Pular para o conteúdo principal

Questão de Português — Reescrita de Frases. Substituição de Palavras ou Trechos de Texto. — VUNESP 2023

PortuguêsReescrita de Frases. Substituição de Palavras ou Trechos de Texto.
Código
vu185877
Banca
VUNESP
Órgão
PC SP
Ano
2023
Cargo
Inv Pol ( )
A fuga da autoridade adulta

       Eu estava falando em uma conferência em Nova Iorque durante o verão de 2016 quando descobri o termo “adultar”. Tomava um drinque em um bar quando vi um jovem na casa dos 30 usando uma camiseta que dizia “Chega de adultar por hoje”. Depois, entrevistei uma mulher cuja camiseta transmitia uma mensagem simples: “Adultar é cruel!”.
       Caso você não esteja familiarizado com a palavra, adaptada do inglês “adulting”, adultar é definido como “a prática de se comportar do modo característico de um adulto responsável, especialmente na realização de tarefas mundanas, mas necessárias”. A palavra é usada para transmitir uma conotação negativa em relação às responsabilidades associadas à vida adulta. E sugere que, dada a oportunidade, qualquer mulher ou homem sensato na casa dos 30 preferiria não adultar, e evitar o papel de um adulto.
          A tendência de retratar a vida adulta como uma conquista excepcionalmente difícil que precisa ser ensinada coexiste com uma sensação palpável de desencanto com o status de adulto. Em tudo além do nome a vida adulta se tornou desestabilizada, a ponto de ter se tornado alvo de escárnio e, para muitos, uma identidade indesejada. Não surpreende que adultar seja uma atividade que muitos indivíduos biologicamente maduros só estejam preparados para desempenhar em tempo parcial.
         O corolário da idealização do adultamento em regime parcial é o desmantelamento da autoridade adulta. O impacto corrosivo da perda da autoridade adulta no desenvolvimento dos jovens foi uma grande preocupação para a filósofa política Hannah Arendt. Escrevendo nos anos 1950, Arendt chamou atenção para o “colapso gradual da única forma de autoridade” que existiu em “todas as sociedades conhecidas historicamente: a autoridade dos pais sobre filhos, dos professores sobre os alunos e, em geral, dos mais velhos sobre os mais novos”. Setenta anos depois, a desautorização da vida adulta se tornou amplamente celebrada na cultura popular ocidental. Em vez de se preocupar com as consequências da erosão da autoridade adulta, esse desenvolvimento é visto como positivo por partes da mídia, que acreditam que pessoas crescidas têm muito pouco a ensinar às crianças.

(Frank Furedi, revistaoeste.com. 24.07.2020. Adaptado)
Leia o texto, para responder à questão.     Assinale a alternativa em que a frase está em conformidade com a norma-padrão de concordância e colocação dos pronomes átonos.
  1. APercebe-se que, em 2020, já havia setenta anos desde que Hannah Arendt mostrou-se preocupada com as formas de autoridade que entraram em colapso.
  2. BFoi constatado inúmeras formas de desautorização, até mesmo das que se via nos anos 1950 e às quais Hannah Arendt se referiu.
  3. CPoderia-se dizer que a vida adulta, hoje, representa um problema para os que não a enfrenta com maturidade.
  4. DExiste sempre e em todos os tempos desafios à autoridade, em suas diversas manifestações, haja vista o que passa-se entre pais e filhos.
  5. EJá vão fazer décadas que a ideia de as pessoas adultarem estão se firmando nas sociedades ocidentais.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoA — Percebe-se que, em 2020, já havia setenta anos desde que Hannah Arendt mostrou-se preocupada com as formas de autoridade que entraram em colapso.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Concordância verbal e colocação pronominal: a norma culta em jogo

Gabarito: letra A. A alternativa correta é a única que respeita, ao mesmo tempo, a concordância verbal (o verbo haver com sentido de tempo decorrido fica impessoal, no singular) e a colocação pronominal (ênclise após verbo no início da oração, sem palavra atrativa). Como se lê em "já havia setenta anos", o verbo haver indica tempo transcorrido e não varia; e em "mostrou-se" o pronome se vem depois do verbo, posição correta quando não há advérbio, pronome relativo ou conjunção subordinativa antes.

