Pular para o conteúdo principal

Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — VUNESP 2023

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
vu185341
Banca
VUNESP
Órgão
PPS
Ano
2023
Cargo
2º AEM ( )

A escravidão levou consigo ofícios e aparelhos, como terá sucedido a outras instituições sociais. Não cito alguns aparelhos senão por se ligarem a certo ofício. Um deles era o ferro ao pescoço, outro o ferro ao pé; havia também a máscara de folha de flandres. A máscara fazia perder o vício da embriaguez aos escravos, por lhes tapar a boca. Tinha só três buracos, dous para ver, um para respirar, e era fechada atrás da cabeça por um cadeado. Com o vício de beber, perdiam a tentação de furtar, porque geralmente era dos vinténs do senhor que eles tiravam com que matar a sede, e aí ficavam dous pecados extintos, e a sobriedade e a honestidade, certas. Era grotesca tal máscara, mas a ordem social e humana nem sempre se alcança sem o grotesco, e alguma vez o cruel. Os funileiros as tinham penduradas, à venda, na porta das lojas. Mas não cuidemos de máscaras.

 

O ferro ao pescoço era aplicado aos escravos fujões. Imaginai uma coleira grossa, com a haste grossa também, à direita ou à esquerda, até ao alto da cabeça e fechada atrás com chave. Pesava, naturalmente, mas era menos castigo que sinal. Escravo que fugia assim, onde quer que andasse, mostrava um reincidente, e com pouco era pegado.

 

(Machado de Assis. Pai contra mãe. In: Relíquias de Casa Velha,

Obra completa em três volumes. 6a impressão ilustrada. Rio de Janeiro:

Editora Nova Aguilar, 1986, vol. II, p. 659)

Leia o texto para responder à questão.     No primeiro parágrafo do texto, pode-se afirmar que o narrador:
  1. Autiliza-se a hipérbole (exagero) ao mencionar, no mesmo trecho, o “ferro ao pescoço”, o “ferro ao pé” e descrever a “máscara de folha de flandres”.
  2. Belide (oculta) a função de alguns aparelhos de tortura aos escravizados para jamais reproduzir os dias terríveis da escravidão brasileira.
  3. Cmenciona de forma leve o assunto da escravização brasileira, ao dizer que “não cito aparelhos senão por se ligarem a certo ofício.
  4. Dconstrói uma breve lista de aparelhos com os quais se torturavam os escravizados, com o objetivo de relembrar os dias terríveis da escravidão brasileira.
  5. Eutiliza uma atenuação ao concluir o primeiro parágrafo com “Mas não cuidemos de máscaras”, já que um dos assuntos do trecho é a violência dos aparelhos de tortura aos escravizados.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoD — constrói uma breve lista de aparelhos com os quais se torturavam os escravizados, com o objetivo de relembrar os dias terríveis da escravidão brasileira.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

O narrador e a lista de aparelhos de tortura

Gabarito: letra D. O narrador constrói uma breve lista de aparelhos de tortura — "ferro ao pescoço", "ferro ao pé" e "máscara de folha de flandres" — e o faz com o objetivo de relembrar os dias terríveis da escravidão brasileira, como se lê na abertura do texto: "A escravidão levou consigo ofícios e aparelhos". A alternativa D é a única que parafraseia fielmente o que está escrito, sem acrescentar, restringir ou inverter o sentido.

O comando pede uma compreensão/recorrência: "pode-se afirmar que o narrador". Isso significa que a resposta deve ser uma reescritura equivalente de uma ideia explícita no texto, não uma dedução nem uma opinião externa. A tarefa é localizar a passagem que autoriza a afirmação e conferir se cada alternativa diz exatamente o que o texto diz — nem mais, nem menos.

O primeiro parágrafo tem um movimento claro: o narrador enumera os aparelhos ("Um deles era o ferro ao pescoço, outro o ferro ao pé; havia também a máscara de folha de flandres"), descreve a máscara e, ao final, corta o assunto com "Mas não cuidemos de máscaras". A lista é o núcleo do parágrafo, e a intenção de relembrar está na frase inicial, que situa esses objetos como herança da escravidão. A alternativa D junta esses dois elementos: a lista (fato explícito) e o objetivo de relembrar (também explícito na abertura).

