Questão de Português — Reescrita de Frases. Substituição de Palavras ou Trechos de Texto. — VUNESP 2023
Português›Reescrita de Frases. Substituição de Palavras ou Trechos de Texto.
Código
vu185505
Banca
VUNESP
Órgão
Pref Peruíbe
Ano
2023
Cargo
Ag ( )
Fiscais de barriga
Confesso: nos últimos tempos engordei. Não, não virei uma bola de boliche, mas esses últimos quilos se concentraram na barriga. Todos eles. Tornei-me o alvo ideal para um tipo que virou uma praga na vida urbana. É o fiscal de barriga.
Trata-se de uma criatura empenhada em contabilizar o peso alheio. Você se encontra com o tipo, ele abre um sorriso até as orelhas e tasca:
– Engordou, hein?!
Todo fofo sabe quando e quanto subiu de peso. Quem nunca observou uma pessoa volumosa aferindo os gramas numa balança de farmácia? Primeiro sobe, com expressão de esperança. Ao observar o marcador implacável, o rosto se contorce entre dúvida e desespero. Algumas tiram o casaco, como se um reles objeto pudesse pesar os 5 ou 10 quilos extras apontados. Suspira fundo e olha o marcador novamente.
Agora a expressão é de desconfiança, quando não de fúria:
– Balança de farmácia não presta!!
E sai à procura de outra.
O fiscal de barriga só serve para acrescentar fel1 à vida dos outros. Conheço um, diretor de teatro, com a silhueta elegante como um balde. Deveria ficar quieto, mas mede o peso de cada um com olhos argutos2:
– Quando fomos almoçar juntos, você estava bem mais magro.
– Que é isso? Eu já estava gordinho – defendo-me.
– Não, não... agora você está pior – contesta satisfeito.
Na fofura e na magreza, sempre haverá um fiscal para comentar que, depois de se comportar como um inquisidor, dá a estocada final:
– Só falo porque sou seu amigo.
Que ninguém acredite na expressão de solidariedade.
Torturar o próximo, eis seu maior prazer.
(Walcyr Carrasco. VEJA SP, 06.11.1996. Adaptado)
1 fel: amargura, azedume.
2 argutos: muito atentos.
A frase elaborada a partir de ideias do parágrafo mantém o sentido do texto em:
AO diretor de teatro deveria ter se calado, apesar de também ser uma pessoa obesa.
BO diretor de teatro deveria ter se calado, caso também seja uma pessoa obesa.
CO diretor de teatro deveria ter se calado, embora também seja uma pessoa obesa.
DO diretor de teatro deveria ter se calado, portanto também é uma pessoa obesa.
EO diretor de teatro deveria ter se calado, pois também é uma pessoa obesa.
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GabaritoE — O diretor de teatro deveria ter se calado, pois também é uma pessoa obesa.
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Reescritura de Frases: o valor semântico dos conectivos
Gabarito: letra E. A única alternativa que mantém o sentido do texto é a que usa o conectivo "pois", pois ele estabelece a mesma relação de causa que existe no trecho original: o diretor de teatro deveria ter se caladoporque também é uma pessoa obesa. No texto, lê-se que ele "Deveria ficar quieto, mas mede o peso de cada um com olhos argutos" — e a razão implícita é que ele próprio é gordo, como indica a descrição "com a silhueta elegante como um balde". A alternativa E parafraseia essa ideia com o conectivo causal "pois", que introduz a justificativa da afirmação anterior.
O comando: o que a banca pede
O enunciado pede uma reescritura que "mantenha o sentido do texto". Isso significa que a frase reescrita deve preservar a relação semântica entre as ideias do parágrafo original. Não basta que as palavras sejam parecidas; o conectivo escolhido precisa expressar a mesma relação lógica que o texto estabelece. Aqui, a relação é de causa: o diretor deveria se calar porque é obeso. A banca testa se você reconhece o valor semântico de cada conectivo: causa (pois, porque), concessão (embora, apesar de), condição (caso) e conclusão (portanto).
