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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — VUNESP 2023

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
vu185293
Banca
VUNESP
Órgão
UNESP
Ano
2023
Cargo
V - - Vest ( )

Para responder a questão, leia a crônica “Despedida”, de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), publicada originalmente no Jornal do Brasil em 05.06.1971, e a resposta de Edson Arantes do Nascimento (1940-2022), o Pelé, publicada no mesmo jornal em 29.06.1971.

 

Pelé despede-se em julho da Seleção Brasileira. Decidiu, está decidido. Querem que ele continue, mas sua educação esportiva se dilata em educação moral, e Pelé dá muito apreço à sua palavra. Se atender aos apelos, ficará bem com todo o mundo e mal consigo. Pelé não quer brigar com Pelé. Não abandonará de todo o futebol, pois continuará jogando pelo seu clube. Não vejo contradição nisto. Faz como um grande proprietário de terras, que trocasse a fazenda pela miniatura de um sítio: continua a ter águas, plantas, criação, a mesma luminosidade das horas — menos a imensidão, que acaba cansando. Ou como o leitor de muitos livros, que passasse a ler um só que contém o resumo de tudo. Pelé quer cultivar sua vida a seu gosto, ele que a vivia tanto ao gosto dos outros. Sua municipalização voluntária me encanta. Não é só pelo ato de sabedoria, que é sair antes que exijam a nossa saída. Uma atitude destas indica mais cautela do que desprendimento. É pelo ato de escolha — de escolher o mais simples, envolvendo renúncia e gentileza. As massas brasileiras e internacionais não poderão chamá-lo de ingrato, pois continuarão a vê-lo, aqui e no estrangeiro, em seu jogo de astúcia e arte. Mas ele passará a jogar como particular, um famoso incógnito, que não aspira às glórias de um quarto campeonato mundial. E com isso, dará lugar a outro, ou a outros, que por mais que caprichassem ficavam sempre um tanto encobertos pela sombra de Pelé — a sombra de que espontaneamente se desfaz. Bela jogada, a sua: a de não jogar como campeão, sendo campeoníssimo.

 

(Carlos Drummond de Andrade. Quando é dia de futebol, 2014.)

 

Estou comovido. Entre tantas coisas que dizem a meu respeito, generosas ou menos boas, suas palavras tiveram a rara virtude de se lembrarem do homem, da pessoa humana que quero ser, demonstrando compreensão e carinho por essa condição fundamental. Recortei sua crônica, não porque fala de mim, mas porque traduz, no primor de seu estilo, um apoio que me incentiva e me conforta.

 

(Pelé apud Carlos Drummond de Andrade. Quando é dia de futebol, 2014.)

Em sua resposta, Pelé mostra-se
  1. Aconstrangido por ter sido objeto de uma crônica de um dos maiores escritores brasileiros.
  2. Bemocionado pelo fato de Drummond ter enaltecido sua grandeza como jogador.
  3. Csensibilizado pelo fato de Drummond ter sabido separar o homem do esportista.
  4. Dconsternado por Drummond ter deliberadamente ignorado sua vida pessoal.
  5. Esurpreso pelo fato de Drummond evitar demovê-lo de sua decisão de abandonar o futebol.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoC — sensibilizado pelo fato de Drummond ter sabido separar o homem do esportista.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

A resposta de Pelé: a separação entre o homem e o esportista

Gabarito: letra C. Pelé mostra-se sensibilizado porque Drummond, em sua crônica, soube enxergar e valorizar a pessoa humana por trás do ídolo do futebol. A prova está na resposta do próprio Pelé, quando ele afirma que as palavras de Drummond "tiveram a rara virtude de se lembrarem do homem, da pessoa humana que quero ser". A alternativa C é a única que capta exatamente esse elogio: a separação entre a dimensão pessoal e a dimensão esportiva.

