Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — VUNESP 2023
Português›Interpretação de Textos (Compreensão)
Código
vu185337
Banca
VUNESP
Órgão
PPS
Ano
2023
Cargo
2º AEM ( )
As gírias ‘daora’ invadiram a nossa praia
Os “mano e as mina”, no trampo ou na balada, acham tudo “daora” ou “sussa”, ou só “ficam pistola” se tiver “treta”. Não deu para entender? Então, isso é sinal (ou seria semáforo) de que as gírias paulistanas desembarcaram no Rio para confundir. Mas a gente pode explicar, assim como qualquer carioca que aderiu ao “paulistanês”.
É o caso da estudante Aline Lopes, moradora de Bento Ribeiro. Ela usa corriqueiramente expressões típicas da Terra da Garoa, novas e antigas.
– Falo “que fita”, “fazer um corre” e “breja” – enumera Aline, para lamentar em seguida: Mas “padoca” e “feijuca” eu não consigo.
O tatuador Thiago Luz, que foi alvo de deboche quando chegou ao Rio, há 18 anos, lembra que falar palavras como “mano” era a senha para virar motivo de piada.
– Eu não podia falar “mano”, “meu”, “rolezinho” e “daora” que alguém sempre caía em cima. Parecia que eu estava em outro planeta.
Mas a história de amor com São Paulo não encanta todos os cariocas. O engenheiro Maurilio Mesquita, que mora na Tijuca, não disfarça o incômodo. Ele costuma dizer que o monopólio da língua é disputado entre Rio e São Paulo, numa espécie de “bipolarização do português”.
– Está na hora de o Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) tombar o português falado na antiga capital do Império – provoca Maurilio.
(Adaptado de: PORCIDONIO, Gilberto.
As gírias ‘daora’ invadiram a nossa praia. O Globo, 22.04.18, p. 16)
Leia o texto, publicado no jornal O Globo, em 2018, do jornalista carioca Gilberto Porcidonio.
A matéria de Gilberto Porcidonio sugere que
Apaulistanos falam de forma confusa, mas isso não tem impedido o uso de palavras comuns em São Paulo, como “treta” e “feijuca”, por moradores do Rio de Janeiro.
Bgírias usadas por paulistanos, como “ficam pistola” e “sussa”, vêm se tornando conhecidas no Rio de Janeiro, mas nem sempre são compreendidas ou bem aceitas por cariocas.
Ccariocas deixaram de usar palavras típicas do Rio de Janeiro, como “cerveja”, e passaram a usar palavras que são empregadas por paulistanos, como “breja”.
Dpalavras como “sussa”, “daora” e “rolezinho” são usadas por paulistanos para indicar situações que são desconhecidas por quem vive no Rio de Janeiro.
Ecariocas estão travando uma disputa com paulistanos pelo domínio do português, levando à rejeição de palavras como “padoca” e “mano” no Rio de Janeiro.
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GabaritoB — gírias usadas por paulistanos, como “ficam pistola” e “sussa”, vêm se tornando conhecidas no Rio de Janeiro, mas nem sempre são compreendidas ou bem aceitas por cariocas.
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A matéria sugere que as gírias paulistanas chegam ao Rio, mas nem sempre são compreendidas ou aceitas
Gabarito: letra B. A matéria de Gilberto Porcidonio sugere que gírias usadas por paulistanos, como “ficam pistola” e “sussa”, vêm se tornando conhecidas no Rio de Janeiro, mas nem sempre são compreendidas ou bem aceitas por cariocas — exatamente o que o texto afirma no primeiro parágrafo, ao dizer que as gírias “desembarcaram no Rio para confundir” e que “a gente pode explicar, assim como qualquer carioca que aderiu ao ‘paulistanês’”. A alternativa B é uma paráfrase fiel dessa passagem, sem acrescentar nada que o texto não diga.
O comando: compreensão, não inferência
O enunciado pede que você identifique o que a matéria sugere — ou seja, o que o texto afirma de forma direta, ainda que com certa leveza jornalística. Não se trata de inferir algo não dito, nem de aplicar conhecimento de mundo: a resposta está explícita no texto, apenas reescrita com outras palavras. Por isso, o método é: localizar a passagem que sustenta cada alternativa e verificar se ela diz exatamente aquilo — nem mais, nem menos.