O comando: dois filtros simultâneos

A questão pede a frase em conformidade com a norma-padrão de concordância e colocação dos pronomes átonos. São dois critérios independentes que precisam ser verificados em cada alternativa:

  1. Concordância verbal: o verbo deve concordar com o sujeito (ou permanecer impessoal quando for o caso, como no verbo haver com sentido de existir ou de tempo decorrido).

  2. Colocação pronominal: o pronome oblíquo átono (me, te, se, o, a, lhe, nos, vos) deve estar na posição exigida pela norma — próclise (antes do verbo) quando houver palavra atrativa (advérbio, pronome relativo, conjunção subordinativa, palavra negativa); ênclise (depois do verbo) quando não houver atrativo e o verbo iniciar a oração; mesóclise (no meio do verbo) apenas com futuro do presente ou futuro do pretérito, sem palavra atrativa.

A banca adora misturar os dois critérios: uma frase pode ter concordância correta e colocação errada, ou vice-versa. Por isso, o método é testar cada alternativa nos dois eixos, sem pular etapas.

O texto: a base para a reescrita

O texto-base trata da fuga da autoridade adulta e menciona Hannah Arendt, que, escrevendo nos anos 1950, chamou atenção para o colapso da autoridade dos pais sobre filhos, dos professores sobre alunos e dos mais velhos sobre os mais novos. A alternativa A reescreve essa ideia: "em 2020, já havia setenta anos desde que Hannah Arendt mostrou-se preocupada". O conteúdo é fiel ao texto — Arendt escreveu nos anos 1950, e o autor escreve em 2020, logo setenta anos depois. Mas o que decide a questão não é o conteúdo, e sim a forma: a concordância e a colocação pronominal.

A técnica que decide: verbo haver impessoal e ênclise

Na alternativa A, dois pontos merecem destaque:

  • "já havia setenta anos": o verbo haver com sentido de tempo decorrido é impessoal — não tem sujeito, fica sempre na 3ª pessoa do singular. É o mesmo caso de "Há dois anos não o vejo". O advérbio "já" não muda nada: o verbo continua invariável.

  • "mostrou-se": o verbo mostrar está no início da oração (depois da conjunção "que", que não atrai próclise — apenas conjunções subordinativas atraem). Sem palavra atrativa, a norma exige ênclise: mostrou-se. Se houvesse um advérbio antes (ex.: "sempre se mostrou"), a próclise seria obrigatória.

PEGA ESSA DICA!

Para testar a colocação, pergunte: há palavra atrativa antes do verbo? Se sim, próclise; se não, e o verbo inicia a oração, ênclise. Palavras atrativas clássicas: advérbios (não, nunca, sempre, já), pronomes relativos (que, quem, onde), conjunções subordinativas (quando, se, porque, embora) e pronomes indefinidos (tudo, nada, alguém).

Análise das alternativas

Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A frase "Percebe-se que, em 2020, já havia setenta anos desde que Hannah Arendt mostrou-se preocupada com as formas de autoridade que entraram em colapso" está inteiramente correta.

  • Concordância: "Percebe-se" — o se é partícula apassivadora, o sujeito é a oração subordinada "que... colapso", então o verbo fica no singular. "já havia setenta anos" — haver impessoal, singular. "entraram" — concorda com "formas de autoridade" (plural).

  • Colocação: "Percebe-se" — ênclise correta, pois o verbo inicia a oração. "mostrou-se" — ênclise correta, pois não há palavra atrativa antes (a conjunção "que" não atrai).

A alternativa respeita a norma nos dois eixos. É a única que não apresenta nenhum desvio.

Alternativa B — ❌ Incorreta

"Foi constatado inúmeras formas de desautorização, até mesmo das que se via nos anos 1950 e às quais Hannah Arendt se referiu."

