Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — VUNESP 2023
Português›Interpretação de Textos (Compreensão)
Código
vu185342
Banca
VUNESP
Órgão
PPS
Ano
2023
Cargo
2º AEM ( )
A crônica não é um “gênero maior”. Não se imagina uma literatura feita de grandes cronistas, que lhe dessem o brilho universal dos grandes romancistas, dramaturgos e poetas. Portanto, parece mesmo que a crônica é um gênero “menor”. Por meio dos assuntos, da composição solta, do ar de coisa sem necessidade que costuma assumir, ela se ajusta à sensibilidade de todo o dia. O fato de ficar perto do dia a dia age como quebra do monumental e da ênfase.
(Antonio Candido. Recortes, 1993. Adaptado)
Leia o trecho do ensaio “A vida ao rés-do-chão”, do crítico Antonio Candido. Depreende-se do ensaio de Antonio Candido que
Aa crônica possui valor literário inferior ao romance, por não dar ênfase aos assuntos graves do cotidiano.
Ba crônica, por se debruçar sobre a matéria do cotidiano, é um gênero que produz a impressão de elevação.
Ca crônica, por se debruçar sobre a matéria do cotidiano, é um gênero que abre mão do monumental.
Da crônica possui valor literário inferior à poesia, por não explorar o lirismo que se oculta no cotidiano.
Ea crônica, por se debruçar sobre a matéria do cotidiano, é um gênero que não focaliza assuntos relevantes.
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GabaritoC — a crônica, por se debruçar sobre a matéria do cotidiano, é um gênero que abre mão do monumental.
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A crônica e a quebra do monumental
Gabarito: letra C. O ensaio de Antonio Candido afirma que a crônica, por se ajustar à sensibilidade do dia a dia, "age como quebra do monumental e da ênfase" — exatamente o que a alternativa C parafraseia ao dizer que ela "abre mão do monumental". As demais alternativas ou invertem o sentido (como a B, que fala em "elevação"), ou extrapolam ao atribuir juízos de valor que o texto não sustenta (A, D, E).
O comando: "depreende-se" pede inferência ancorada
O verbo "depreende-se" indica que a resposta não está literalmente escrita, mas é uma conclusão lógica que o texto autoriza. Isso não significa liberdade para imaginar: a inferência precisa de uma pista textual que a sustente. Aqui, a pista está na última frase do trecho: a crônica, por estar perto do dia a dia, "age como quebra do monumental e da ênfase". A alternativa C apenas traduz essa ideia com outras palavras — é uma paráfrase legítima.
O texto: tese e movimento argumentativo
O autor parte de uma constatação (a crônica não é "gênero maior") e a desenvolve mostrando que isso não é um defeito: é justamente a proximidade com o cotidiano que dá à crônica sua característica essencial — a despretensão, o "ar de coisa sem necessidade". O ponto central é que essa característica quebra o monumental, ou seja, afasta a crônica da grandiloquência e da ênfase solene. Não há, em momento algum, uma hierarquia de valor entre gêneros (como sugerem A e D), nem a ideia de que a crônica produza "elevação" (como diz B), nem que ela ignore assuntos relevantes (como afirma E).
A técnica: inferência legítima × extrapolação
A inferência legítima se apoia em pressupostos deixados pelo texto. Quando o autor diz que a crônica "age como quebra do monumental", ele pressupõe que o monumental é algo que a crônica evita — e é exatamente isso que a alternativa C captura. Já a extrapolação ocorre quando a alternativa acrescenta uma ideia que o texto não contém, mesmo que ela pareça plausível no mundo real. Por exemplo, dizer que a crônica tem "valor literário inferior" (A e D) é um juízo de valor que o autor não emite: ele apenas constata que ela não é considerada um "gênero maior", sem afirmar que seja inferior. Essa distinção é a chave para eliminar as distratoras.
Crônica (Antonio Candido): Característica essencial (Proximidade com o cotidiano, Despretensão ("ar de coisa sem necessidade")); Efeito (Quebra do monumental, Quebra da ênfase); O que NÃO é (Gênero "maior", Inferior a romance/poesia, Produz elevação, Ignora assuntos relevantes)
Alternativa A — ❌ Incorreta
A alternativa afirma que a crônica possui "valor literário inferior ao romance" e que isso se deve a "não dar ênfase aos assuntos graves do cotidiano". O texto não estabelece nenhuma comparação de valor entre crônica e romance — ele apenas diz que a crônica não é um "gênero maior" e que se ajusta ao dia a dia. Além disso, a ideia de "assuntos graves" não aparece; o texto fala em "ar de coisa sem necessidade", não em gravidade. Erro: extrapolação — acrescenta uma hierarquia de valor e um motivo que o autor não menciona.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A alternativa diz que a crônica, por se debruçar sobre o cotidiano, "produz a impressão de elevação". Isso contradiz o texto, que afirma exatamente o oposto: a crônica "age como quebra do monumental e da ênfase". "Elevação" é o contrário de "quebra do monumental". Erro: contradiz o texto — inverte o sentido com a troca de um vocábulo crucial ("quebra" por "elevação").
Alternativa C — ✅ Correta
A alternativa afirma que a crônica, por se debruçar sobre o cotidiano, "abre mão do monumental". Isso é uma paráfrase fiel da passagem:
"O fato de ficar perto do dia a dia age como quebra do monumental e da ênfase."
"Abrir mão do monumental" = "quebra do monumental". A alternativa mantém a relação de causa (cotidiano) e efeito (quebra do monumental) exatamente como o texto. Correta — é a única inteiramente sustentada pelo texto.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A alternativa afirma que a crônica possui "valor literário inferior à poesia" e que isso se deve a "não explorar o lirismo que se oculta no cotidiano". O texto não compara crônica e poesia, nem menciona "lirismo". A ideia de "lirismo oculto" é uma extrapolação — o autor não fala em lirismo, apenas em "sensibilidade de todo o dia". Erro: extrapolação — acrescenta elementos (poesia, lirismo) que não estão no texto.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A alternativa afirma que a crônica "não focaliza assuntos relevantes". O texto não diz isso: ele diz que a crônica tem "ar de coisa sem necessidade", mas isso não significa que os assuntos sejam irrelevantes — apenas que a abordagem é despretensiosa. A palavra "relevantes" é uma generalização que o texto não autoriza. Erro: generalização — restringe o alcance do que o autor afirma, transformando "sem necessidade" em "irrelevante".
NÃO CAIA NESSA!
A banca adora inverter o sentido com um vocábulo ("elevação" em vez de "quebra") e extrapolar com juízos de valor ("inferior", "relevantes") que o autor não emite. Desconfie de palavras absolutas como "inferior", "não focaliza" — confronte com o texto.
PEGA ESSA DICA!
Ao resolver questões de inferência, pergunte: "o texto autoriza esta conclusão, ou exige acrescentar algo de fora?". Se a alternativa depende de uma ideia que não está no texto, é extrapolação.
Gabarito: letra C — a única que parafraseia fielmente a tese do autor, sem acrescentar nem inverter nada.