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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — VUNESP 2023

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
vu185303
Banca
VUNESP
Órgão
UNESP
Ano
2023
Cargo
V - - Vest ( )

Para responder a questão, leia a crônica de Luis Fernando Verissimo.

 

Esta ideia para um conto de terror é tão terrível que, logo depois de tê-la, me arrependi. Mas já estava tida, não adiantava mais. Você, leitor, no entanto, tem uma escolha. Pode parar aqui, e se poupar, ou ler até o fim e provavelmente nunca mais dormir. Vejo que decidiu continuar. Muito bem, vamos em frente. Talvez, posta no papel, a ideia perca um pouco do seu poder de susto. Mas não posso garantir nada. É assim:

 

Um casal de velhos mora sozinho numa casa. Já criaram os filhos, os netos já estão grandes, só lhes resta implicar um com o outro. Retomam com novo fervor uma discussão antiga. Ela diz que ele ronca quando dorme, ele diz que é mentira.

 

— Ronca.

 

— Não ronco.

 

— Ele diz que não ronca — comenta ela, impaciente, como se falasse com uma terceira pessoa.

 

Mas não existe outra pessoa na casa. Os filhos raramente visitam. Os netos, nunca. A empregada vem de manhã, faz o almoço, deixa o jantar feito e sai cedo. Ficam os dois sozinhos.

 

— Eu devia gravar os seus roncos, pra você se convencer — diz ela. E em seguida tem a ideia infeliz. — É o que eu vou fazer! Esta noite, quando você dormir, vou ligar o gravador e gravar os seus roncos.

 

— Humrfm — diz o velho.

 

Você, leitor, já deve estar sentindo o que vai acontecer. Pare de ler, leitor. Eu não posso parar de escrever. As ideias não podem ser desperdiçadas, mesmo que nos custem amigos, a vida ou o sono. Imagine se Shakespeare tivesse se horrorizado com suas próprias ideias e deixado de escrevê- -las, por puro comedimento. Não que eu queira me comparar a Shakespeare. Shakespeare era bem mais magro. Tenho que exercer este ofício, esta danação. Você, no entanto, não é obrigado a me acompanhar, leitor. Vá passear, vá tomar sol. Uma das maneiras de controlar a demência solta no mundo é deixar os escritores falando sozinhos, exercendo sozinhos a sua profissão malsã, o seu vício solitário. Você ainda está lendo. Você é pior do que eu, leitor. Você tinha escolha.

 

Sozinhos. Os velhos sozinhos na casa. Os dois vão para a cama. Quando o velho dorme, a velha liga o gravador. Mas em poucos minutos a velha também dorme. O gravador fica ligado, gravando. Pouco depois a fita acaba.

 

Na manhã seguinte, certa do seu triunfo, a velha roda a fita. Ouvem-se alguns minutos de silêncio. Depois, alguém roncando.

 

— Rará! — diz a velha, feliz.

 

Pouco depois ouve-se o ronco de outra pessoa. A velha também ronca!

 

— Rará! — diz o velho, vingativo.

 

E em seguida, por cima do contraponto de roncos, ouve- -se um sussurro. Uma voz sussurrando, leitor. Uma voz indefinida. Pode ser de homem, de mulher ou de criança. A princípio — por causa dos roncos — não se distingue o que ela diz. Mas aos poucos as palavras vão ficando claras. São duas vozes. É um diálogo sussurrado.

 

“Estão prontos?”

 

“Não, acho que ainda não…”

 

“Então vamos voltar amanhã…”

 

(Luis Fernando Verissimo. O suicida e o computador, 1992.)

Em sua crônica, o autor caracteriza o ofício de escrever como
  1. Aprescindível.
  2. Bestimulante.
  3. Cfortuito.
  4. Dinsondável.
  5. Eirresistível.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoE — irresistível.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

O ofício de escrever na crônica de Verissimo

Gabarito: letra E. O autor caracteriza o ofício de escrever como irresistível, pois, mesmo diante do horror da própria ideia, sente-se compelido a escrevê-la: "As ideias não podem ser desperdiçadas, mesmo que nos custem amigos, a vida ou o sono". A palavra "irresistível" capta exatamente essa força que o impele a escrever, como se não pudesse evitar.

