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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — VUNESP 2023

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
vu185345
Banca
VUNESP
Órgão
PPS
Ano
2023
Cargo
3º AEM ( )

Moyo é uma pedra basilar de muitas vidas. Homem baixinho. Rechonchudo. Que maneja os objectos mágicos com as mãos de um artista, sem pressa, como se fosse seu todo o tempo do mundo. Com varinhas mágicas rendilhando vidas e almas de gente que vem de todos os ângulos para depositar-lhe nos ouvidos as mais incríveis confidências. Sempre despenteado, estilo rastafári. Um olhar que massaja de frescura qualquer coração em chamas. Um homem que tem para todos um sorriso de menino, uma palavra de ternura.

 

— Boa tarde, Moyo!

 

— Tu aqui?

 

A amizade entre o José e o Moyo não aconteceu por acaso. Passaram por aquelas mãos muitas gerações de escravos, de condenados. A todos ofereceu de presente uma palavra de esperança. Era muito respeitado pelo povo e temido pelo sistema. Por duas vezes as mãos de Moyo trouxeram José aos arrastos do além para este mundo. A primeira quando foi mordido por uma cobra medonha. A segunda quando sofreu o castigo de chibatadas no tronco, por ter tentado fugir do acampamento. O seu corpo estava transformado num puré de sangue que Moyo devolveu à vida, apenas por magia. Cuidou-o pacientemente, como uma mulher velha bordando em ponto de cruz. E embalando- lhe a alma com histórias de encantar, de homens, animais, monstros e tudo, como se de uma criança se tratasse. José dos Montes deve a vida àquele homem. Que o trouxe do além para este mundo. Que reconheceu nele um menino sem pai nem mãe, nem eira nem beira, nem esperança. Alimentara-o durante meses sem nunca pedir nada em troca.

 

(Paulina Chiziane. O Alegre Canto da Perdiz, 2008. Adaptado)

Leia o texto para responder à questão.     Com a passagem do quarto parágrafo – E embalando-lhe a alma com histórias de encantar, de homens, animais, monstros e tudo, como se de uma criança se tratasse. – o narrador enfatiza a importância
  1. Ada cultura oral africana, traduzindo-se poeticamente o poder que as palavras assumem na vida das pessoas.
  2. Bda memória afetiva na tradição africana, vasculhando-se a infância como caminho para entender o presente.
  3. Cda desconstrução da simbologia mística na cultura africana, já que as palavras se revestem de um caráter dúbio.
  4. Dda idealização dos costumes africanos, que define a interação social pela frieza dos sentimentos e das ações.
  5. Eda empatia como marca das relações humanas africanas, que se manifesta com o olhar objetivo sobre a realidade.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoA — da cultura oral africana, traduzindo-se poeticamente o poder que as palavras assumem na vida das pessoas.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

O poder das palavras na cultura oral africana

Gabarito: letra A. A passagem do quarto parágrafo – "E embalando-lhe a alma com histórias de encantar, de homens, animais, monstros e tudo, como se de uma criança se tratasse" – enfatiza a importância da cultura oral africana, traduzindo poeticamente o poder que as palavras assumem na vida das pessoas. O trecho mostra Moyo usando histórias (palavras) para embalar a alma de José, ou seja, para curar, confortar e dar esperança, o que revela a força transformadora da narrativa oral.

O comando pede que se identifique o que o narrador enfatiza com essa passagem específica. Não se trata de uma informação explícita, mas de uma interpretação ancorada no texto: o ato de contar histórias é apresentado como algo que acalma, cura e dá sentido à vida, características típicas da tradição oral africana, em que a palavra tem poder sagrado e terapêutico.

No texto, Moyo é descrito como alguém que "maneja os objectos mágicos" e que "com varinhas mágicas rendilhando vidas e almas". As histórias que ele conta a José são comparadas a um bordado paciente, e ele "embalando-lhe a alma" — a palavra é o instrumento dessa magia. A passagem citada reforça essa ideia: as histórias de "homens, animais, monstros e tudo" são o veículo pelo qual Moyo devolve a vida e a esperança a José.