A técnica que decide esta questão é o teste da paráfrase: para cada alternativa, pergunte "o texto autoriza isto?" e confira se a reescritura mantém o sentido original. A alternativa correta é a que não acrescenta, não suprime e não inverte nada. As demais ou extrapolam (trazem ideias de fora), ou restringem (limitam o alcance), ou trocam o foco (falam de outro aspecto).

NÃO CAIA NESSA!

Grife o comando: "pode-se afirmar" pede recorrência — a resposta está explícita, em forma de paráfrase. Não confunda com "infere-se", que exigiria dedução a partir de pistas.

1✅ Parafraseia fielmente
Não acrescenta
Não suprime
Não inverte
2❌ Extrapola
Atribui figura inexistente (A)
Inventa finalidade (B)
Juízo de valor subjetivo (C)
3❌ Restringe
Limita o alcance (C)
Troca o foco (E)
4❌ Contradiz
Oculta o que o texto descreve (B)
Teste da paráfrase
LEVELsoulevel.com.br
Teste da paráfrase: ✅ Parafraseia fielmente (Não acrescenta, Não suprime, Não inverte); ❌ Extrapola (Atribui figura inexistente (A), Inventa finalidade (B), Juízo de valor subjetivo (C)); ❌ Restringe (Limita o alcance (C), Troca o foco (E)); ❌ Contradiz (Oculta o que o texto descreve (B))

Alternativa A — ❌ Incorreta

A alternativa afirma que o narrador usa hipérbole (exagero) ao listar os aparelhos. No texto, porém, não há exagero: a lista é objetiva e descritiva, sem intensificação. O narrador apenas enumera: "Um deles era o ferro ao pescoço, outro o ferro ao pé; havia também a máscara de folha de flandres". Não há nenhuma palavra que amplie ou exagere a realidade. A alternativa extrapola ao atribuir uma figura de linguagem que o texto não apresenta.

Alternativa B — ❌ Incorreta

A alternativa diz que o narrador elide (oculta) a função de alguns aparelhos "para jamais reproduzir os dias terríveis da escravidão brasileira". O texto, ao contrário, descreve a função da máscara: "A máscara fazia perder o vício da embriaguez aos escravos, por lhes tapar a boca". Não há ocultação; há explicação. Além disso, a finalidade atribuída ("para jamais reproduzir") não está no texto — é uma opinião embutida que o narrador não externa. A alternativa contradiz o texto e extrapola.

Alternativa C — ❌ Incorreta

A alternativa afirma que o narrador "menciona de forma leve o assunto da escravização brasileira". O texto não qualifica o tom como "leve"; ele apenas diz que não cita alguns aparelhos senão por se ligarem a certo ofício. A palavra "leve" é um juízo de valor que o narrador não emite. Além disso, a alternativa restringe o alcance: o narrador não está apenas mencionando de forma leve — ele está descrevendo os aparelhos e seus usos. A alternativa acrescenta opinião e restringe o sentido.

Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A alternativa D é a única inteiramente sustentada pelo texto. O narrador constrói uma breve lista de aparelhos: "Um deles era o ferro ao pescoço, outro o ferro ao pé; havia também a máscara de folha de flandres". E o objetivo de relembrar está explícito na abertura: "A escravidão levou consigo ofícios e aparelhos". A expressão "dias terríveis" é uma paráfrase de "escravidão" — o texto não usa essas palavras, mas a ideia de que a escravidão foi terrível está pressuposta na descrição dos aparelhos de tortura. A alternativa parafraseia o texto sem acrescentar, restringir ou inverter nada.

Alternativa E — ❌ Incorreta

A alternativa afirma que o narrador usa uma atenuação ao concluir com "Mas não cuidemos de máscaras". O texto, porém, não atenua a violência; ele apenas muda de assunto. A expressão "Mas não cuidemos de máscaras" é uma mudança de tópico, não uma suavização. A alternativa extrapola ao atribuir uma intenção que o texto não declara. Além disso, a alternativa restringe o foco: o narrador não está atenuando a violência, mas sim encerrando a descrição da máscara para passar ao ferro ao pescoço.

Conclusão: a questão pede uma compreensão — a resposta está explícita no texto, em forma de paráfrase. A alternativa D é a única que não extrapola, não restringe, não contradiz e não acrescenta opinião. As demais ou atribuem figuras de linguagem inexistentes, ou inventam finalidades, ou qualificam o tom de forma subjetiva. Gabarito: letra D.

Link permanente: /questoes/vu185341