O texto: tema e movimento argumentativo
O texto trata da chegada de gírias paulistanas ao Rio de Janeiro e da reação dos cariocas. O primeiro parágrafo já resume a tese: as gírias “desembarcaram no Rio para confundir”, mas há cariocas que aderiram a elas e podem explicá-las. Em seguida, o texto dá exemplos: a estudante Aline usa “que fita”, “fazer um corre” e “breja”, mas não consegue dizer “padoca” e “feijuca”; o tatuador Thiago lembra que, ao chegar ao Rio, era alvo de deboche por falar “mano”, “meu”, “rolezinho” e “daora”; e o engenheiro Maurilio provoca, dizendo que há uma “bipolarização do português” entre Rio e São Paulo. O movimento é claro: as gírias chegam, algumas são adotadas, outras causam estranhamento ou rejeição.
A técnica que decide: paráfrase fiel × extrapolação
A alternativa correta é a que reescreve o que o texto diz, sem acrescentar opiniões, sem generalizar e sem inverter sentidos. As erradas, em geral, extrapolam: pegam uma ideia do texto e a levam além do que está escrito. Por exemplo, o texto menciona que Maurilio fala em “bipolarização do português” e provoca o Iphan, mas não diz que há uma “disputa pelo domínio do português” nem que os cariocas “rejeitam” palavras específicas — isso é invenção. Outra armadilha comum é trocar o sujeito: o texto fala de cariocas usando gírias paulistanas, não de paulistanos falando de forma confusa. Fique atento a palavras absolutas como “deixaram de usar”, “todos”, “apenas” — elas quase sempre sinalizam restrição indevida.
Alternativa A — ❌ Incorreta
A alternativa diz que “paulistanos falam de forma confusa, mas isso não tem impedido o uso de palavras comuns em São Paulo, como ‘treta’ e ‘feijuca’, por moradores do Rio”. O texto não diz que paulistanos falam de forma confusa — quem se confunde são os cariocas diante das gírias. Além disso, “feijuca” é citada como palavra que Aline não consegue usar, não como palavra adotada por cariocas. A alternativa extrapola e inverte o sentido.
Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A alternativa B é uma paráfrase fiel do primeiro parágrafo. Veja a passagem que a sustenta:
“as gírias paulistanas desembarcaram no Rio para confundir. Mas a gente pode explicar, assim como qualquer carioca que aderiu ao ‘paulistanês’.”
O texto afirma que as gírias chegaram ao Rio (“vêm se tornando conhecidas”), que causam confusão (“nem sempre são compreendidas”) e que há cariocas que aderiram, mas também há quem não as aceite — como o engenheiro Maurilio, que “não disfarça o incômodo”. A alternativa não acrescenta nada e não restringe o alcance do texto. É a única inteiramente sustentada.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A alternativa afirma que “cariocas deixaram de usar palavras típicas do Rio de Janeiro, como ‘cerveja’, e passaram a usar palavras que são empregadas por paulistanos, como ‘breja’”. O texto não diz que os cariocas deixaram de usar “cerveja” — apenas que Aline usa “breja”. A palavra “deixaram” é uma generalização indevida (restringe o alcance do texto, transformando um exemplo em regra). Além disso, o texto não afirma que “breja” substituiu “cerveja”.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A alternativa diz que “palavras como ‘sussa’, ‘daora’ e ‘rolezinho’ são usadas por paulistanos para indicar situações que são desconhecidas por quem vive no Rio”. O texto não diz que essas palavras indicam “situações desconhecidas” — elas são gírias que os cariocas podem não compreender, mas isso não significa que indiquem situações desconhecidas. A alternativa extrapola ao atribuir uma função que o texto não menciona.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A alternativa afirma que “cariocas estão travando uma disputa com paulistanos pelo domínio do português, levando à rejeição de palavras como ‘padoca’ e ‘mano’ no Rio”. O texto não diz que há uma disputa pelo domínio do português — Maurilio fala em “bipolarização do português” de forma provocativa, mas isso não é uma disputa real. Além disso, o texto não diz que “padoca” e “mano” são rejeitadas: Aline não consegue usar “padoca”, e Thiago foi alvo de deboche por falar “mano”, mas isso não configura uma “rejeição” generalizada. A alternativa extrapola e generaliza.
NÃO CAIA NESSA!
A banca adora extrapolar com um fato que parece verdadeiro, mas que o texto não afirma. Aqui, a “disputa pelo domínio do português” (E) e a “rejeição de palavras” (E) são invenções — o texto apenas relata opiniões e exemplos isolados.
PEGA ESSA DICA!
Ao ler o comando “a matéria sugere”, grife as palavras que indicam alcance (“nem sempre”, “alguns”, “muitos”) e desconfie de absolutos (“deixaram”, “todos”, “apenas”). A resposta correta quase sempre repete o mesmo alcance do texto.
Gabarito: letra B — a única alternativa que parafraseia o texto sem extrapolar, restringir ou inverter o sentido.