  • Erro de concordância: "Foi constatado" deveria concordar com o sujeito "inúmeras formas" — o correto seria "foram constatadas inúmeras formas". O particípio concorda com o sujeito na voz passiva analítica.

  • Erro de concordância: "das que se via" — o verbo ver deveria concordar com o pronome relativo "que", que retoma "formas" (plural): o correto seria "se viam".

A alternativa contradiz a norma ao usar o singular onde o plural é obrigatório. O erro é de concordância verbal, não de colocação ("se via" e "se referiu" estão em próclise correta, pois há pronome relativo antes).

Alternativa C — ❌ Incorreta

"Poderia-se dizer que a vida adulta, hoje, representa um problema para os que não a enfrenta com maturidade."

  • Erro de colocação: "Poderia-se" — com verbo no futuro do pretérito, sem palavra atrativa, a norma exige mesóclise: "Poderia-se" está errado; o correto é "Poderia-se"? Não: o correto é "Poderia-se"? Vamos com calma. A regra: futuro do pretérito sem atrativo → mesóclise: "Poderia-se"? Não, mesóclise é "poder-se-ia". Exato: "poder-se-ia dizer". A forma "Poderia-se" é um erro clássico de quem aplica ênclise a um futuro do pretérito. O correto é "poder-se-ia".

  • Erro de concordância: "os que não a enfrenta" — o verbo enfrentar deveria concordar com "os" (plural): o correto é "enfrentam".

A alternativa erra nos dois eixos: mesóclise obrigatória e concordância no plural.

Alternativa D — ❌ Incorreta

"Existe sempre e em todos os tempos desafios à autoridade, em suas diversas manifestações, haja vista o que passa-se entre pais e filhos."

  • Erro de concordância: "Existe... desafios" — o verbo existir tem sujeito "desafios" (plural), então o correto é "Existem sempre... desafios". O verbo existir não é impessoal; ele concorda com o sujeito.

  • Erro de colocação: "passa-se" — há palavra atrativa antes: o pronome relativo "o que". Com pronome relativo, a próclise é obrigatória: "o que se passa". A ênclise aqui é indevida.

A alternativa erra na concordância (existir com sujeito plural) e na colocação (próclise obrigatória após pronome relativo).

Alternativa E — ❌ Incorreta

"Já vão fazer décadas que a ideia de as pessoas adultarem estão se firmando nas sociedades ocidentais."

  • Erro de concordância: "Já vão fazer décadas" — a locução "ir + fazer" com sentido de tempo decorrido: o verbo fazer é impessoal, então o auxiliar ir também fica no singular: "Já vai fazer décadas". É o mesmo caso de "Vai fazer dez anos".

  • Erro de concordância: "a ideia... estão se firmando" — o sujeito é "a ideia" (singular), então o verbo deve ficar no singular: "está se firmando". O núcleo do sujeito é "ideia", não "pessoas".

  • Colocação: "estão se firmando" — com locução verbal, o pronome pode ficar entre o auxiliar e o principal (próclise ao verbo principal), o que é aceitável. Mas como o verbo já está errado no plural, a frase inteira falha.

A alternativa erra na concordância do verbo fazer impessoal e na concordância com o núcleo do sujeito.

Conclusão

A única frase que respeita a norma-padrão em todos os pontos é a letra A. As demais cometem erros de concordância (B, D, E), de colocação (C, D) ou ambos. Para acertar questões assim, aplique os dois filtros em cada alternativa: primeiro a concordância (quem é o sujeito? o verbo é impessoal?), depois a colocação (há palavra atrativa? o tempo verbal exige mesóclise?).

NÃO CAIA NESSA!

A banca coloca erros de concordância e de colocação em frases que parecem naturais. Em B, o erro está no particípio "constatado" e no verbo "via"; em C, na mesóclise; em D, no "existe" e no "passa-se"; em E, no "vão fazer" e no "estão". A única que passa ilesa é a A.

Gabarito: letra A

Link permanente: /questoes/vu185877