Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — VUNESP 2023
Português›Interpretação de Textos (Compreensão)
Código
vu185308
Banca
VUNESP
Órgão
PPS
Ano
2023
Cargo
1º AEM ( )
Um burro carregado de sal atravessava um rio quando escorregou e caiu na água. E, como o sal se dissolveu, ele se levantou mais leve e saiu todo contente. Tempos depois, estava com a carga de esponjas quando chegou à beira de um rio e, supondo que, se caísse novamente, iria levantar-se mais ágil, escorregou de propósito. Aconteceu, porém, que as esponjas absorveram a água e ele, sem poder levantar-se, afogou-se ali mesmo.
(Esopo. Fábulas completas, 2013)
Leia a fábula “O burro que carregava sal”, do escritor grego Esopo, para responder à questão. Depreende-se da leitura da fábula a seguinte moral:
AOs homens suportam com facilidade as desgraças, quando veem que os responsáveis por elas também estão padecendo.
BCertos homens não notam que se arrastam para desgraças, devido às suas próprias manobras.
COs homens sensatos, quando se safam de algum perigo, resguardam-se dele no futuro.
DOs homens perversos, ainda que recebam uma excelente punição, não mudam de caráter.
ECertos homens, enquanto outros fazem força, fingem que são eles que estão se cansando.
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GabaritoB — Certos homens não notam que se arrastam para desgraças, devido às suas próprias manobras.
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A moral da fábula: o burro que se perde por repetir uma manobra
Gabarito: letra B. A moral correta é a de que certos homens não notam que se arrastam para desgraças, devido às suas próprias manobras — exatamente o que acontece com o burro, que, por ter se dado bem ao cair na água com sal, repete a manobra de propósito com as esponjas e acaba se afogando. A passagem que ancora essa leitura é o trecho em que ele "supondo que, se caísse novamente, iria levantar-se mais ágil, escorregou de propósito", seguido do desfecho: "as esponjas absorveram a água e ele, sem poder levantar-se, afogou-se ali mesmo". O burro não percebe que foi a natureza da carga (sal que dissolve × esponja que absorve) que determinou o resultado, e não a queda em si.
O comando: "depreende-se" pede inferência, não cópia
O verbo "depreende-se" é a chave da questão. Ele não pede uma informação literalmente escrita no texto (isso seria "compreensão" ou "recorrência"); pede uma inferência — uma conclusão que o leitor tira a partir das pistas deixadas pela narrativa. No caso da fábula, a moral não está dita em palavras; ela está implícita na história e precisa ser extraída da relação entre os dois episódios (sal × esponja).
A banca, então, testa se você consegue generalizar a situação particular do burro para uma lição sobre o comportamento humano — que é a função clássica da fábula. A alternativa correta é aquela que faz essa generalização sem acrescentar nada que o texto não autorize.
O texto: a estrutura que revela a moral
A fábula tem uma estrutura de contraste que é a chave da interpretação:
Primeira queda (com sal): o burro cai, o sal se dissolve, ele se levanta mais leve e sai "todo contente".
Segunda queda (com esponjas): ele repete a manobra de propósito, mas as esponjas absorvem água, ele fica pesado e se afoga.
"supondo que, se caísse novamente, iria levantar-se mais ágil, escorregou de propósito"
O erro do burro não foi cair; foi não perceber que a carga havia mudado. Ele generalizou uma experiência particular (a queda com sal deu certo) e a aplicou a uma situação diferente (a queda com esponjas), sem notar que a causa do sucesso anterior não era a queda, mas a natureza do sal. A moral, portanto, é sobre a cegueira diante das próprias ações que conduzem à ruína.
A técnica: como testar cada alternativa
A pergunta que decide a questão é: o texto autoriza esta moral, ou ela exige acrescentar algo de fora? A moral correta precisa ser uma generalização fiel do que a história mostra. As alternativas erradas ou extrapolam (trazem ideias que não estão na fábula), ou restringem (mudam o foco), ou tangenciam (falam de outro assunto).
NÃO CAIA NESSA!
A banca oferece morais que soam plausíveis e até "bonitas", mas que não têm correspondência com os fatos da fábula. A letra B é a única que espelha a relação de causa e consequência presente no texto: a manobra do burro (escorregar de propósito) é a causa direta da desgraça (afogamento).
11ª queda: sal dissolve
2Burro sai mais leve
3Repete manobra de propósito
42ª queda: esponja absorve
5Burro se afoga
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Alternativa A — ❌ Incorreta
"Os homens suportam com facilidade as desgraças, quando veem que os responsáveis por elas também estão padecendo."
Erro: extrapolação. A fábula não menciona outros responsáveis nem comparação de sofrimento entre personagens. O burro sofre sozinho, e a causa da desgraça é a própria ação dele. A alternativa introduz uma ideia (solidariedade no sofrimento) que não existe no texto.
Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO
"Certos homens não notam que se arrastam para desgraças, devido às suas próprias manobras."
Correta. A alternativa é uma paráfrase fiel da moral implícita. O burro "não nota" que sua manobra (escorregar de propósito) o arrasta para a desgraça (afogamento). A expressão "devido às suas próprias manobras" capta exatamente a causalidade que o texto estabelece: foi a ação deliberada do burro, baseada em uma suposição errada, que o levou à morte.
Alternativa C — ❌ Incorreta
"Os homens sensatos, quando se safam de algum perigo, resguardam-se dele no futuro."
Erro: contradiz o texto. O burro não é sensato — ele repete a manobra arriscada e morre. A alternativa inverte a lição: em vez de "aprender com o perigo", o burro não aprende e se perde. Além disso, a palavra "sensatos" introduz um juízo que o texto não faz sobre o burro.
Alternativa D — ❌ Incorreta
"Os homens perversos, ainda que recebam uma excelente punição, não mudam de caráter."
Erro: extrapolação e fuga ao tema. A fábula não trata de perversidade, punição ou caráter. O burro não é perverso; ele é ingênuo ou imprudente. A alternativa traz um tema moral completamente diferente (a incorrigibilidade dos maus), que não tem base na história.
Alternativa E — ❌ Incorreta
"Certos homens, enquanto outros fazem força, fingem que são eles que estão se cansando."
Erro: fuga ao tema. A alternativa descreve uma situação de fingimento e preguiça que não aparece na fábula. Não há "outros" fazendo força, nem fingimento de cansaço. A história é sobre as consequências de uma decisão errada, não sobre simulação de esforço.
Fechamento: a regra de ouro
Para questões de "moral da fábula", pergunte-se: qual é a causa e qual é a consequência na história? A moral correta é a que generaliza essa relação de causa e consequência sem acrescentar personagens, motivações ou julgamentos que o texto não traz. A letra B faz exatamente isso: o burro "se arrasta para a desgraça" (consequência) "devido às suas próprias manobras" (causa).
PEGA ESSA DICA!
Desconfie de morais que soam "bonitas" ou "profundas" demais. A moral de uma fábula é sempre simples e diretamente ligada aos fatos narrados. Se a alternativa fala de algo que não está na história (punição, perversidade, fingimento), ela está errada.