A alternativa A capta exatamente isso: a cultura oral (contar histórias) e o poder das palavras (poeticamente expresso). As demais alternativas ou extrapolam o texto, ou introduzem ideias que não estão presentes na passagem, ou contradizem o que o narrador afirma.

Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A alternativa A é a única que se sustenta integralmente no texto. A passagem citada mostra Moyo embalando a alma de José com histórias de encantar, ou seja, usando a palavra falada como instrumento de cura e conforto. Isso é a essência da cultura oral: a transmissão de valores, afetos e esperança por meio da narrativa. O texto diz:

"E embalando-lhe a alma com histórias de encantar, de homens, animais, monstros e tudo, como se de uma criança se tratasse."

Aqui, o narrador enfatiza que as histórias (palavras) têm o poder de embalar a alma, de acalmar e dar sentido à vida, exatamente como a alternativa A afirma: "traduzindo-se poeticamente o poder que as palavras assumem na vida das pessoas". A palavra "poeticamente" é chave: o texto usa uma linguagem figurada, metafórica, para descrever esse poder.

Alternativa B — ❌ Incorreta

Erro: extrapolação. A alternativa B fala em "memória afetiva na tradição africana" e "vasculhar a infância como caminho para entender o presente". O texto não menciona infância de José nem memória afetiva como tema. A passagem citada fala de histórias contadas agora, não de lembranças do passado. A comparação "como se de uma criança se tratasse" é apenas uma similitude (Moyo trata José com o cuidado que se tem com uma criança), não uma referência à infância de José. Portanto, a alternativa acrescenta uma ideia que não está no texto.

Alternativa C — ❌ Incorreta

Erro: contradiz o texto. A alternativa C fala em "desconstrução da simbologia mística" e "caráter dúbio" das palavras. O texto, ao contrário, valoriza a palavra e a magia: Moyo "maneja os objectos mágicos" e "com varinhas mágicas rendilhando vidas e almas". Não há nenhuma desconstrução ou dúvida sobre o poder das palavras; há exaltação. A passagem citada mostra as histórias como algo positivo e curativo, não dúbio. A alternativa inverte o sentido do texto.

Alternativa D — ❌ Incorreta

Erro: contradiz o texto. A alternativa D fala em "idealização dos costumes africanos" e "frieza dos sentimentos e das ações". O texto mostra exatamente o oposto: Moyo é descrito com ternura ("um sorriso de menino, uma palavra de ternura") e suas ações são calorosas (cuidar de José, alimentá-lo, embalar sua alma). Não há frieza alguma. A palavra "idealização" também não se sustenta: o narrador descreve Moyo de forma realista, com suas características físicas e ações concretas, sem idealizar. A alternativa contradiz o texto.

Alternativa E — ❌ Incorreta

Erro: tangencia o tema. A alternativa E fala em "empatia como marca das relações humanas africanas" e "olhar objetivo sobre a realidade". Embora Moyo demonstre empatia (cuidar de José), a passagem citada não enfatiza isso; ela enfatiza o poder das histórias (palavras). Além disso, "olhar objetivo sobre a realidade" é o oposto do que o texto apresenta: Moyo usa magia e histórias de encantar, não uma visão objetiva. A alternativa foge ao foco da passagem, que é a cultura oral e o poder da palavra.

NÃO CAIA NESSA!

A banca tenta seduzir com ideias de "memória afetiva" (B), "desconstrução mística" (C), "idealização" (D) e "empatia" (E), todas plausíveis no mundo real, mas ausentes ou contraditórias no texto. A correta é a que parafraseia exatamente o que a passagem diz: o poder das palavras na cultura oral.

PEGA ESSA DICA!

Ao interpretar uma passagem, pergunte: "o que o narrador quer dizer com isso?" e "que pista o texto me dá?". A resposta certa sempre tem ancoragem no texto, nunca é uma ideia solta.

Conclusão: a alternativa A é a única que traduz fielmente o sentido da passagem, sem acrescentar, restringir ou contradizer o texto. As demais ou extrapolam, ou contradizem, ou tangenciam o tema. Gabarito: letra A.

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