Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — VUNESP 2023
Português›Interpretação de Textos (Compreensão)
Código
vu185333
Banca
VUNESP
Órgão
PPS
Ano
2023
Cargo
2º AEM ( )
O que é o trabalho escravo contemporâneo?
Na legislação brasileira, o artigo 149 do Código Penal prevê os elementos que caracterizam a redução de um ser humano à condição análoga à de escravo. São eles: a submissão a trabalhos forçados ou a jornadas exaustivas, a sujeição a condições degradantes de trabalho e a restrição de locomoção do trabalhador.
O conceito de trabalho escravo contemporâneo trazido pelo ordenamento brasileiro representa grande avanço no combate a essa dura realidade, pois evidencia que, nos tempos atuais, sua configuração vai muito além da privação de liberdade, ocorrendo nas mais amplas situações de ofensa à dignidade do ser humano, como em hipóteses de submissão a condições degradantes de trabalho, jornadas exaustivas ou forçadas por dívidas impostas aos trabalhadores.
(Disponível em https://www.cnmp.mp.br. Acesso em 15.08.2023. Adaptado)
Leia o texto para responder à questão.
Considere o título e subtítulo de uma matéria jornalística publicada em um portal de notícias:
Brasil resgatou 918 vítimas de trabalho escravo em 2023,
recorde para um 1º trimestre em 15 anos.
Número foi registrado entre janeiro e 20 de março deste ano, por meio de operações do Ministério do Trabalho. Volume representa uma alta de 124%, em relação aos primeiros três meses de 2022.
(Paula Salati. Disponível em https://g1.globo.com.
Acesso em 23.08.2023. Adaptado)
Relacionado o texto “O que é o trabalho escravo contemporâneo?” com a chamada para a matéria do portal de notícias, conclui-se que
Ao Estado brasileiro é conivente com o trabalho análogo à escravidão, cabendo à imprensa elaborar as denúncias.
Ba legislação brasileira precisa ser reformada, pois não diferencia “trabalho análogo à escravidão” de “trabalho escravo”.
Celes não se comunicam, pois um define o “trabalho análogo à escravidão” e o outro trata de “trabalho escravo”.
Do Ministério Público realizou trabalho análogo à escravidão ao atuar em situações relativas à escravização contemporânea.
Eo número de trabalhadores em situação análoga à escravidão resgatados no Brasil causa espanto, tendo em vista a legislação brasileira em vigor.
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GabaritoE — o número de trabalhadores em situação análoga à escravidão resgatados no Brasil causa espanto, tendo em vista a legislação brasileira em vigor.
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Trabalho escravo contemporâneo: relação entre os textos
Gabarito: letra E. A alternativa correta é a única que estabelece uma relação coerente entre os dois textos: o primeiro define o que a legislação brasileira considera trabalho análogo à escravidão, e o segundo noticia o resgate de 918 vítimas, o que causa espanto justamente porque a lei já prevê e combate essa prática. A passagem que ancora essa conclusão está no segundo texto: "Brasil resgatou 918 vítimas de trabalho escravo em 2023, recorde para um 1º trimestre em 15 anos", combinada com a ideia do primeiro de que a legislação "representa grande avanço no combate a essa dura realidade".
O comando pede uma conclusão a partir da relação entre os dois textos. Isso significa que a resposta não está literalmente escrita em nenhum deles, mas é uma inferência que se apoia em pistas concretas de ambos. A tarefa é perceber como o conceito legal (texto 1) se conecta com a notícia factual (texto 2). Não se trata de compreender um texto isoladamente, mas de estabelecer uma ponte lógica entre eles.
O primeiro texto é expositivo-informativo: explica o que é o trabalho escravo contemporâneo segundo o artigo 149 do Código Penal, listando os elementos que o caracterizam (trabalhos forçados, jornadas exaustivas, condições degradantes, restrição de locomoção). O segundo é uma notícia jornalística: traz dados objetivos sobre resgates realizados em 2023. A tese implícita que os une é a de que, apesar de a legislação ser avançada e protetiva, a prática ainda ocorre em larga escala — e é exatamente essa contradição que gera o "espanto" mencionado na alternativa E.
