Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — VUNESP 2023
Português›Interpretação de Textos (Compreensão)
Código
vu185356
Banca
VUNESP
Órgão
PPS
Ano
2023
Cargo
3º AEM ( )
De fato* e gravata
Exemplo desses hábitos ou manias [que contribuem com o seu pequeno quinhão para a futura miséria do planeta] é o de se usar fato e gravata, por vezes colete mesmo, nos climas mais tórridos do mundo. Um calor de morrer, humidade no máximo, e lá andamos nós de pescoço apertado a escorrer suor, casacos mesmo que de verão, meias e sapatos apertados. Não aguentamos a temperatura, corremos a refugiar-nos nos gabinetes e salas refrescadas por aparelhos de ar-condicionado, ficamos ainda assim uma meia hora a arrefecer e sem pensar em mais nada senão nos nossos corpos pegajosos, até finalmente nos sentirmos mais confortáveis. Mas não abdicamos do fato e da gravata. Sem fato que seria do burocrata chefe de serviço? Nem parecia um chefe de serviço. E então, que dizer do responsável a nível mais elevado que aparecesse com uma simples camisa? Ninguém o respeitava, parecia um falhado.
Alguns países adotaram como traje oficial (ou pelo menos recomendado) roupas leves e largas, como é o caso de alguns da África Ocidental ou da América Latina. Para não falar já do célebre e elegante safari à Nyerere ou das camisas coloridas e sóbrias de Nelson Mandela. Eis homens que não fizeram concessões aos preconceitos ocidentais e se vestiram sempre de acordo com o clima, antecipando uma luta que hoje é de todos. Muitos africanos só usam fato e gravata para se parecerem com os europeus que os colonizaram. Nunca foram capazes de ultrapassar esse complexo de inferioridade e se sentem nus se não tiverem um casaco escuro, de preferência vindo de um estilista famoso de Londres ou Paris. Uma maneira de exibirem a importância que por vezes não têm.
(Pepetela. “De fato e gravata”. Em: Crónicas Maldispostas, 2015. Adaptado)
* Fato: terno.
Leia o texto para responder à questão. Na passagem do primeiro parágrafo – Sem fato que seria do burocrata chefe de serviço? Nem parecia um chefe de serviço. E então, que dizer do responsável a nível mais elevado que aparecesse com uma simples camisa? Ninguém o respeitava, parecia um falhado. –, o autor exprime
Adesprezo quanto à popularização de formas informais de se vestir para trabalhos burocratas.
Bindiferença às roupas como forma de alguém mostrar competência profissional.
Cadmiração por aqueles que alternam suas formas de se vestir, de acordo com as situações.
Dapreço ao uso de terno para o trabalho, como expediente de confirmação de competência.
Eapoio a quem opta por usar terno e gravata no trabalho, que é a roupa profissional adequada.
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GabaritoB — indiferença às roupas como forma de alguém mostrar competência profissional.
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Ironia e crítica social no trecho de Pepetela
Gabarito: letra B. O autor exprime indiferença às roupas como forma de alguém mostrar competência profissional — e isso se prova pela ironia do trecho: ele mostra que o terno não confere competência alguma, apenas aparência de autoridade. A passagem decisiva é:
"Sem fato que seria do burocrata chefe de serviço? Nem parecia um chefe de serviço. E então, que dizer do responsável a nível mais elevado que aparecesse com uma simples camisa? Ninguém o respeitava, parecia um falhado."
Aqui o autor não defende o terno; ele denuncia que a roupa é um mero símbolo social — sem ela, o chefe "nem parecia" chefe, e com camisa simples seria visto como "falhado". Ou seja: a competência não está na roupa, está no olhar alheio que a roupa manipula. Por isso a alternativa B é a única que capta a crítica do autor: ele é indiferente à roupa como critério de competência — o que importa é o preconceito social.
O comando: interpretar a intenção do autor
A questão pede que você diga o que o autor exprime no trecho — ou seja, qual é a atitude dele diante do fato de o terno ser usado como símbolo de status. Isso é interpretação (inferência), não mera localização de informação: você precisa ler nas entrelinhas a crítica irônica que perpassa o parágrafo. O autor não diz diretamente "sou contra o terno"; ele mostra o absurdo da situação — um chefe sem terno "nem parecia" chefe — e deixa você concluir que a roupa é um fetiche social, não um sinal de competência.
