Pular para o conteúdo principal

Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — VUNESP 2023

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
vu185324
Banca
VUNESP
Órgão
PPS
Ano
2023
Cargo
1º AEM ( )

De cima dessas pedras escabrosas1,

Que pouco a pouco as ondas têm minado,

Da lua com o reflexo prateado

Distingo de Marília as mãos formosas.

 

Ah!, que lindas que são, que melindrosas2!

Sinto-me louco, sinto-me encantado.

Ah!, quando elas vos colhem lá no prado,

Nem vós, lírios, brilhais, nem vós, ó rosas!

 

Deuses! Céus! Tudo o mais que tendes feito,

Vendo tão belas mãos, me dá desgosto;

Nada, onde elas estão, nada é perfeito.

 

Oh!, quem pudera uni-las ao meu rosto!

Quem pudera apertá-las no meu peito!

Dar-lhes mil beijos e expirar3 de gosto!

 

(Manuel Maria Barbosa du Bocage. Poemas escolhidos, 1974)

 

1escabrosas: escarpadas.

2melindrosas: delicadas.

3expirar: exalar o último suspiro; morrer.

Leia o soneto do poeta português Manuel Maria Barbosa du Bocage, para responder à questão.     De acordo com o eu lírico,
  1. Atodas as criações dos Deuses mostram-se perfeitas.
  2. Bas mãos de Marília conferem maior encanto às demais criações dos Deuses.
  3. Cas mãos de Marília revelam-se tão cruéis quanto os Deuses.
  4. Dtodas as criações dos Deuses mostram-se imperfeitas.
  5. Eas mãos de Marília ofuscam as demais criações dos Deuses.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoE — as mãos de Marília ofuscam as demais criações dos Deuses.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Soneto de Bocage: a superioridade das mãos de Marília

Gabarito: letra E. O eu lírico afirma que as mãos de Marília ofuscam (superam, fazem parecer menores) as demais criações dos Deuses. Isso está explícito no terceto final: "Nada, onde elas estão, nada é perfeito" — ou seja, diante delas, tudo o mais perde o brilho. A alternativa E é a única que reproduz fielmente essa ideia de superioridade, sem acrescentar ou inverter nada.

O comando: compreensão, não inferência

O enunciado pede "De acordo com o eu lírico" — isso é uma questão de compreensão (recorrência): a resposta deve ser uma paráfrase do que está escrito, não uma dedução. Não precisamos inferir nada além do texto; basta localizar a passagem que expressa a ideia central e comparar com as alternativas. A banca, porém, arma uma pegadinha clássica: trocar um termo que inverte a relação de sentido (veremos na alternativa B).

O texto: a tese do eu lírico

O soneto é uma declaração de amor à beleza das mãos de Marília. O eu lírico as vê refletidas na lua e se encanta. No segundo quarteto, ele diz que nem os lírios nem as rosas brilham quando elas colhem flores — ou seja, as mãos superam a beleza das flores. No primeiro terceto, ele vai além: "Deuses! Céus! Tudo o mais que tendes feito, / Vendo tão belas mãos, me dá desgosto; / Nada, onde elas estão, nada é perfeito." Aqui está a tese: diante das mãos de Marília, tudo o que os Deuses criaram parece imperfeito. Não é que as criações sejam imperfeitas em si; é que, comparadas às mãos, elas perdem o valor. Essa é a chave para eliminar as alternativas A e D.

A técnica: o que procurar em cada alternativa

A questão testa a capacidade de parafrasear sem distorcer. A alternativa correta deve manter a relação de superioridade (as mãos > as criações divinas) e o caráter subjetivo (é o eu lírico que as vê assim). As erradas cometem erros típicos:

  • A e D generalizam: transformam a percepção do eu lírico ("nada é perfeito" diante delas) em uma afirmação absoluta sobre as criações divinas ("todas são perfeitas" ou "todas são imperfeitas").

  • B inverte a relação: diz que as mãos "conferem encanto" às criações, quando o texto diz o oposto — elas as ofuscam.

  • C introduz uma ideia ausente: crueldade dos Deuses não aparece em nenhum verso.

Alternativa A — ❌ Incorreta

"Nada, onde elas estão, nada é perfeito."

O texto afirma o contrário: diante das mãos, nada do que os Deuses fizeram é perfeito. A alternativa diz que "todas as criações dos Deuses mostram-se perfeitas", o que contradiz diretamente o terceto. Além disso, generaliza: o eu lírico não diz que as criações são perfeitas ou imperfeitas em si, mas que, comparadas às mãos, perdem o brilho. Erro: contradiz o texto e generaliza.

Alternativa B — ❌ Incorreta

"Ah!, quando elas vos colhem lá no prado, / Nem vós, lírios, brilhais, nem vós, ó rosas!"

A alternativa diz que as mãos "conferem maior encanto" às demais criações. O texto diz o oposto: quando as mãos colhem as flores, nem os lírios nem as rosas brilham — ou seja, as mãos ofuscam as flores, não as valorizam. A banca troca o verbo "ofuscar" por "conferir encanto", invertendo a relação. Erro: troca de vocábulo que inverte o sentido.

Alternativa C — ❌ Incorreta

"Deuses! Céus! Tudo o mais que tendes feito, / Vendo tão belas mãos, me dá desgosto."

O eu lírico sente desgosto ao comparar as criações divinas com as mãos, mas isso não significa que os Deuses sejam cruéis. A palavra "cruéis" não aparece no texto e não é uma inferência legítima — é uma extrapolação baseada em senso comum (deuses que punem). O texto não autoriza essa leitura. Erro: extrapola.

Alternativa D — ❌ Incorreta

"Nada, onde elas estão, nada é perfeito."

A alternativa diz que "todas as criações dos Deuses mostram-se imperfeitas". O texto diz que, diante das mãos, nada é perfeito — mas isso é uma percepção do eu lírico, não uma afirmação objetiva sobre as criações. A alternativa generaliza ao transformar a comparação em uma característica absoluta. Além disso, o texto não diz que as criações são imperfeitas em si, mas que perdem o brilho quando comparadas. Erro: generaliza.

Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO

"Nada, onde elas estão, nada é perfeito."

A alternativa diz que as mãos "ofuscam" as demais criações. "Ofuscar" significa fazer perder o brilho, superar. Isso é exatamente o que o texto expressa: diante das mãos, nada do que os Deuses fizeram parece perfeito. A alternativa é uma paráfrase fiel — mantém a relação de superioridade e o caráter subjetivo (é o eu lírico que as vê assim). Não acrescenta nem inverte nada.

NÃO CAIA NESSA!

A banca troca o verbo "ofuscar" por "conferir encanto" (B) para inverter a relação, e generaliza a percepção do eu lírico (A e D). A correta exige localizar a passagem exata e perceber que "nada é perfeito" é uma comparação, não uma afirmação absoluta.

PEGA ESSA DICA!

Em questões de compreensão, grife o comando ("De acordo com o eu lírico") e procure a paráfrase exata. Desconfie de alternativas que usam palavras absolutas ("todas", "nada") — elas costumam generalizar.

Gabarito: letra E. A única alternativa inteiramente sustentada pelo texto é a que parafraseia a superioridade das mãos de Marília sobre as criações divinas, sem distorcer a relação de sentido.

Link permanente: /questoes/vu185324