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Questão de Português — Figuras de Linguagem — VUNESP 2023

PortuguêsFiguras de Linguagem
Código
vu185362
Banca
VUNESP
Órgão
PPS
Ano
2023
Cargo
3º AEM ( )

A sociedade

 

Salvatore Melli alinhou algarismos torcendo a bigodeira. Falou como homem de negócios que enxerga longe. Demonstrou cabalmente as vantagens econômicas de sua proposta.

 

– O doutor...

 

– Eu não sou doutor, Senhor Melli.

 

Parlo assim para facilitar. Non é para ofender. Primo o doutor pense bem. E poi me dê a sua resposta. Ma pense bem!

 

Renovou a proposta e repetiu os argumentos pró. O Conselheiro José Bonifácio de Matos e Arruda possuía uns terrenos em São Caetano. Cousas de herança. Não lhe davam renda alguma. Melli tinha a sua fábrica ao lado. 1.200 teares. 36.000 fusos. Constituíam uma sociedade. O conselheiro entrava com os terrenos. Melli com o capital. Arruavam os trinta alqueires e vendiam logo grande parte para os operários da fábrica. Lucro certo, mais que certo, garantidíssimo.

 

– É. Eu já pensei nisso. Mas sem capital o senhor compreende é impossível...

 

Per Bacco, doutor! Mas io tenho o capital. O capital sono io. O senhor entra com o terreno e mais nada. E o lucro se divide no meio.

 

O capital acendeu um charuto. O conselheiro coçou os joelhos disfarçando a emoção.

 

Dopo o doutor me dá a resposta. Io só digo isto: Pense bem.

 

(António de Alcântara Machado. Novelas paulistanas. 1976. Adaptado)

Leia o texto.     Nesse texto do período modernista, Alcântara Machado aborda a mescla de línguas decorrente da imigração no Brasil, no final do século XIX, e o processo de integração entre os aristocratas paulistanos e os imigrantes, no caso, os italianos. Designando a personagem Salvatore Melli com a expressão “O capital” (“O capital acendeu um charuto...”), o enunciador se vale de um recurso estilístico cujo efeito de sentido é,
  1. Apor meio de uma metonímia, ressaltar como se caracteriza a situação envolvendo as personagens no âmbito social, numa negociação que revela novas relações de poder, nas quais o dinheiro se sobrepõe ao prestígio.
  2. Bpor meio de um eufemismo, relativizar a recepção hostil a Salvatore Melli pelo Conselheiro, visto que se sugere que este perdeu seu poder aquisitivo e passou a fazer negociações com o milionário estrangeiro.
  3. Cpor meio de uma metáfora, expor a ruptura de convenções sociais arraigadas na cultura brasileira, questionando valores e pondo em xeque possibilidades de ascensão social pelo dinheiro.
  4. Dpor meio de uma antítese, caracterizar a distância de comunicação que separa as personagens, evidenciada na atribuição de traços contrastantes da linguagem e da postura reticente de uma delas na negociação.
  5. Epor meio de um paradoxo, escancarar as contradições que marcaram a abordagem de Salvatore Melli ao Conselheiro, contradições essas relacionadas à tentativa de impor ao Conselheiro um negócio suspeito.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoA — por meio de uma metonímia, ressaltar como se caracteriza a situação envolvendo as personagens no âmbito social, numa negociação que revela novas relações de poder, nas quais o dinheiro se sobrepõe ao prestígio.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Metonímia: “O capital” como recurso estilístico

Gabarito: letra A. A expressão “O capital” designa a personagem Salvatore Melli por meio de uma metonímia — substitui-se a pessoa pelo seu bem econômico — e o efeito é ressaltar que, na negociação, o dinheiro se sobrepõe ao prestígio social, como se lê no trecho em que o narrador afirma: “O capital acendeu um charuto”. A alternativa A é a única que nomeia corretamente a figura e explica o efeito de sentido ancorado no texto.

O comando pede que você identifique o recurso estilístico usado na expressão “O capital” e o efeito de sentido que ele produz. Isso é uma questão de interpretação de texto com foco em figuras de linguagem: você precisa reconhecer a figura e, principalmente, entender o que ela significa no contexto da narrativa. Não basta saber a definição teórica; é preciso ver como o texto a utiliza.

No texto, Salvatore Melli é um imigrante italiano dono de uma fábrica, que propõe sociedade ao Conselheiro José Bonifácio, um aristocrata paulistano. O Conselheiro tem terrenos, mas não tem capital; Melli tem o capital. Ao chamar Melli de “O capital”, o narrador reduz a personagem à sua condição econômica, destacando que, naquela negociação, o que importa é o dinheiro que ele representa. Isso fica claro na passagem:

“O capital acendeu um charuto.”

Aqui, “O capital” não é apenas uma forma de se referir a Melli; é uma metonímia (a parte pelo todo, ou o objeto pela pessoa) que evidencia a nova relação de poder: o dinheiro do imigrante se sobrepõe ao prestígio do aristocrata. O texto mostra que o Conselheiro, apesar de sua posição social, depende do capital de Melli para realizar o negócio.

