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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — VUNESP 2023

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
vu185309
Banca
VUNESP
Órgão
PPS
Ano
2023
Cargo
1º AEM ( )

Havia um homem que gostava muito de assustar as pessoas. Provocar medo nos outros era o que ele fazia de melhor, e morria de rir quando conseguia espantar alguém. Esse homem tinha um bicho de estimação: era um macaco, que imitava tudo o que o dono fazia. Certa vez, o homem quis pregar uma peça em seu compadre. Ao cair da noite, dirigiu-se para o caminho principal da aldeia, onde seu compadre sempre passava, pelas dez horas da noite. O macaco foi atrás dele, como sempre. O homem pegou um pano branco, o macaco também pegou. Às dez da noite, o compadre apareceu, caminhando despreocupado para a casa da namorada. Coberto com o pano branco, o homem se escondeu atrás de um arbusto, sem perceber que o macaco estava a seu lado. O compadre foi passando, justamente pensando que nunca tinha visto o medo. Nisso, o homem que assustava as pessoas saiu de trás do arbusto. Ao ver aquele ser todo de branco, que parecia uma visage1, o compadre falou:

 

– Finalmente estou conhecendo o medo, e são dois: o medo grande e o medo jito2.

 

O homem olhou para o lado e viu o macaco todo de branco, fazendo gestos iguais aos dele. Diante daquela visage miúda, o dono do macaco se levantou e saiu correndo. E o macaco saiu correndo atrás dele.

 

Achando tudo muito engraçado, o compadre gritava:

 

– Corre, medo grande, senão o medo jito pega você!

 

E o homem corria ainda mais. Quando chegou em casa, bateu com tanta força contra a porta que a derrubou, caindo por cima dela e o macaco por cima dele. Foi então que ele viu que a visage que o seguia era seu macaco. Ficou com tanta raiva que nunca mais quis saber de criar macaco nem de assustar pessoas.

 

(Yaguarê Yamã. Murugawa: mitos,

contos e fábulas do povo Maraguá, 2007. Adaptado)

 

1visage ou visagem: fantasma, assombração.

2jito (Regionalismo: Amazônia/Uso: informal): pequeno.

Leia o conto indígena “O medo grande e o medo jito”, história contada por Yaguareçá Sukuyê e escrita por Yaguarê Yamã, para responder à questão.     O argumento central do conto indígena está contido na seguinte expressão popular:
  1. A“rir da própria desgraça”.
  2. B“virar-se o feitiço contra o feiticeiro”.
  3. C“comer o pão que o diabo amassou”.
  4. D“pisar em casca de banana”.
  5. E“defender-se com unhas e dentes”.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoB — “virar-se o feitiço contra o feiticeiro”.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

O argumento central do conto: o feitiço virou-se contra o feiticeiro

Gabarito: letra B. O conto narra a história de um homem que adorava assustar as pessoas e que, ao tentar pregar uma peça no compadre, acaba sendo vítima do próprio plano: seu macaco de estimação o imita, e ele, ao ver o macaco todo de branco, foge apavorado. A expressão popular que sintetiza esse argumento é "virar-se o feitiço contra o feiticeiro", pois o artifício usado para assustar o outro (o pano branco) é o que o assusta. Como se lê no trecho: "O homem olhou para o lado e viu o macaco todo de branco, fazendo gestos iguais aos dele. Diante daquela visage miúda, o dono do macaco se levantou e saiu correndo."

O comando pede o argumento central do conto, ou seja, a ideia principal que a narrativa defende ou ilustra. Não se trata de uma questão de recorrência (localizar uma informação explícita), mas de interpretação: é preciso sintetizar o enredo e identificar o provérbio que melhor o resume. O texto não diz literalmente "o feitiço virou-se contra o feiticeiro", mas a narrativa inteira é a materialização dessa ideia.