A técnica central aqui é a inferência legítima: a conclusão não está dita, mas é obrigada pelas pistas. O texto 1 afirma que a lei "representa grande avanço no combate a essa dura realidade"; o texto 2 mostra que, mesmo assim, 918 pessoas foram resgatadas em um único trimestre. A única leitura que aproveita as duas informações sem acrescentar nada de fora é a de que esse número surpreende justamente porque a lei já existe e é considerada avançada. Qualquer alternativa que introduza crítica ao Estado, à legislação ou ao Ministério Público está extrapolando — o texto não faz essas acusações.
NÃO CAIA NESSA!
A banca adora transformar uma inferência legítima em extrapolação. Aqui, as distratoras A, B e D acrescentam opiniões (conivência, necessidade de reforma, atuação criminosa) que não estão nos textos. A C, por sua vez, restringe o alcance da relação ao ignorar que os dois textos tratam do mesmo fenômeno. A correta é a única que se limita ao que os textos autorizam.
PEGA ESSA DICA!
Ao relacionar dois textos, pergunte-se: "que conclusão é obrigatória a partir das duas informações?" Se a alternativa precisar de um dado externo (como a opinião do autor ou um fato histórico), ela está errada.
Alternativa A — ❌ Incorreta
A alternativa afirma que "o Estado brasileiro é conivente com o trabalho análogo à escravidão". Isso contradiz o texto 1, que diz que a legislação "representa grande avanço no combate a essa dura realidade". O texto não acusa o Estado de conivência; pelo contrário, elogia o arcabouço legal. Além disso, a ideia de que "cabe à imprensa elaborar as denúncias" é uma opinião que não está em nenhum dos textos. A alternativa extrapola ao atribuir ao texto uma crítica que ele não faz.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A alternativa diz que "a legislação brasileira precisa ser reformada, pois não diferencia 'trabalho análogo à escravidão' de 'trabalho escravo'". O texto 1, no entanto, define o que é trabalho análogo à escravidão e o faz de forma clara, citando o artigo 149 do Código Penal. Não há qualquer menção à necessidade de reforma ou à confusão entre os termos. A alternativa extrapola ao sugerir uma deficiência legal que o texto não aponta.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A alternativa afirma que os textos "não se comunicam, pois um define o 'trabalho análogo à escravidão' e o outro trata de 'trabalho escravo'". Isso é um falso pressuposto: os dois textos tratam do mesmo fenômeno, apenas com nomenclaturas diferentes. O texto 2 usa "trabalho escravo" como sinônimo de "trabalho análogo à escravidão", e o texto 1 explica exatamente o que isso significa. A alternativa restringe indevidamente a relação entre os textos, ignorando a complementaridade evidente.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A alternativa afirma que "o Ministério Público realizou trabalho análogo à escravidão ao atuar em situações relativas à escravização contemporânea". Isso é um absurdo lógico e uma extrapolação completa. O texto 2 menciona "operações do Ministério do Trabalho", não do Ministério Público, e não há qualquer sugestão de que esses órgãos tenham cometido o crime. A alternativa contradiz frontalmente o conteúdo dos textos.
Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A alternativa afirma que "o número de trabalhadores em situação análoga à escravidão resgatados no Brasil causa espanto, tendo em vista a legislação brasileira em vigor". Isso é uma inferência legítima a partir dos dois textos. O texto 1 diz que a legislação "representa grande avanço no combate a essa dura realidade"; o texto 2 mostra que, mesmo assim, 918 pessoas foram resgatadas em um trimestre. A combinação dessas informações leva à conclusão de que o número é surpreendente, pois a lei já prevê e combate essa prática. A alternativa não acrescenta nada de fora — apenas explicita o que os textos, juntos, autorizam.
Conclusão: a questão exige que você relacione os dois textos sem extrapolar. A alternativa E é a única que se limita ao que os textos dizem, fazendo uma inferência obrigatória a partir das pistas. As demais ou contradizem o texto, ou acrescentam opiniões, ou restringem o alcance da relação. Lembre-se: a resposta certa é sempre a que o texto autoriza, nem mais, nem menos.