Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — VUNESP 2023
Português›Interpretação de Textos (Compreensão)
Código
vu185326
Banca
VUNESP
Órgão
PPS
Ano
2023
Cargo
1º AEM ( )
Além, muito além daquela serra, que ainda azula no horizonte, nasceu Iracema. Iracema, a virgem dos lábios de mel, que tinha os cabelos mais negros que a asa da graúna1, e mais longos que seu talhe de palmeira. O favo da jati2 não era doce como seu sorriso, nem a baunilha recendia no bosque como seu hálito perfumado.
Um dia, ao pino do Sol, ela repousava em um claro da floresta. Banhava-lhe o corpo a sombra da oiticica3, mais fresca do que o orvalho da noite. Os ramos da acácia silvestre esparziam flores sobre os úmidos cabelos. Escondidos na folhagem os pássaros ameigavam o canto.
Rumor suspeito quebra a doce harmonia da sesta. Ergue a virgem os olhos, que o sol não deslumbra; sua vista perturba-se. Diante dela e todo a contemplá-la, está um guerreiro estranho, se é guerreiro e não algum mau espírito da floresta. Tem nas faces o branco das areias que bordam o mar, nos olhos o azul triste das águas profundas. Ignotas4 armas e tecidos ignotos cobrem-lhe o corpo.
Foi rápido, como o olhar, o gesto de Iracema. A flecha embebida no arco partiu. Gotas de sangue borbulham na face do desconhecido. Sofreu mais d’alma que da ferida. O sentimento que ele pôs nos olhos e no rosto, não o sei eu. Porém a virgem lançou de si o arco e a uiraçaba5 e correu para o guerreiro, sentida da mágoa que causara. A mão que rápida ferira estancou mais rápida e compassiva o sangue que gotejava.
(José de Alencar. Iracema, 2006. Adaptado)
1graúna: pássaro de cor negra.
2jati: pequena abelha.
3oiticica: árvore frondosa.
4ignoto: desconhecido.
5uiraçaba: estojo em que se guardam flechas.
Leia um trecho do romance Iracema, do escritor José de Alencar, para responder à questão.
Observa-se a intromissão do narrador no curso da narrativa no seguinte trecho:
A“Foi rápido, como o olhar, o gesto de Iracema.” (4º parágrafo)
B“Rumor suspeito quebra a doce harmonia da sesta.” (3º parágrafo)
C“Escondidos na folhagem os pássaros ameigavam o canto.” (2º parágrafo)
D“O sentimento que ele pôs nos olhos e no rosto, não o sei eu.” (4º parágrafo)
E“Um dia, ao pino do Sol, ela repousava em um claro da floresta.” (2º parágrafo)
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GabaritoD — “O sentimento que ele pôs nos olhos e no rosto, não o sei eu.” (4º parágrafo)
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Intromissão do narrador em Iracema
Gabarito: letra D. A alternativa correta é a que apresenta a intromissão do narrador no curso da narrativa, ou seja, o momento em que o narrador abandona a narração impessoal dos fatos e se coloca explicitamente como sujeito do discurso, usando a primeira pessoa do singular. Isso ocorre em "O sentimento que ele pôs nos olhos e no rosto, não o sei eu" (4º parágrafo), em que o pronome "eu" revela a presença do narrador como personagem que comenta a cena.
O comando pede que se identifique o trecho em que o narrador se intromete na narrativa. Isso é diferente de simplesmente narrar os fatos: é quando o narrador sai da posição de observador neutro e faz um comentário pessoal, usando a primeira pessoa. As demais alternativas descrevem ações ou sensações das personagens, sem qualquer marca de subjetividade do narrador.
No trecho do 4º parágrafo, o narrador afirma: "O sentimento que ele pôs nos olhos e no rosto, não o sei eu". A expressão "não o sei eu" é a chave: o pronome "eu" e o verbo "sei" em primeira pessoa indicam que o narrador está falando de si mesmo, confessando uma limitação de conhecimento. Isso é uma intromissão porque o narrador, que até então narrava os fatos de fora, agora se coloca como sujeito que não sabe algo — uma marca típica do narrador que participa ou comenta a história.
As outras alternativas são todas narração impessoal: descrevem ações ("Foi rápido, como o olhar, o gesto de Iracema"), sensações ("Rumor suspeito quebra a doce harmonia da sesta") ou paisagens ("Escondidos na folhagem os pássaros ameigavam o canto"), sem qualquer pronome ou verbo em primeira pessoa que revele a presença do narrador como sujeito do discurso.
NÃO CAIA NESSA!
A banca oferece trechos que descrevem ações ou sensações das personagens, mas apenas um revela a presença explícita do narrador em 1ª pessoa. A armadilha é confundir "narração subjetiva" (com adjetivos e metáforas) com "intromissão do narrador" (marca de 1ª pessoa).
Intromissão do narrador: Marca: 1ª pessoa (Pronomes (eu, me, meu), Verbos (sei, vejo)); Exemplo: "não o sei eu"; ≠ Narração impessoal (Descreve ações, Descreve sensações, Descreve paisagens)
Alternativa A — ❌ Incorreta
"Foi rápido, como o olhar, o gesto de Iracema."
Este trecho é uma narração impessoal: descreve a rapidez do gesto de Iracema, usando uma comparação ("como o olhar"). Não há nenhuma marca de primeira pessoa — o narrador não se coloca no discurso. Erro: não há intromissão do narrador.
Alternativa B — ❌ Incorreta
"Rumor suspeito quebra a doce harmonia da sesta."
Aqui o narrador descreve uma sensação (o rumor que quebra a harmonia), mas o faz de forma impessoal, sem se colocar como sujeito. A palavra "suspeito" é um adjetivo que expressa uma avaliação, mas não é uma intromissão do narrador em 1ª pessoa. Erro: não há marca de subjetividade do narrador.
Alternativa C — ❌ Incorreta
"Escondidos na folhagem os pássaros ameigavam o canto."
Trecho descritivo e impessoal: o narrador descreve a cena dos pássaros, sem qualquer pronome ou verbo em primeira pessoa. Erro: não há intromissão do narrador.
Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO
"O sentimento que ele pôs nos olhos e no rosto, não o sei eu."
A expressão "não o sei eu" é a marca explícita da intromissão do narrador: o pronome "eu" e o verbo "sei" em primeira pessoa revelam que o narrador está falando de si mesmo, confessando que não sabe o sentimento do guerreiro. Isso é uma intromissão porque o narrador, que até então narrava os fatos de fora, agora se coloca como sujeito que não sabe algo — uma marca típica do narrador que participa ou comenta a história.
Alternativa E — ❌ Incorreta
"Um dia, ao pino do Sol, ela repousava em um claro da floresta."
Trecho narrativo e impessoal: o narrador situa a cena no tempo e no espaço, descrevendo a ação de Iracema. Não há nenhuma marca de primeira pessoa. Erro: não há intromissão do narrador.
Conclusão: a intromissão do narrador só ocorre quando ele se coloca no discurso, usando a primeira pessoa. A única alternativa que apresenta essa marca é a letra D, com "não o sei eu".
PEGA ESSA DICA!
Para identificar a intromissão do narrador, procure por pronomes e verbos em 1ª pessoa (eu, me, meu, sei, vejo, etc.). Se o trecho não tiver nenhuma marca de subjetividade do narrador, ele é apenas narração impessoal.