Questão de Português — Reescrita de Frases. Substituição de Palavras ou Trechos de Texto. — VUNESP 2023
Português›Reescrita de Frases. Substituição de Palavras ou Trechos de Texto.
Código
vu185540
Banca
VUNESP
Órgão
TJ SP
Ano
2023
Cargo
Esc ( )
Leia o texto para responder à questão.
José Dias tratava-me com extremos de mãe e atenções de servo. A primeira cousa que consegui, logo que comecei a andar fora, foi dispensar-me o pajem; fez-se pajem, ia comigo à rua. Cuidava dos meus arranjos em casa, dos meus livros, dos meus sapatos, da minha higiene e da minha prosódia. Aos oito anos os meus plurais careciam, alguma vez, da desinência exata, ele a corrigia, meio sério para dar autoridade à lição, meio risonho para obter o perdão da emenda. Ajudava assim o mestre de primeiras letras. Mais tarde, quando o Padre Cabral me ensinava latim, doutrina e história sagrada, ele assistia às lições, fazia reflexões eclesiásticas, e, no fim, perguntava ao padre: “Não é verdade que o nosso jovem amigo caminha depressa?” Chamava- me “um prodígio”; dizia a minha mãe ter conhecido outrora meninos muito inteligentes, mas que eu excedia a todos esses, sem contar que, para a minha idade, possuía já certo número de qualidades morais sólidas. Eu, posto não avaliasse todo o valor deste outro elogio, gostava do elogio; era um elogio.
(Machado de Assis, Dom Casmurro)
Na passagem – José Dias tratava-me com extremos de mãe e atenções de servo. A primeira cousa que consegui logo que comecei a andar fora, foi dispensar-me o pajem; fez-se pajem, ia comigo à rua. –, o relato se dá pela perspectiva do narrador. Caso o narrador fosse José Dias, o enunciado assumiria a seguinte redação, de acordo com a norma-padrão:
ATratava à ele com extremos de mãe e atenções de servo. A primeira cousa que conseguiu, logo que começou a andar fora, foi dispensar o pajem dele; fiz- -me pajem, ia comigo à rua.
BTratava-lhe com extremos de mãe e atenções de servo. A primeira cousa que conseguiu, logo que começou a andar fora, foi dispensar-me o pajem; fiz-lhe pajem, ia consigo à rua.
CTratava-o com extremos de mãe e atenções de servo. A primeira cousa que conseguiu, logo que começou a andar fora, foi que me dispensasse o pajem; fiz-me pajem, ia consigo à rua.
DTratava-o com extremos de mãe e atenções de servo. A primeira cousa que conseguiu, logo que começou a andar fora, foi que lhe dispensasse o pajem; fiz-me pajem, ia com ele à rua.
ETratava ele com extremos de mãe e atenções de servo. A primeira cousa que consegui, logo que ele começou a andar fora, foi dispensar-lhe o pajem; fez- -me pajem, ia comigo à rua.
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GabaritoD — Tratava-o com extremos de mãe e atenções de servo. A primeira cousa que conseguiu, logo que começou a andar fora, foi que lhe dispensasse o pajem; fiz-me pajem, ia com ele à rua.
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Reescrita com mudança de narrador: pronomes e perspectiva
Gabarito: letra D. A reescrita correta troca a perspectiva do narrador (de Bentinho para José Dias) e, por isso, todos os pronomes que indicam quem fala e de quem se fala devem ser ajustados. A alternativa D faz isso com precisão: "Tratava-o" (o = Bentinho, objeto direto), "conseguiu" (José Dias, sujeito), "que lhe dispensasse o pajem" (lhe = a Bentinho, objeto indireto) e "ia com ele à rua" (ele = Bentinho). A passagem que ancora a resposta está no trecho original:
"José Dias tratava-me com extremos de mãe e atenções de servo. A primeira cousa que consegui, logo que comecei a andar fora, foi dispensar-me o pajem; fez-se pajem, ia comigo à rua."
Aqui, o narrador é Bentinho (1ª pessoa: "me", "consegui", "comecei", "comigo"). Ao passar para José Dias, tudo que se referia a Bentinho vira 3ª pessoa, e tudo que se referia a José Dias vira 1ª pessoa. Vamos entender o método.
O comando: reescrita com mudança de perspectiva
A questão pede uma reescrita que mantenha o sentido, mas mude o ponto de vista narrativo. Isso é diferente de uma simples paráfrase: aqui, o que muda é a dêixis de pessoa — os pronomes que apontam para o falante e para o ouvinte/assunto. O comando "Caso o narrador fosse José Dias" é a chave: precisamos converter a 1ª pessoa (Bentinho) em 3ª pessoa (ele), e a 3ª pessoa (José Dias) em 1ª pessoa (eu).