A metonímia é uma figura de linguagem em que se emprega um termo no lugar de outro, havendo entre eles uma relação de contiguidade (proximidade, associação). No caso, “capital” é o bem que Melli possui, e o uso desse termo para designá-lo é uma forma de personificar o dinheiro, dando-lhe protagonismo. O efeito é crítico e irônico: o homem é reduzido ao que possui, e o poder econômico se torna o centro das relações sociais.

As demais alternativas erram ao classificar a figura ou ao atribuir um efeito que o texto não sustenta. Vejamos cada uma:

1Metonímia
Substituição por contiguidade
"O capital" = personagem
Efeito: dinheiro sobrepõe prestígio
2Metáfora
Comparação implícita
Não é o caso
3Eufemismo
Suavização
Não é o caso
4Antítese
Oposição de termos
Não é o caso
5Paradoxo
Contradição aparente
Não é o caso
Figuras de linguagem
LEVELsoulevel.com.br
Figuras de linguagem: Metonímia (Substituição por contiguidade, "O capital" = personagem, Efeito: dinheiro sobrepõe prestígio); Metáfora (Comparação implícita, Não é o caso); Eufemismo (Suavização, Não é o caso); Antítese (Oposição de termos, Não é o caso); Paradoxo (Contradição aparente, Não é o caso)

Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A alternativa A está correta porque identifica a metonímia e explica o efeito de sentido: “ressaltar como se caracteriza a situação envolvendo as personagens no âmbito social, numa negociação que revela novas relações de poder, nas quais o dinheiro se sobrepõe ao prestígio”. Isso está diretamente ancorado no texto, pois Melli é chamado de “O capital” e o Conselheiro, apesar de sua posição aristocrática, precisa do dinheiro do imigrante para o negócio. A passagem “O capital acendeu um charuto” mostra o poder econômico em ação, e a proposta de sociedade evidencia que o dinheiro é o fator decisivo.

Alternativa B — ❌ Incorreta

A alternativa B erra ao classificar a expressão como eufemismo. Eufemismo é uma figura que suaviza uma expressão desagradável (ex.: “perder a vida” em vez de “morrer”). No texto, não há suavização; há uma substituição metonímica. Além disso, o efeito descrito — “relativizar a recepção hostil” — não encontra respaldo: o texto não sugere hostilidade do Conselheiro, mas sim uma negociação em que ele se mostra interessado, ainda que reticente. A alternativa extrapola ao inventar uma hostilidade que não está no texto.

Alternativa C — ❌ Incorreta

A alternativa C erra ao classificar a expressão como metáfora. Metáfora é uma comparação implícita entre seres de universos distintos (ex.: “ela é uma flor”). No caso, “O capital” não é uma comparação, mas uma substituição por contiguidade: o capital é parte do que Melli possui, não algo que ele “é” metaforicamente. Além disso, o efeito descrito — “expor a ruptura de convenções sociais” — é uma extrapolação: o texto não fala em ruptura de convenções, mas em uma negociação que revela o poder do dinheiro. A alternativa troca o conceito de metonímia por metáfora.

Alternativa D — ❌ Incorreta

A alternativa D erra ao classificar a expressão como antítese. Antítese é a aproximação de palavras ou expressões de sentidos opostos (ex.: “tudo ou nada”). No trecho, não há oposição entre termos; há uma substituição metonímica. O efeito descrito — “caracterizar a distância de comunicação” — também não se sustenta: o texto mostra uma negociação em que as personagens se comunicam, ainda que com sotaques diferentes. A alternativa troca o conceito e tangencia o tema, focando na linguagem das personagens em vez do recurso estilístico.

Alternativa E — ❌ Incorreta

A alternativa E erra ao classificar a expressão como paradoxo. Paradoxo é uma contradição aparente (ex.: “o silêncio é o grito mais alto”). No texto, não há contradição; há uma substituição metonímica. O efeito descrito — “escancarar as contradições” e “impor um negócio suspeito” — é uma extrapolação: o texto não sugere que o negócio seja suspeito, apenas que é vantajoso para ambos. A alternativa inventa uma suspeita que não está no texto.

NÃO CAIA NESSA!

A banca oferece outras figuras de linguagem (eufemismo, metáfora, antítese, paradoxo) que parecem plausíveis, mas a única que se sustenta no texto é a metonímia, pois “O capital” substitui a pessoa pelo seu bem econômico. Fique atento à relação de contiguidade entre os termos.

PEGA ESSA DICA!

Para identificar a figura, pergunte: há comparação (metáfora), oposição (antítese), contradição (paradoxo), suavização (eufemismo) ou substituição por associação (metonímia)? No caso, “O capital” está associado a Melli por sua posse, logo é metonímia.

Gabarito: letra A.

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