Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — VUNESP 2023
Português›Interpretação de Textos (Compreensão)
Código
vu185351
Banca
VUNESP
Órgão
PPS
Ano
2023
Cargo
3º AEM ( )
Em dois meses, o Canadá calcinou e reduziu a cinzas uma área florestal superior às áreas desmatadas da Amazônia nos últimos dez anos, para se ter uma ideia da dimensão territorial do desastre. É como queimar em 60 dias uma área superior à totalidade dos Estados do Rio de Janeiro e Espírito Santo. E a situação se agrava sob um silêncio midiático quase absoluto.
Entre os comentários enfumarados, alguns explicaram a dificuldade do Canadá com incêndios por ser uma situação nova: “o Canadá tem mais dificuldades do que nós em apagar incêndios porque nunca tiveram que fazer isso [sic]” ou “nunca as florestas do Canadá incendiaram antes”. Na realidade, há séculos as florestas canadenses sofrem incêndios. Nos últimos 40 anos (de 1983 a 2022), a média anual de incêndios foi de 7.102.
Para outro especialista, “isso está acontecendo porque estamos atingindo o ponto de não retorno do aquecimento planetário”. Aliás, nos raros artigos sobre o tema, os incêndios canadenses servem apenas para comprovar os efeitos das mudanças climáticas.
Outro especialista vaticinou: “Indiretamente, o desmatamento da Amazônia é responsável pelo que está acontecendo no Canadá”. É surrealista afirmar sobre uma troca inter-hemisférica “indireta” de calor e umidade entre o sul da Amazônia e o Canadá.
(Evaristo de Miranda: Comentariolus sobre incêndios no Canadá e fumaças
no Brasil. https://revistaoeste.com, 21.07.2023. Adaptado)
Leia o texto. Observe os comentários acerca dos incêndios no Canadá citados por Evaristo de Miranda no texto. A crítica que o autor faz a esses comentários é
Aexplícita, como é explícita a crítica, pelo uso de uma metáfora, à capacidade intelectual dos autores dos comentários.
Bexplícita, enquanto a crítica à capacidade intelectual dos autores dos comentários é implícita e feita por meio de uma comparação.
Cexplícita, enquanto a crítica à capacidade intelectual dos autores dos comentários é implícita e baseada no recurso à ironia.
Dimplícita, como é implícita a crítica, feita por meio de um eufemismo, à capacidade intelectual dos autores dos comentários.
Eimplícita, enquanto a crítica à capacidade intelectual dos autores dos comentários é explícita e se expressa num paradoxo.
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GabaritoC — explícita, enquanto a crítica à capacidade intelectual dos autores dos comentários é implícita e baseada no recurso à ironia.
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A crítica do autor: explícita e irônica
Gabarito: letra C. A crítica que Evaristo de Miranda faz aos comentários citados é explícita quanto ao conteúdo (ele os refuta diretamente), mas a crítica à capacidade intelectual dos autores é implícita, feita por meio de ironia — como se vê no trecho em que ele classifica a afirmação sobre o desmatamento da Amazônia como "surrealista". A alternativa C é a única que combina corretamente esses dois planos: o explícito (a refutação direta) e o implícito (a ironia que desqualifica os comentaristas).
O comando: o que a banca pede
A questão pede que você observe os comentários citados e identifique como o autor os critica. O verbo "observar" indica uma tarefa de compreensão (localizar o que está no texto), mas a resposta exige também interpretação, porque a crítica à capacidade intelectual não está dita literalmente — ela está implícita no tom irônico. A banca quer que você distinga o que é explícito (dito diretamente) do que é implícito (subentendido, nas entrelinhas).
O texto: a tese e o movimento argumentativo
O texto de Evaristo de Miranda tem uma tese clara: os incêndios no Canadá são um desastre de grandes proporções, mas recebem pouca atenção da mídia. No desenvolvimento, o autor cita três comentários de "especialistas" e os refuta um a um:
O primeiro diz que o Canadá nunca teve incêndios — o autor responde que "há séculos as florestas canadenses sofrem incêndios".
O segundo atribui tudo ao "ponto de não retorno do aquecimento planetário" — o autor ironiza dizendo que os incêndios servem "apenas para comprovar os efeitos das mudanças climáticas".
O terceiro afirma que o desmatamento da Amazônia é "indiretamente" responsável — o autor chama isso de "surrealista".
A crítica ao conteúdo dos comentários é explícita: o autor diz claramente que estão errados. Mas a crítica à capacidade intelectual dos autores é implícita: ao chamar a afirmação de "surrealista", ele sugere que quem a fez não tem senso de realidade, sem dizer isso diretamente. Essa é a ironia — dizer o contrário do que se pensa, ou usar uma palavra que, no contexto, adquire um tom de deboche.
