Questão de Português — Figuras de Linguagem — VUNESP 2023
Português›Figuras de Linguagem
Código
vu185343
Banca
VUNESP
Órgão
PPS
Ano
2023
Cargo
2º AEM ( )
Amor, que o gesto humano n’alma escreve, vivas faíscas me mostrou um dia, donde um puro cristal se derretia por entre vivas rosas e alva neve.
A vista, que em si mesma não se atreve, por se certificar do que ali via, foi convertida em fonte, que fazia a dor ao sofrimento doce e leve.
Jura Amor que brandura de vontade causa o primeiro efeito; o pensamento endoudece, se cuida que é verdade.
Olhai como Amor gera num momento, de lágrimas de honesta piedade, lágrimas de imortal contentamento!
(CAMÕES, Luís Vaz de. Obra completa, 2003)
Leia o poema de Luís de Camões, para responder à questão. O soneto é construído a partir do recurso reiterado
Aao eufemismo, com a intenção de expor os prazeres decorrentes do sentimento amoroso.
Bà antítese, com a intenção de expor as contradições decorrentes do sentimento amoroso.
Cà antítese, com a intenção de expor o enfraquecimento paulatino do sentimento amoroso.
Dao pleonasmo, com a intenção de se expor a banalidade do sentimento amoroso.
Eao eufemismo, com a intenção de expor a ausência de lógica do sentimento amoroso.
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GabaritoB — à antítese, com a intenção de expor as contradições decorrentes do sentimento amoroso.
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Antítese no soneto de Camões: as contradições do amor
Gabarito: letra B. O soneto é construído a partir do recurso reiterado da antítese, com a intenção de expor as contradições decorrentes do sentimento amoroso. A prova está nos pares de opostos que atravessam o poema — "vivas faíscas" × "alva neve", "puro cristal" × "vivas rosas", "lágrimas de honesta piedade" × "lágrimas de imortal contentamento" —, todos aproximando termos de sentidos contrários, o que caracteriza a antítese e aponta para a natureza paradoxal do amor.
O comando pede que se identifique o recurso reiterado — ou seja, a figura de linguagem que se repete ao longo do texto — e a intenção com que é empregada. Isso exige, primeiro, reconhecer a figura (antítese, e não eufemismo ou pleonasmo) e, segundo, captar o efeito de sentido que ela produz no poema (expor contradições, e não enfraquecimento ou banalidade).
O poema de Camões é um soneto petrarquista que descreve o amor como uma experiência de opostos: o fogo que derrete o cristal, a neve que contrasta com as rosas, a dor que se torna doce e leve, as lágrimas de piedade que se convertem em lágrimas de contentamento. Essa estrutura binária — sempre aproximando elementos antagônicos — é a marca estilística central do texto.
A antítese é a figura de pensamento que consiste na aproximação de palavras ou expressões de sentidos opostos, criando um contraste expressivo. No poema, ela aparece de forma reiterada, como se vê nos versos:
"vivas faíscas me mostrou um dia, / donde um puro cristal se derretia / por entre vivas rosas e alva neve."
Aqui, "vivas faíscas" (fogo) opõe-se a "alva neve" (gelo), e "puro cristal" (frio, transparente) contrasta com "vivas rosas" (quentes, coloridas). O mesmo ocorre no final:
"de lágrimas de honesta piedade, / lágrimas de imortal contentamento!"
As lágrimas de piedade (dor, compaixão) transformam-se em lágrimas de contentamento (alegria), fechando o poema com mais um par de opostos. Essa recorrência de contrastes é exatamente o que a alternativa B descreve: a antítese expõe as contradições do amor — que é simultaneamente fogo e gelo, dor e prazer, piedade e alegria.
A armadilha central da questão está em distinguir a antítese do eufemismo (suavização de algo desagradável) e do pleonasmo (redundância intencional), e, entre as duas alternativas com antítese, escolher o efeito de sentido correto: o texto não fala de enfraquecimento do amor, mas de sua natureza contraditória.
Antítese (recurso reiterado)
1Pares de opostos
"vivas faíscas" × "alva neve"
"puro cristal" × "vivas rosas"
"lágrimas de piedade" × "lágrimas de contentamento"
2Efeito de sentido
Expor contradições do amor
Fogo e gelo, dor e alegria
3Distinções
Eufemismo: suaviza algo desagradável
Pleonasmo: redundância intencional
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Alternativa A — ❌ Incorreta
Erro: troca de figura (eufemismo) + opinião embutida. O texto não emprega eufemismo — não há suavização de algo desagradável; ao contrário, há exaltação dos contrastes. Além disso, a ideia de "prazeres decorrentes do amor" é uma leitura parcial e positiva que o poema não sustenta: o amor é apresentado com dor e piedade, não apenas com prazer.
Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Correta. A antítese é o recurso reiterado, como provam os pares de opostos citados ("vivas faíscas" × "alva neve", "puro cristal" × "vivas rosas", "lágrimas de piedade" × "lágrimas de contentamento"). A intenção é expor as contradições do amor — o sentimento que une fogo e gelo, dor e alegria. A alternativa parafraseia fielmente o efeito produzido pela figura.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Erro: restringe o sentido (enfraquecimento). Embora identifique corretamente a antítese, a alternativa erra ao afirmar que a intenção é expor o "enfraquecimento paulatino" do amor. O texto não sugere decadência ou perda de intensidade; ao contrário, o amor é apresentado como força que gera transformações ("lágrimas de imortal contentamento"). A palavra "paulatino" é uma extrapolação — o poema não descreve um processo gradual de enfraquecimento.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Erro: troca de figura (pleonasmo) + opinião embutida (banalidade). Não há pleonasmo no poema — não há repetição intencional de termos para reforçar uma ideia. Além disso, a ideia de "banalidade do amor" é uma opinião que o texto não externa; o amor é tratado com seriedade e complexidade, não como algo banal.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Erro: troca de figura (eufemismo) + opinião embutida (ausência de lógica). O texto não usa eufemismo, e a ideia de "ausência de lógica" do amor é uma interpretação que o poema não autoriza. O amor é descrito como contraditório, mas isso não equivale a ilógico — a antítese é um recurso expressivo, não uma afirmação sobre a racionalidade do sentimento.
NÃO CAIA NESSA!
A banca oferece duas alternativas com "antítese" (B e C) e duas com "eufemismo" (A e E), forçando o candidato a distinguir a figura correta e, entre as duas com antítese, o efeito de sentido correto. A alternativa C é a mais traiçoeira: acerta a figura, mas erra a intenção, trocando "contradições" por "enfraquecimento".
PEGA ESSA DICA!
Ao identificar figuras de linguagem, procure sempre os pares de opostos no texto. Se houver aproximação de termos contrários, é antítese; se houver suavização de algo desagradável, é eufemismo; se houver redundância intencional, é pleonasmo. Depois, pergunte: qual efeito essa figura produz no texto? A resposta deve estar ancorada nos versos, não em suposições.