O texto: onde mora a resposta
No parágrafo, o autor descreve o diretor de teatro como um "fiscal de barriga" — alguém que aponta o peso alheio. A passagem-chave é:
"Conheço um, diretor de teatro, com a silhueta elegante como um balde. Deveria ficar quieto, mas mede o peso de cada um com olhos argutos"
A expressão "silhueta elegante como um balde" é irônica: significa que ele é obeso. E "Deveria ficar quieto" indica que ele não deveria comentar o peso dos outros, justamente porque ele próprio está acima do peso. A relação entre essas duas ideias é de causa: a obesidade dele é o motivo pelo qual ele deveria se calar. A alternativa E captura exatamente isso com o conectivo "pois", que introduz uma justificativa.
A técnica: como identificar o valor dos conectivos
Cada conectivo tem um valor semântico próprio, e a banca adora trocá-los para ver se você percebe a diferença. Veja o quadro:
Conectivo
Valor semântico
Exemplo no contexto
pois
causa/explicação
"deveria ter se calado, pois também é obeso" (a obesidade explica o silêncio)
embora
concessão (oposição)
"deveria ter se calado, embora seja obeso" (a obesidade não impede o comentário)
caso
condição
"deveria ter se calado, caso seja obeso" (o silêncio depende de uma condição)
portanto
conclusão
"deveria ter se calado, portanto é obeso" (a obesidade é consequência do silêncio)
A pegadinha clássica é confundir causa com concessão. Na concessão, há uma ideia de oposição ("embora", "apesar de"), enquanto na causa há uma justificativa ("pois", "porque"). No texto, a obesidade é a razão do silêncio, não uma objeção a ele.
Alternativa A — ❌ Incorreta
"O diretor de teatro deveria ter se calado, apesar de também ser uma pessoa obesa."
O conectivo "apesar de" é concessivo: indica que a obesidade é um fato que contrasta com o silêncio, mas não o impede. No texto, a obesidade é a causa do silêncio, não uma oposição. A alternativa inverte a relação lógica, criando uma concessão onde há causa. Erro: troca de valor semântico (concessão no lugar de causa).
Alternativa B — ❌ Incorreta
"O diretor de teatro deveria ter se calado, caso também seja uma pessoa obesa."
O conectivo "caso" é condicional: introduz uma hipótese. No texto, a obesidade é um fato ("com a silhueta elegante como um balde"), não uma condição. A alternativa transforma uma certeza em possibilidade, alterando o sentido. Erro: generalização indevida (condição no lugar de causa).
Alternativa C — ❌ Incorreta
"O diretor de teatro deveria ter se calado, embora também seja uma pessoa obesa."
O conectivo "embora" é concessivo, assim como "apesar de". Ele estabelece uma oposição entre o silêncio e a obesidade, mas no texto a obesidade é a justificativa para o silêncio. A relação de causa é substituída por concessão, mudando o sentido. Erro: troca de valor semântico (concessão no lugar de causa).
Alternativa D — ❌ Incorreta
"O diretor de teatro deveria ter se calado, portanto também é uma pessoa obesa."
O conectivo "portanto" é conclusivo: indica que a segunda ideia é uma consequência da primeira. No texto, a obesidade é a causa do silêncio, não o resultado. A alternativa inverte a relação lógica, fazendo a obesidade parecer uma conclusão tirada do silêncio. Erro: troca de valor semântico (conclusão no lugar de causa).
Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO
"O diretor de teatro deveria ter se calado, pois também é uma pessoa obesa."
O conectivo "pois" é causal: introduz a justificativa da afirmação anterior. No texto, a obesidade do diretor é o motivo pelo qual ele deveria se calar. A alternativa preserva exatamente essa relação, parafraseando o trecho "Deveria ficar quieto, mas mede o peso de cada um com olhos argutos" com a causa explícita. É a única que mantém o sentido original.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre conectivos de valor semântico próximo: "pois" (causa) versus "embora" (concessão) e "portanto" (conclusão). Identifique a relação lógica no texto antes de escolher o conectivo.
PEGA ESSA DICA!
Ao reescrever, pergunte-se: "qual é a relação entre as ideias?" Se uma ideia explica a outra, é causa; se contrasta, é concessão; se é consequência, é conclusão. O conectivo deve refletir essa relação.