O comando da questão

O enunciado pede que se identifique como o autor caracteriza o ofício de escrever. Isso é uma questão de compreensão (recorrência): a resposta está explícita no texto, expressa nas palavras do próprio narrador. Não se trata de inferir algo subjetivo, mas de localizar a passagem em que o autor define sua relação com a escrita e encontrar a alternativa que a parafraseia com fidelidade.

O texto e a tese

A crônica de Verissimo é uma narrativa de terror, mas o trecho central para esta questão é uma digressão metalinguística: o narrador interrompe a história para refletir sobre o próprio ato de escrever. Ele diz que teve uma ideia terrível e que "já estava tida, não adiantava mais". A seguir, afirma que não pode parar de escrever:

"Eu não posso parar de escrever. As ideias não podem ser desperdiçadas, mesmo que nos custem amigos, a vida ou o sono."

E complementa, definindo a escrita como um impulso incontrolável:

"Tenho que exercer este ofício, esta danação."

A palavra "danação" é a chave: escrever é uma condenação, um vício do qual o autor não consegue se libertar. Ele até sugere ao leitor que pare de ler, mas ele mesmo não consegue parar de escrever. Essa impossibilidade de resistir é exatamente o sentido de "irresistível".

A técnica que decide

A alternativa correta é a que melhor traduz a ideia de compulsão, de falta de controle sobre o próprio ofício. Vejamos o que cada distratora faz:

  • A) prescindível: significa "dispensável", "que se pode deixar de lado". O texto diz o oposto: o autor não pode deixar de escrever.

  • B) estimulante: significa "que estimula", "que anima". O texto fala em "danação" e "vício solitário", termos negativos, não de estímulo positivo.

  • C) fortuito: significa "casual", "acidental". O texto apresenta a escrita como uma necessidade interna, não como algo que acontece por acaso.

  • D) insondável: significa "que não se pode sondar", "misterioso". O texto não discute o caráter misterioso da escrita, mas sim a sua força irresistível.

  • E) irresistível: significa "a que não se pode resistir". É a paráfrase perfeita de "não posso parar de escrever" e "tenho que exercer este ofício".

Alternativa A — ❌ Incorreta

Erro: contradiz o texto. "Prescindível" (dispensável) é o oposto do que o autor afirma. Ele diz explicitamente que não pode parar de escrever: "Eu não posso parar de escrever". Se o ofício fosse prescindível, ele poderia abandoná-lo, o que contradiz a "danação" que o obriga a continuar.

Alternativa B — ❌ Incorreta

Erro: acrescenta opinião. "Estimulante" tem conotação positiva, de ânimo e prazer. O texto, porém, usa termos como "danação", "profissão malsã" e "vício solitário", que expressam um caráter negativo e compulsivo, não um estímulo agradável. A alternativa projeta um sentimento que o autor não externa.

Alternativa C — ❌ Incorreta

Erro: fora do escopo. "Fortuito" (casual, acidental) não encontra apoio no texto. O autor não diz que escrever é algo que acontece por acaso; ao contrário, ele apresenta a escrita como uma necessidade imperiosa, um impulso que ele não controla: "As ideias não podem ser desperdiçadas".

Alternativa D — ❌ Incorreta

Erro: tangencia o tema. "Insondável" (misterioso, que não se pode compreender) é uma característica que o texto não aborda. O narrador não discute o mistério da escrita, mas sim a sua força avassaladora. A alternativa fala de um aspecto que não está em questão.

Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A única sustentada pelo texto. A passagem "Eu não posso parar de escrever" e "Tenho que exercer este ofício, esta danação" expressa exatamente a ideia de algo a que não se pode resistir. O autor até tenta alertar o leitor, mas ele mesmo não consegue se furtar ao impulso de escrever. "Irresistível" é a paráfrase fiel dessa compulsão.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a extrapolação com adjetivos que parecem plausíveis ("estimulante", "insondável"), mas que não estão ancorados no texto. A resposta correta é a que traduz literalmente a ideia de compulsão expressa em "não posso parar".

PEGA ESSA DICA!

Em questões de compreensão, grife as palavras-chave do texto que definem o conceito pedido. Aqui, "não posso parar" e "danação" são as pistas que apontam para "irresistível".

Gabarito: letra E.

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