O conto é uma narrativa curta com uma estrutura clássica de ironia dramática: o personagem que planeja o susto é o que acaba levando o susto. O homem "gostava muito de assustar as pessoas" e "morria de rir quando conseguia espantar alguém". Ele arma o cenário: pega um pano branco, esconde-se atrás de um arbusto e espera o compadre. O desfecho, porém, inverte os papéis: o macaco, que "imitava tudo o que o dono fazia", também pega um pano branco e se posiciona ao lado do dono. Quando o homem sai do arbusto, o compadre vê "dois" medos — o grande e o jito (pequeno) — e, em vez de se assustar, diverte-se. O dono do macaco, ao ver a "visage miúda" (o macaco de branco), "se levantou e saiu correndo", e o macaco corre atrás dele. O desfecho é a consagração da virada: o caçador virou a caça.

A técnica para resolver é testar cada expressão popular contra o enredo. A alternativa correta precisa capturar a inversão de papéis: aquele que queria causar medo é quem sente medo, e o instrumento do susto (o pano branco) é usado contra ele. As demais expressões ou descrevem situações que não ocorrem no texto, ou capturam apenas um detalhe periférico, ou exigem informações que o conto não fornece.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a tentação de escolher uma expressão que se encaixe em um detalhe do texto (como "rir da própria desgraça", pelo riso do compadre) em vez de capturar o argumento central. A pergunta é sobre o todo da narrativa, não sobre uma cena isolada.

  1. 1Homem gosta de assustar
  2. 2Arma susto com pano branco
  3. 3Macaco imita o dono
  4. 4Compadre vê dois medos
  5. 5Dono foge do próprio susto
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Alternativa A — ❌ Incorreta

"Rir da própria desgraça" não é o argumento central. É verdade que o compadre "achando tudo muito engraçado, gritava", mas quem ri é o compadre, que não é o protagonista da desgraça. A "desgraça" (o susto) é do homem que assustava, e ele não ri dela — ele foge e fica com raiva. A alternativa tangencia o texto: aproveita o riso presente na cena, mas atribui a ele um papel que não tem. O argumento central não é o riso do compadre, mas a inversão do susto.

Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO

"Virar-se o feitiço contra o feiticeiro" é a síntese exata do enredo. O "feiticeiro" é o homem que "gostava muito de assustar as pessoas" e que prepara o "feitiço": o pano branco para parecer uma assombração. O feitiço se volta contra ele quando o macaco, imitando-o, também se cobre de branco e o assusta. O texto comprova:

"O homem olhou para o lado e viu o macaco todo de branco, fazendo gestos iguais aos dele. Diante daquela visage miúda, o dono do macaco se levantou e saiu correndo."

O instrumento que ele usaria para assustar o compadre é o que o faz fugir. A expressão captura a ironia central da narrativa: o plano do protagonista se volta contra ele.

Alternativa C — ❌ Incorreta

"Comer o pão que o diabo amassou" significa passar por muitas dificuldades e sofrimentos. O homem, no conto, não passa por dificuldades nem sofrimentos prolongados — ele apenas leva um susto e fica com raiva. A alternativa extrapola o texto: introduz uma ideia de sofrimento e provação que não está presente na narrativa. Não há nenhuma passagem que sustente essa leitura.

Alternativa D — ❌ Incorreta

"Pisar em casca de banana" é uma expressão que designa um deslize, um erro bobo que causa uma queda ou um constrangimento. Embora o homem "caia" ao derrubar a porta, a expressão não captura o argumento central. O texto não trata de um erro acidental, mas de uma inversão deliberada: o plano de assustar se volta contra o autor. A alternativa tangencia o texto: aproveita a queda literal do personagem, mas ignora a ironia estrutural da narrativa.

Alternativa E — ❌ Incorreta

"Defender-se com unhas e dentes" significa lutar com todas as forças para se proteger. No conto, o homem não se defende de nada — ele simplesmente foge. Não há luta, nem resistência, nem defesa. A alternativa contradiz o texto: o homem "saiu correndo" e "corria ainda mais", o que é o oposto de uma defesa ativa. A expressão não tem qualquer ancoragem na narrativa.

PEGA ESSA DICA!

Para questões de "argumento central" ou "ideia principal", pergunte-se: qual é a virada da história? O que o texto quer demonstrar? A resposta certa é a que resume o enredo como um todo, não a que se encaixa em um detalhe isolado.

Gabarito: letra B. A única expressão que sintetiza o conto é "virar-se o feitiço contra o feiticeiro", pois o homem que planejava assustar o compadre acaba assustado pelo próprio macaco, que imitou seu plano.

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