mil, 100 mil para nós parecia uma estimativa razoável. Afinal, não foi culpa nossa havermos sido criados à imagem e semelhança de Deus. A bem da verdade, já sabíamos que cerca de 98% de nossas sequências de DNA são idênticas às dos chimpanzés. Mas chimpanzés são animais políticos que formam comunidades com culturas próprias, utilizam instrumentos rudimentares e matam seus semelhantes premeditadamente. São, por assim dizer, seres mais humanos. Admitir, no entanto, que nosso genoma é formado pelo mesmo número de genes dos ratos, e que somente 300 genes são responsáveis pelas diferenças entre nós e eles, constitui humilhação inaceitável.

 

A visão antropocêntrica, segundo a qual a vida na Terra teria evoluído dos seres unicelulares para indivíduos cada vez mais complexos até chegar ao homem, é um mau entendimento das leis da natureza. No “ranking” evolutivo, não existe primeira posição. A prova é que as bactérias foram os primeiros habitantes do planeta e não só ainda estão por aí como representam mais da metade da biomassa terrestre, isto é, se somarmos o peso de cada uma, obteremos mais da metade da massa de todos os demais seres vivos somados, incluindo árvores, elefantes e baleias. O Homo sapiens é simplesmente uma entre milhões de espécies. Nascemos há 5 milhões de anos, um segundo evolutivo comparado aos 4 bilhões de anos das bactérias. Não fizemos nenhuma falta à vida na Terra durante praticamente toda a existência dela e, se um dia formos extintos, nenhuma formiga, cigarra ou besouro chorará a nossa ausência. A evolução continuará seu caminho inexorável de competição e seleção natural, como ensinaram Charles Darwin e Alfred Wallace.

 

Na verdade, os números do Projeto Genoma são lógicos. Os seres vivos mantêm a quase totalidade de seus genes ocupados na execução das tarefas do dia a dia: respiração, circulação, movimentação, digestão, excreção e produção de energia, entre outras. Muitos desses genes são tão essenciais ao trabalho doméstico que a evolução os preservou praticamente intactos de um ser vivo para outro. Entender a razão pela qual temos 30 mil genes como os ratos é fácil: eles são mamíferos como nós e apresentam fisiologia tão semelhante à nossa que podem ser utilizados em experiências para entender a fisiologia humana. O que intriga na evolução não é a proximidade genética entre as espécies, mas os genes responsáveis pelas diferenças.

 

(Drauzio Varella. Borboletas da alma: escritos sobre

ciência e saúde, 2006. Adaptado.)

Leia o artigo “Sobre homens e ratos”, do médico Drauzio Varella, para responder à questão.     Reveste-se de uma tonalidade irônica o seguinte trecho do artigo:
  1. A“A bem da verdade, já sabíamos que cerca de 98% de nossas sequências de DNA são idênticas às dos chimpanzés.” (1º parágrafo)
  2. B“Afinal, não foi culpa nossa havermos sido criados à imagem e semelhança de Deus.” (1º parágrafo)
  3. C“O Homo sapiens é simplesmente uma entre milhões de espécies.” (2º parágrafo)
  4. D“A evolução continuará seu caminho inexorável de competição e seleção natural, como ensinaram Charles Darwin e Alfred Wallace.” (2º parágrafo)
  5. E“Na verdade, os números do Projeto Genoma são lógicos.” (3º parágrafo)
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GabaritoB — “Afinal, não foi culpa nossa havermos sido criados à imagem e semelhança de Deus.” (1º parágrafo)

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Ironia no texto de Drauzio Varella

Gabarito: letra B. A alternativa B é a única que apresenta tom irônico, pois o autor afirma que "não foi culpa nossa havermos sido criados à imagem e semelhança de Deus" em um contexto em que discute a humilhação de ter poucos genes. A ironia está em atribuir a Deus a responsabilidade pela nossa constituição genética modesta, quando a tradição religiosa costuma exaltar a criação divina como algo superior. O trecho inverte essa expectativa, sugerindo que, se fomos criados à imagem de Deus, não deveríamos ter tão poucos genes — daí o tom de zombaria.

