Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — VUNESP 2023
Português›Interpretação de Textos (Compreensão)
Código
vu185313
Banca
VUNESP
Órgão
PPS
Ano
2023
Cargo
1º AEM ( )
Sua história tem pouca coisa de notável. Fora Leonardo algibebe1 em Lisboa, sua pátria; aborrecera-se porém do negócio, e viera ao Brasil. Aqui chegando, não se sabe por proteção de quem, alcançou o emprego de que o vemos empossado, e que exercia, como dissemos, desde tempos remotos. Mas viera com ele no mesmo navio, não sei fazer o quê, uma certa Maria da hortaliça, quitandeira das praças de Lisboa, saloia2 rechonchuda e bonitota. O Leonardo, fazendo-se-lhe justiça, não era nesse tempo de sua mocidade mal apessoado, e sobretudo era maganão3. Ao sair do Tejo, estando a Maria encostada à borda do navio, o Leonardo fingiu que passava distraído por junto dela, e com o ferrado sapatão assentou-lhe uma valente pisadela no pé direito. A Maria, como se já esperasse por aquilo, sorriu-se como envergonhada do gracejo, e deu-lhe também em ar de disfarce um tremendo beliscão nas costas da mão esquerda. Era isto uma declaração em forma, segundo os usos da terra: levaram o resto do dia de namoro cerrado; ao anoitecer, passou-se a mesma cena de pisadela e beliscão, com a diferença de serem desta vez um pouco mais fortes; e no dia seguinte estavam os dois amantes tão extremosos e familiares, que pareciam sê-lo de muitos anos.
Quando saltaram em terra começou a Maria a sentir certos enojos4: foram os dois morar juntos: e daí a um mês manifestaram-se claramente os efeitos da pisadela e do beliscão; sete meses depois teve a Maria um filho, formidável menino de quase três palmos de comprido, gordo e vermelho, cabeludo, esperneador e chorão; o qual, logo depois que nasceu, mamou duas horas seguidas sem largar o peito. E este nascimento é certamente de tudo o que temos dito o que mais nos interessa, porque o menino de quem falamos é o herói desta história.
(Manuel Antônio de Almeida.
Memórias de um sargento de milícias, 2003)
1algibebe: vendedor ambulante.
2saloia: aldeã das imediações de Lisboa.
3maganão: brincalhão, divertido.
4enojo: enjoo, náusea.
Leia um trecho do romance Memórias de um sargento de milícias, do escritor Manuel Antônio de Almeida, para responder à questão.
Em relação aos eventos narrados, o narrador assume uma perspectiva
Aimpessoal e distanciada.
Bsentimental e idealizadora.
Ccômica e satírica.
Dmelancólica e nostálgica.
Emoralista e conservadora.
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GabaritoC — cômica e satírica.
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Perspectiva do narrador em Memórias de um sargento de milícias
Gabarito: letra C. O narrador assume uma perspectiva cômica e satírica, pois trata os eventos com humor e ironia, ridicularizando sutilmente as personagens e as situações. Isso se prova em passagens como "o Leonardo fingiu que passava distraído por junto dela, e com o ferrado sapatão assentou-lhe uma valente pisadela no pé direito" e na descrição do nascimento do herói como "formidável menino de quase três palmos de comprido, gordo e vermelho, cabeludo, esperneador e chorão".
O comando pede que se identifique a perspectiva do narrador — ou seja, o tom e a atitude que ele assume diante dos fatos narrados. Isso é uma questão de interpretação (inferir o efeito de sentido), não de mera localização de informação explícita. É preciso observar como o narrador conta a história, não apenas o que conta.
O texto narra a origem do protagonista: o encontro de Leonardo e Maria no navio, o namoro "declarado" por pisadelas e beliscões, a gravidez e o nascimento do menino. O narrador não se limita a relatar; ele comenta os fatos com um olhar irônico e bem-humorado. Veja os indícios:
"Era isto uma declaração em forma, segundo os usos da terra" — o narrador trata o gesto grosseiro como um ritual amoroso, com ironia.
"levaram o resto do dia de namoro cerrado" — o namoro é descrito de forma cômica, com a repetição da cena da pisadela.
"sete meses depois teve a Maria um filho, formidável menino de quase três palmos de comprido, gordo e vermelho, cabeludo, esperneador e chorão" — a descrição do bebê é exagerada e engraçada, com adjetivos que beiram o caricato.
"o qual, logo depois que nasceu, mamou duas horas seguidas sem largar o peito" — o detalhe absurdo reforça o tom humorístico.
"E este nascimento é certamente de tudo o que temos dito o que mais nos interessa, porque o menino de quem falamos é o herói desta história" — o narrador quebra a expectativa ao chamar de "herói" um bebê recém-nascido, com ironia.
A sátira está na forma como o narrador expõe as fraquezas e os comportamentos das personagens sem julgamento moral, mas com um sorriso de deboche. Ele não condena nem idealiza; ele ridiculariza com leveza.
A técnica para resolver: pergunte-se "qual é o tom do narrador?" e busque as marcas linguísticas que o revelam — adjetivos exagerados, ironia, quebra de expectativa, comentários do narrador. A alternativa correta é a que sintetiza esse tom, não a que descreve uma atitude que o texto não sustenta.
Perspectiva do narrador: Tom cômico e satírico (Ironia, Exagero/caricatura, Quebra de expectativa); Marcas linguísticas (Adjetivos exagerados, Comentários do narrador, Gesto grosseiro tratado como ritual); O que NÃO é (Impessoal/distanciado, Sentimental/idealizador, Melancólico/nostálgico, Moralista/conservador)
Alternativa A — ❌ Incorreta
Impessoal e distanciada. O narrador não é impessoal: ele se insere no texto com expressões como "não sei fazer o quê" e "não se sabe por proteção de quem", e comenta os fatos com ironia. Há envolvimento do narrador, não distanciamento. A alternativa contradiz o texto.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Sentimental e idealizadora. O narrador não idealiza o amor de Leonardo e Maria; ao contrário, descreve o namoro de forma cômica e até grosseira ("pisadela", "beliscão"). Não há lirismo nem exaltação dos sentimentos. A alternativa extrapola e acrescenta opinião que o texto não sustenta.
Alternativa C — ✅ Correta
Cômica e satírica. Como demonstrado, o narrador trata os eventos com humor e ironia, ridicularizando as personagens e as situações. A descrição do bebê "formidável menino de quase três palmos de comprido, gordo e vermelho, cabeludo, esperneador e chorão" e o comentário "Era isto uma declaração em forma, segundo os usos da terra" são exemplos claros do tom cômico e satírico. A alternativa é uma síntese fiel do efeito de sentido do texto.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Melancólica e nostálgica. Não há no texto qualquer tom de tristeza, saudade ou lamento. O narrador não evoca o passado com nostalgia; narra os fatos com humor. A alternativa extrapola e acrescenta opinião que o texto não contém.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Moralista e conservadora. O narrador não faz julgamento moral das personagens. Ele não condena a gravidez fora do casamento nem o comportamento de Leonardo e Maria; ao contrário, narra os fatos com ironia e leveza. A alternativa acrescenta opinião e contradiz o tom do texto.
NÃO CAIA NESSA!
A banca oferece alternativas que descrevem tons que o texto não apresenta (sentimental, melancólico, moralista). A correta é a que sintetiza o tom real, marcado pela ironia e pelo humor. Não confunda a atitude do narrador com a opinião do leitor.
PEGA ESSA DICA!
Para identificar a perspectiva do narrador, procure as marcas de ironia e os comentários do narrador — eles revelam o tom. Pergunte-se: "o narrador está rindo de quê?"