Questão de Português — Figuras de Linguagem — VUNESP 2023
Português›Figuras de Linguagem
Código
vu185334
Banca
VUNESP
Órgão
PPS
Ano
2023
Cargo
2º AEM ( )
Amor é fogo que arde sem se ver; É ferida que dói e não se sente; É um contentamento descontente; É dor que desatina sem doer;
É um não querer mais que bem querer; É um solitário andar por entre a gente; É nunca contentar-se de contente; É um cuidar que ganha em se perder;
É querer estar preso por vontade; É servir a quem vence, o vencedor; É ter com quem nos mata lealdade.
Mas como causar pode seu favor Nos corações humanos amizade, Se tão contrário a si é o mesmo Amor?
(Luís de Camões. Obra completa, 2003)
Leia o soneto do poeta português Luís de Camões. A principal figura de linguagem mobilizada pelo eu lírico na construção do soneto é
Ao eufemismo.
Bo paradoxo.
Ca personificação.
Do pleonasmo.
Ea metalinguagem.
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GabaritoB — o paradoxo.
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Figuras de linguagem no soneto de Camões
Gabarito: letra B. A principal figura de linguagem do soneto é o paradoxo, pois o eu lírico constrói o amor por meio de uniões de termos contraditórios — como se lê já no primeiro verso: "Amor é fogo que arde sem se ver" (fogo que arde sem ser visto) e, de forma ainda mais explícita, em "É ferida que dói e não se sente" (ferida que dói sem ser sentida). O paradoxo é a figura que aproxima ideias que se excluem mutuamente, criando uma contradição aparente, e é exatamente isso que estrutura todo o poema.
O comando da questão
A questão pede que você identifique a principal figura de linguagem mobilizada pelo eu lírico. Isso é uma tarefa de interpretação de texto aplicada à estilística: você precisa reconhecer o recurso expressivo dominante, não apenas um detalhe isolado. A banca quer que você perceba o padrão que atravessa o poema inteiro — e esse padrão é a contradição sistemática.
O texto: tema e movimento argumentativo
O soneto de Camões é uma definição paradoxal do amor. Cada verso apresenta uma imagem que nega a si mesma: o amor é fogo que arde sem se ver, ferida que dói sem se sentir, contentamento descontente, dor que desatina sem doer. O eu lírico não descreve o amor de forma direta; ele o define por meio de oposições internas — cada expressão contém um par de ideias que se contradizem. Esse recurso é o paradoxo (também chamado de oxímoro quando a contradição se dá entre palavras justapostas, como "contentamento descontente").
A figura não aparece uma única vez: ela é a espinha dorsal do poema. Do primeiro ao último verso, o amor é apresentado como algo que é e não é ao mesmo tempo — "É um não querer mais que bem querer", "É um cuidar que ganha em se perder", "É querer estar preso por vontade". Até a pergunta final — "Se tão contrário a si é o mesmo Amor?" — reforça a ideia de que o amor é contraditório por natureza.
A técnica que decide
Para resolver, você precisa distinguir o paradoxo de figuras vizinhas:
Paradoxo: une termos contraditórios em uma mesma expressão, criando uma contradição lógica (ex.: "ferida que dói e não se sente").
Antítese: aproxima palavras de sentido oposto, mas sem contradição interna (ex.: "o amor e o ódio caminham juntos").
Personificação: atribui características humanas a seres inanimados (ex.: "o relógio cansou de trabalhar").
Pleonasmo: repete uma ideia já contida em outra palavra (ex.: "subir para cima").
Eufemismo: suaviza uma ideia desagradável (ex.: "partiu" por "morreu").
No soneto, a contradição é interna a cada imagem: não há dois termos opostos lado a lado, mas um único conceito que se desmente. Isso é a marca do paradoxo.
Análise das alternativas
Figuras de linguagem: Paradoxo (gabarito) (Une termos contraditórios, Contradição interna, Ex.: "ferida que dói e não se sente"); Antítese (confundível) (Oposição sem contradição interna, Ex.: "amor e ódio caminham juntos"); Personificação (Características humanas a inanimados); Pleonasmo (Repetição de ideia já contida, Ex.: "subir para cima"); Eufemismo (Suaviza ideia desagradável, Ex.: "partiu" por "morreu")
Alternativa A — ❌ Incorreta
O eufemismo é uma figura que suaviza uma expressão desagradável, como dizer "perder a vida" em vez de "morrer". No soneto, não há nenhuma tentativa de atenuar algo; ao contrário, o eu lírico intensifica as contradições do amor. A alternativa extrapola o texto, pois não há qualquer expressão que busque amenizar um conteúdo pesado.
Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO
O paradoxo é a figura que une termos contraditórios em uma mesma expressão. O texto está repleto de exemplos:
"Amor é fogo que arde sem se ver; / É ferida que dói e não se sente; / É um contentamento descontente; / É dor que desatina sem doer;"
Cada verso apresenta uma contradição interna: fogo que arde sem ser visto, ferida que dói sem ser sentida, contentamento descontente, dor que desatina sem doer. Essa é a definição clássica de paradoxo — e é o recurso que estrutura todo o poema, do início ao fim. A alternativa está inteiramente sustentada pelo texto.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A personificação (ou prosopopeia) atribui características humanas a seres inanimados ou abstratos. No soneto, o amor é tratado como algo que "arde", "dói", "desatina" — mas isso não é personificação, é metáfora e paradoxo. O amor não é apresentado como uma pessoa; ele é descrito por meio de imagens contraditórias. A alternativa confunde o recurso dominante com um recurso secundário que não aparece de forma relevante.
Alternativa D — ❌ Incorreta
O pleonasmo é a repetição de uma ideia já contida em outra palavra (ex.: "subir para cima"). No soneto, não há repetição enfática de sentido; há contradição de sentidos. A alternativa troca o conceito: o que parece redundância ("contentamento descontente") é, na verdade, um oxímoro — uma forma de paradoxo, não de pleonasmo.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A metalinguagem ocorre quando a linguagem fala de si mesma (ex.: um texto que discute a própria escrita). O soneto fala sobre o amor, não sobre a linguagem. A alternativa foge ao tema do texto, pois não há qualquer referência ao ato de escrever ou à língua.
Fechamento
A questão testa sua capacidade de reconhecer a figura dominante em um texto literário. A dica de ouro: procure o padrão que se repete. Se o texto inteiro é construído sobre contradições internas, a figura é o paradoxo. Não se deixe enganar por figuras que aparecem em exemplos isolados — a banca quer a principal.
PEGA ESSA DICA!
Ao identificar figuras de linguagem, pergunte-se: "qual recurso é estrutural no texto?" Se a contradição é a base da construção, é paradoxo; se é apenas uma oposição entre termos, é antítese.