O texto: a tese da crônica
O texto inteiro é uma crítica ao uso do terno e da gravata em climas quentes, tratado como um "hábito" que contribui para a "futura miséria do planeta" (pelo ar-condicionado). No primeiro parágrafo, o autor descreve o desconforto físico e, em seguida, ironiza a necessidade social do terno: sem ele, o chefe não é reconhecido. No segundo parágrafo, ele elogia líderes como Mandela e Nyerere, que "se vestiram sempre de acordo com o clima", e critica os africanos que usam terno por "complexo de inferioridade" colonial. Ou seja: a tese é contra a imposição do terno e a favor da adequação ao clima — e a passagem citada é o ápice da ironia sobre o valor simbólico da roupa.
A técnica: identificar a ironia
A ironia ocorre quando o autor diz o contrário do que pensa, ou quando expõe uma situação absurda para criticá-la. No trecho, as perguntas retóricas — "Sem fato que seria do burocrata chefe de serviço?" — não são uma defesa do terno; são uma denúncia de que a aparência vale mais que a competência. O autor não acredita que o terno faça o chefe; ele mostra que a sociedade exige o terno para reconhecer autoridade. Por isso, a alternativa B está correta: o autor é indiferente à roupa como critério de competência — ele critica justamente essa confusão.
Análise das alternativas
Atitude do autor
1Crítica ao terno como símbolo social
Sem terno, chefe "nem parecia" chefe
Camisa simples = "falhado"
2Indiferença à roupa como critério de competência
Competência não está na roupa
Roupa manipula o olhar alheio
3Adequação ao clima
Mandela e Nyerere como modelo
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Alternativa A — ❌ Incorreta
Desprezo quanto à popularização de formas informais de se vestir para trabalhos burocratas. O autor não despreza roupas informais; pelo contrário, ele elogia quem se veste de acordo com o clima (como Mandela e Nyerere). A alternativa inverte a posição do autor: ele é a favor da informalidade adequada, não contra. Erro: contradiz o texto.
Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Indiferença às roupas como forma de alguém mostrar competência profissional. Exato. O autor mostra que o terno não confere competência — é apenas um símbolo social. A prova está na ironia: sem terno, o chefe "nem parecia" chefe; com camisa simples, seria "falhado". Ou seja, a roupa não revela competência; apenas manipula a percepção alheia. O autor é indiferente a essa falsa relação — ele a critica. A alternativa é uma paráfrase da crítica implícita.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Admiração por aqueles que alternam suas formas de se vestir, de acordo com as situações. O autor admira quem se veste de acordo com o clima (não "com as situações" em geral). A alternativa generaliza e desloca o critério: o texto fala de adequação climática, não de alternância conforme a situação. Erro: extrapolação e troca de conceito.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Apreço ao uso de terno para o trabalho, como expediente de confirmação de competência. O autor não tem apreço pelo terno; ele o critica. A alternativa contradiz frontalmente a tese do texto. Erro: contradiz o texto.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Apoio a quem opta por usar terno e gravata no trabalho, que é a roupa profissional adequada. O autor não apoia o terno como roupa adequada; ele o considera um hábito prejudicial e desnecessário. A alternativa inverte a posição do autor. Erro: contradiz o texto.
NÃO CAIA NESSA!
A banca tenta fazer você acreditar que o autor defende o terno, quando na verdade ele o critica com ironia. A chave é perceber que as perguntas retóricas não são elogio, mas denúncia do valor social da roupa.
PEGA ESSA DICA!
Em questões de interpretação, desconfie de alternativas que elogiam algo que o texto critica. Grife as perguntas retóricas e os adjetivos — eles revelam a atitude do autor.
Conclusão: a única alternativa que capta a crítica irônica do autor é a B: ele é indiferente à roupa como critério de competência, pois sabe que ela é apenas um símbolo social. As demais ou invertem a posição do autor (A, D, E) ou extrapolam o critério (C).