O comando da questão

O enunciado pergunta como Pelé se mostra em sua resposta. Isso é uma questão de compreensão (recorrência): a resposta está explícita no texto de Pelé, não exige inferência. Basta localizar a passagem em que ele descreve seu próprio sentimento e o motivo dele. O verbo "mostra-se" aponta para o estado emocional declarado — e Pelé declara, logo na primeira linha: "Estou comovido".

O texto: o que Pelé diz e por quê

O texto de Pelé é uma carta-resposta à crônica de Drummond. Ele não discute futebol, táticas ou títulos. Ele agradece o que chama de "compreensão e carinho" — e especifica o que o tocou: o fato de Drummond ter lembrado "do homem, da pessoa humana que quero ser". Ou seja, o que sensibiliza Pelé não é o elogio ao craque, mas o reconhecimento da pessoa. A alternativa C parafraseia exatamente isso: "soube separar o homem do esportista".

A técnica que decide

A questão testa a habilidade de localizar a ideia central de um trecho e reconhecê-la em uma paráfrase. A armadilha central é a troca de foco: várias alternativas falam de coisas que existem no texto (a crônica, o futebol, a decisão), mas deslocam o motivo do sentimento de Pelé. A pergunta não é "o que Drummond escreveu?", mas "o que Pelé sentiu e por quê?". A resposta de Pelé é inequívoca: ele se comoveu porque foi lembrado como pessoa, não como jogador.

"Estou comovido. Entre tantas coisas que dizem a meu respeito, generosas ou menos boas, suas palavras tiveram a rara virtude de se lembrarem do homem, da pessoa humana que quero ser, demonstrando compreensão e carinho por essa condição fundamental."

O trecho grifado é a âncora: "lembrarem do homem, da pessoa humana" é exatamente o que a alternativa C chama de "separar o homem do esportista".

Alternativa A — ❌ Incorreta

Erro: contradiz o texto. Pelé não está constrangido; está "comovido". Além disso, ele não se sente "objeto" de uma crônica — ele a recortou e a guardou como um apoio. A palavra "constrangido" inverte o sentimento declarado.

Alternativa B — ❌ Incorreta

Erro: troca de foco (tangencia o motivo). É verdade que Drummond enaltece Pelé como jogador ("campeoníssimo"), e Pelé reconhece o "primor" do estilo. Mas o que emociona Pelé não é o elogio ao esportista — é o fato de Drummond ter lembrado "do homem, da pessoa humana". A alternativa B capta um elemento do texto, mas erra o motivo central do sentimento.

Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO

Paráfrase fiel. Pelé diz que as palavras de Drummond "tiveram a rara virtude de se lembrarem do homem, da pessoa humana que quero ser". Isso é exatamente "saber separar o homem do esportista": reconhecer a pessoa por trás do ídolo. A alternativa C é a única que reproduz o motivo declarado da comoção.

Alternativa D — ❌ Incorreta

Erro: contradiz o texto. Pelé não está "consternado" nem diz que Drummond ignorou sua vida pessoal. Pelo contrário: ele agradece o fato de Drummond ter se lembrado justamente da pessoa humana. A alternativa inverte completamente o sentido.

Alternativa E — ❌ Incorreta

Erro: extrapolação. O texto não diz que Pelé esperava que Drummond tentasse demovê-lo da decisão, nem que ficou surpreso por isso não ter acontecido. A crônica de Drummond, na verdade, elogia a decisão de Pelé ("Bela jogada, a sua"). A alternativa E introduz uma expectativa que não está em nenhum dos dois textos.

NÃO CAIA NESSA!

A banca troca o foco da pergunta. Ela pergunta o que Pelé sentiu e por quê — e as distratoras B e E falam do que Drummond escreveu, deslocando o motivo. A letra C é a única que responde à pergunta certa.

PEGA ESSA DICA!

Em questões de compreensão, grife o motivo declarado pelo personagem/autor. A alternativa correta quase sempre é a que parafraseia esse motivo, não a que repete outros elementos do texto.

Gabarito: letra C. A resposta de Pelé é um agradecimento emocionado por Drummond ter enxergado a pessoa por trás do craque — e é isso que a alternativa C afirma.

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