O texto: quem é quem
No trecho, o narrador é Bentinho (o menino). Ele fala de José Dias na 3ª pessoa. Os pronomes "me", "comigo", "consegui", "comecei" referem-se a Bentinho. Ao reescrever na voz de José Dias, tudo que era de Bentinho vira "ele/o/lhe/com ele", e tudo que era de José Dias vira "eu/me/comigo".
A técnica: pronomes pessoais e colocação
Objeto direto (sem preposição): usa-se o/a (ex.: "tratava-o").
Objeto indireto (com preposição): usa-se lhe (ex.: "dispensasse-lhe" ou "lhe dispensasse").
Adjunto adverbial de companhia: "com ele" (não "consigo", que é reflexivo).
Verbo "dispensar": quem dispensa, dispensa algo a alguém — o pajem é o objeto direto, e a pessoa dispensada é o objeto indireto ("dispensar-lhe o pajem" = dispensar a ele o pajem).
A alternativa D aplica tudo isso corretamente. Vejamos cada uma.
Reescrita com mudança de narrador: Regra: converter 1ª pessoa → 3ª pessoa (me → o/lhe, comigo → com ele, consegui → conseguiu); Pronomes (Objeto direto: o/a, Objeto indireto: lhe, Companhia: com ele (não "consigo")); Erros comuns ("à ele" (crase antes de pronome reto), "tratava-lhe" (verbo transitivo direto), "consigo" (reflexivo, não companhia))
Alternativa A — ❌ Incorreta
Erro: troca de pronome e de referente. "Tratava à ele" é errado — não se usa crase antes de pronome pessoal do caso reto; o correto é "tratava-o" (objeto direto). Além disso, "dispensar o pajem dele" troca o referente: no original, o pajem é dispensado de Bentinho ("dispensar-me o pajem"), não "dele" (de José Dias). E "fiz-me pajem" está correto, mas "ia comigo" mantém a perspectiva de Bentinho, não de José Dias. A alternativa mistura as vozes.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Erro: pronome oblíquo inadequado. "Tratava-lhe" está errado para o verbo "tratar" no sentido de "cuidar de alguém" — o verbo é transitivo direto, exige "o/a". "Dispensar-me o pajem" mantém o "me" de Bentinho, mas agora José Dias é o sujeito, então deveria ser "dispensar-lhe" (a Bentinho). "Fiz-lhe pajem" é estranho — o correto seria "fiz-me pajem" (eu me tornei pajem). E "ia consigo" é reflexivo, mas o sentido é "ia com ele" (com Bentinho).
Alternativa C — ❌ Incorreta
Erro: troca de objeto direto por indireto. "Tratava-o" está correto, mas "que me dispensasse o pajem" usa "me" (1ª pessoa) quando deveria ser "lhe" (3ª pessoa, referindo-se a Bentinho). "Fiz-me pajem" está certo, mas "ia consigo" repete o erro da B: deveria ser "ia com ele". A alternativa acerta o início, mas erra o meio e o fim.
Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Perfeita em todos os pontos. "Tratava-o" — objeto direto correto. "conseguiu" — sujeito José Dias (3ª pessoa). "que lhe dispensasse o pajem" — "lhe" = a Bentinho, objeto indireto; "dispensasse" no subjuntivo, regido por "que". "fiz-me pajem" — José Dias fala de si (1ª pessoa). "ia com ele à rua" — "ele" = Bentinho, adjunto de companhia. Tudo coerente com a nova perspectiva.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Erro: pronome reto como objeto e mistura de vozes. "Tratava ele" é errado — pronome do caso reto não pode ser objeto direto; o correto é "tratava-o". "A primeira cousa que consegui" mantém a 1ª pessoa, mas o sujeito deveria ser José Dias (3ª pessoa): "conseguiu". "Dispensar-lhe o pajem" está correto, mas "fez-me pajem" volta para a 3ª pessoa, e "ia comigo" mantém a perspectiva de Bentinho. A alternativa é um amontoado de vozes.
NÃO CAIA NESSA!
A banca troca os pronomes oblíquos (o/lhe/me) e os possessivos para confundir o referente. A dica é sublinhar no texto original quem é "eu" e quem é "ele" antes de reescrever.
PEGA ESSA DICA!
Ao reescrever com mudança de narrador, faça uma tabela de conversão: 1ª pessoa → 3ª pessoa (me → o/lhe, comigo → com ele, consegui → conseguiu) e 3ª pessoa → 1ª pessoa (José Dias → eu). Teste cada pronome da alternativa contra essa tabela.
Conclusão: a reescrita correta exige coerência de pessoa do discurso — todos os pronomes devem apontar para o mesmo referente. A letra D é a única que mantém a perspectiva de José Dias do início ao fim, sem misturar vozes. Gabarito: letra D.