A técnica: explícito × implícito, ironia × metáfora
A distinção central é entre informação explícita (escrita literalmente) e informação implícita (subentendida). A ironia é um recurso de implícito: o autor não diz "esses especialistas são ignorantes", mas o leitor entende isso pelo tom. Veja o trecho decisivo:
"É surrealista afirmar sobre uma troca inter-hemisférica 'indireta' de calor e umidade entre o sul da Amazônia e o Canadá."
A palavra "surrealista" é a chave. No sentido literal, significa "que parece saído de um sonho". No contexto, o autor a usa para dizer que a afirmação é absurda, sem fundamento — e, ao fazer isso, ridiculariza quem a fez. Essa é a ironia: a crítica à capacidade intelectual está implícita, porque o autor não diz "esses especialistas são incompetentes", mas o leitor infere isso.
As alternativas que falam em metáfora ou comparação erram porque esses recursos não estão presentes na crítica. A metáfora seria uma comparação implícita (ex.: "o Canadá é um gigante em chamas"), e a comparação seria explícita (ex.: "como um fósforo aceso"). Nada disso ocorre. O que ocorre é a ironia, que é uma figura de pensamento, não de palavra.
Análise das alternativas
Crítica do autor
1Ao conteúdo dos comentários
Explícita (refutação direta)
2À capacidade intelectual
Implícita
Ironia ("surrealista")
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Alternativa A — ❌ Incorreta
A alternativa A diz que a crítica é explícita e que a crítica à capacidade intelectual também é explícita, feita por meio de uma metáfora. Há dois erros: (1) a crítica à capacidade intelectual não é explícita — ela está implícita na ironia; (2) não há metáfora no trecho. A palavra "surrealista" é irônica, não metafórica. A alternativa extrapola ao inventar um recurso que não está no texto.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A alternativa B acerta ao dizer que a crítica à capacidade intelectual é implícita, mas erra ao atribuir essa crítica a uma comparação. Não há comparação explícita ou implícita no trecho. O autor não compara os especialistas a nada; ele simplesmente usa a ironia. A alternativa troca o conceito: comparação no lugar de ironia.
Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A alternativa C é a única correta. Ela afirma que a crítica é explícita (o autor refuta diretamente os comentários) e que a crítica à capacidade intelectual é implícita, baseada em ironia. Isso é exatamente o que ocorre: o autor diz que a afirmação é "surrealista", o que é uma forma irônica de dizer que é absurda, sem chamar o autor de ignorante diretamente. A passagem que sustenta isso é:
"É surrealista afirmar sobre uma troca inter-hemisférica 'indireta' de calor e umidade entre o sul da Amazônia e o Canadá."
A ironia está no uso de "surrealista" para desqualificar a afirmação, e a crítica à capacidade intelectual fica implícita, pois o leitor entende que quem fez tal afirmação não tem discernimento.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A alternativa D diz que a crítica é implícita e que a crítica à capacidade intelectual também é implícita, feita por meio de um eufemismo. Há dois erros: (1) a crítica ao conteúdo dos comentários é explícita — o autor refuta diretamente, dizendo que os incêndios ocorrem há séculos, por exemplo; (2) não há eufemismo (suavização de uma ideia desagradável). A ironia não é eufemismo. A alternativa contradiz o texto ao afirmar que a crítica é implícita, quando ela é explícita.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A alternativa E inverte os termos: diz que a crítica é implícita e que a crítica à capacidade intelectual é explícita, expressa em um paradoxo. Isso está errado: a crítica ao conteúdo é explícita, e a crítica à capacidade intelectual é implícita. Além disso, não há paradoxo (contradição aparente) no texto. A alternativa contradiz o texto e troca os conceitos.
Conclusão
A questão testa sua capacidade de distinguir o que está dito do que está subentendido. A crítica ao conteúdo dos comentários é explícita (o autor refuta diretamente), mas a crítica à capacidade intelectual dos autores é implícita, feita por meio de ironia — o uso de "surrealista" para ridicularizar a afirmação. A alternativa C é a única que capta essa dualidade.
PEGA ESSA DICA!
Ao resolver questões sobre crítica, pergunte-se: "O autor diz isso diretamente ou está nas entrelinhas?" Se a crítica está nas entrelinhas, procure o recurso que a veicula — ironia, eufemismo, metáfora etc. A ironia é o recurso mais comum para criticar de forma indireta.