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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — VUNESP 2023

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
vu185290
Banca
VUNESP
Órgão
FAMERP
Ano
2023
Cargo
Vest ( )

O homem vinha guiando o carro a 120 km/h quando o pneu furou. O carro deu três voltas sobre si mesmo, foi atirado pelos ares, bateu num galho de árvore e, quando ia se esborrachando no chão, alguém o segurou sem que ele pudesse ver quem. Ele ficou um pouco tonto e foi aí que ouviu a voz misteriosa que lhe disse: “Não se estás morto, não! Estás vivo! Eu continuo aqui para proteger-te. Sou teu anjo da guarda. Quando tiveste aquele ataque de coqueluche, aos seis meses de idade, eu estava lá para te salvar. Quando ficaste na frente do trem, aos seis anos, eu estava lá para te ajudar. Quando foste para a guerra na Itália, quando saltaste de paraquedas na Coreia, quando ias te afogando em Copacabana, sempre fui eu quem te ajudou.”

 

“Está bem, está bem, muito obrigado”, disse então o homem agradecido. “Mas onde diabos estava você quando eu me casei?”

 

(Millôr Fernandes. Contos fabulosos, 2007.)

Leia a narrativa “O protetor”, de Millôr Fernandes, para responder à questão.     A pergunta do homem a seu anjo da guarda revela, sobretudo, um sentimento de
  1. Aenfado.
  2. Bindiferença.
  3. Cmágoa.
  4. Dresignação.
  5. Earrogância.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoC — mágoa.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

A pergunta do homem ao anjo da guarda: mágoa ou ironia?

Gabarito: letra C. A pergunta do homem — "Mas onde diabos estava você quando eu me casei?" — revela, sobretudo, mágoa, pois, após ouvir o anjo enumerar os momentos em que o salvou (coqueluche, trem, guerra, paraquedas, afogamento), ele cobra a ausência do protetor justamente no episódio que, para ele, foi o mais marcante e problemático: o casamento. A passagem que ancora essa leitura é a fala final do homem, que contrapõe a lista de salvamentos do anjo com uma pergunta que denuncia uma lacuna: o anjo não estava lá quando ele mais precisou.

O comando pede uma interpretação (o verbo "revela" indica que devemos depreender um sentimento implícito, não localizar uma palavra explícita como "mágoa" no texto). Isso muda a estratégia: não procuramos uma paráfrase direta, mas uma inferência ancorada em pistas — e a pista central é a estrutura de oposição entre o discurso do anjo e a pergunta do homem.

O texto é uma narrativa curta de Millôr Fernandes, com forte tom de humor e ironia. O anjo da guarda desfia uma lista de salvamentos dramáticos (acidente de carro, coqueluche, trem, guerra, paraquedas, afogamento) e o homem, em vez de agradecer ou se emocionar, responde com uma pergunta que desloca o foco: "onde diabos estava você quando eu me casei?". O advérbio "diabos" e a conjunção adversativa "mas" já sinalizam um tom de cobrança e ressentimento. A mágoa está no fato de que, para o homem, o casamento — um evento da vida adulta, de escolha e de sofrimento potencial — foi o momento em que o anjo falhou, ausentando-se.

A técnica que decide a questão é a análise do efeito de sentido da pergunta final. As alternativas A, B, D e E descrevem sentimentos que não se sustentam nas pistas textuais:

  • Enfado (A) seria tédio, aborrecimento com o discurso do anjo — mas a pergunta não demonstra cansaço, e sim uma cobrança pontual e irônica.

  • Indiferença (B) seria falta de interesse — mas o homem se importa o suficiente para questionar a ausência do anjo em um momento específico.

  • Resignação (D) seria aceitação passiva — mas a pergunta é uma crítica ativa, não uma conformação.

  • Arrogância (E) seria superioridade — mas o homem não se coloca acima do anjo; ele apenas aponta uma falha.

A mágoa (C) é o único sentimento que explica a pergunta: há um ressentimento por ter sido protegido nos perigos físicos, mas abandonado justamente no casamento, que ele considera o momento em que mais precisava de proteção. A ironia do texto — o anjo salva de perigos mortais, mas não salva do casamento — reforça a mágoa como o sentimento predominante.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a extrapolação — o candidato pode achar que a pergunta é apenas uma piada (ironia) e marcar "indiferença" ou "enfado", mas a estrutura de oposição (lista de salvamentos × ausência no casamento) aponta para um ressentimento, que é a mágoa.

PEGA ESSA DICA!

Em questões de interpretação, grife o comando ("revela" = inferência) e procure a pista textual que sustenta o sentimento. Aqui, a pista é a conjunção "mas" e o advérbio "diabos", que marcam a cobrança.

Alternativa A — ❌ Incorreta

Enfado seria tédio ou aborrecimento com o discurso do anjo. O homem não demonstra cansaço; ele interage com o anjo, fazendo uma pergunta que revela um incômodo específico. A fala "Está bem, está bem, muito obrigado" é uma resposta educada, mas a pergunta final mostra que ele não está apenas entediado — está ressentido.

Alternativa B — ❌ Incorreta

Indiferença seria falta de interesse ou de preocupação. O homem, ao contrário, demonstra interesse ao questionar a ausência do anjo no casamento. Se fosse indiferente, não faria a pergunta; aceitaria a lista de salvamentos sem cobrança.

Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO

Mágoa é o ressentimento por uma falta, uma decepção. O homem ouve o anjo listar salvamentos em momentos de perigo físico e, em vez de se sentir grato, cobra a ausência no casamento: "Mas onde diabos estava você quando eu me casei?". A conjunção "mas" estabelece uma oposição entre a lista do anjo e a experiência do homem, e o advérbio "diabos" intensifica a cobrança. A mágoa está em sentir-se desprotegido justamente no momento que ele considera mais significativo.

Alternativa D — ❌ Incorreta

Resignação seria aceitação passiva e conformada. A pergunta do homem é uma crítica ativa — ele não aceita a explicação do anjo; ele a questiona. A resignação seria expressa por um silêncio ou por um "tudo bem", não por uma pergunta que denuncia uma falha.

Alternativa E — ❌ Incorreta

Arrogância seria um sentimento de superioridade. O homem não se coloca acima do anjo; ele apenas aponta uma inconsistência (proteção nos perigos, ausência no casamento). A arrogância exigiria um tom de desdém ou de menosprezo, que não está presente na fala.

Gabarito: letra C. A pergunta final do homem é a chave: ela revela mágoa porque o anjo, que o protegeu de perigos mortais, não esteve presente no casamento — o momento em que o homem sentiu falta de proteção. As demais alternativas descrevem sentimentos que não se sustentam nas pistas textuais, pois ou ignoram a cobrança (indiferença, resignação) ou acrescentam um tom que o texto não autoriza (enfado, arrogância).

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