O comando da questão

A questão pede que se identifique o trecho com tonalidade irônica. Isso exige uma leitura que vá além do sentido literal: é preciso perceber quando o autor diz o contrário do que aparenta, ou quando usa uma afirmação para criticar ou ridicularizar algo. A ironia é um recurso expressivo que depende do contexto — a mesma frase pode ser neutra em um contexto e irônica em outro.

O texto e o movimento argumentativo

O artigo discute a surpresa e a humilhação diante do fato de os humanos terem apenas 30 mil genes, número igual ao dos ratos. O autor constrói uma sequência de ideias que valorizam a espécie humana (98% de DNA idêntico aos chimpanzés, seres "mais humanos") para, em seguida, revelar a "humilhação inaceitável" de termos o mesmo número de genes que os ratos. É nesse contexto de orgulho ferido que surge a frase da alternativa B.

A técnica para identificar a ironia

A ironia ocorre quando há oposição entre o que se diz e o que se quer dizer. No trecho B, o autor diz que "não foi culpa nossa" — como se estivesse nos desculpando — por termos sido criados à imagem de Deus. Mas a sequência do texto mostra que essa "desculpa" é irônica: se fomos criados à imagem de Deus, seria esperado que tivéssemos um genoma superior, não igual ao dos ratos. A frase funciona como uma crítica velada à visão antropocêntrica, que o autor combate no 2º parágrafo.

"Afinal, não foi culpa nossa havermos sido criados à imagem e semelhança de Deus."

A ironia está em usar a criação divina — tradicionalmente vista como ápice da perfeição — para justificar uma limitação (ter poucos genes). O autor não acredita literalmente nessa justificativa; ele a usa para ridicularizar a pretensão humana de superioridade.

Alternativa A — ❌ Incorreta

"A bem da verdade, já sabíamos que cerca de 98% de nossas sequências de DNA são idênticas às dos chimpanzés."

O trecho é informativo e neutro: apresenta um dado científico sem juízo de valor. Não há oposição entre o que se diz e o que se quer dizer. A informação é usada como premissa para o argumento seguinte, mas não contém ironia.

Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO

"Afinal, não foi culpa nossa havermos sido criados à imagem e semelhança de Deus."

Como explicado, o trecho inverte a expectativa: a criação divina, que deveria ser motivo de orgulho, é usada para justificar uma limitação genética. O tom é claramente irônico, pois o autor não acredita que Deus tenha relação com o número de genes — ele usa a frase para criticar a visão antropocêntrica.

Alternativa C — ❌ Incorreta

"O Homo sapiens é simplesmente uma entre milhões de espécies."

O trecho é assertivo e direto: expressa a tese do autor de que não há superioridade humana. Não há inversão de sentido nem tom de zombaria. É uma afirmação séria, alinhada ao argumento do 2º parágrafo.

Alternativa D — ❌ Incorreta

"A evolução continuará seu caminho inexorável de competição e seleção natural, como ensinaram Charles Darwin e Alfred Wallace."

O trecho é explicativo e respeitoso: cita Darwin e Wallace para fundamentar a ideia de que a evolução independe da espécie humana. Não há ironia — o autor concorda com a teoria e a apresenta como fato.

Alternativa E — ❌ Incorreta

"Na verdade, os números do Projeto Genoma são lógicos."

O trecho é conclusivo e racional: introduz a explicação do 3º parágrafo sobre por que os números são lógicos. Não há oposição entre dizer e querer dizer. É uma afirmação séria, sem tom irônico.

Fechamento

A ironia exige que o leitor perceba a intenção crítica por trás das palavras. Na alternativa B, o autor usa a criação divina — símbolo de perfeição — para justificar uma limitação, criando um contraste que revela o tom irônico. Nas demais, o autor fala de forma direta e séria, sem inversão de sentido.

Gabarito: letra B.

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