Na feira, a senhora protestou a altos brados contra o preço do chuchu:
— Isto é um assalto!
Houve um rebuliço. Os que estavam perto fugiram. Alguém,
correndo, foi chamar o guarda. Um minuto depois, a rua inteira,
atravancada, mas provida de admirável serviço de comunicação espontânea, sabia que se estava perpetrando um assalto
ao banco. Mas que banco? Havia banco naquela rua? Evidente
que sim, pois do contrário como poderia ser assaltado?
— Um assalto! Um assalto! — a senhora continuava a
exclamar, e quem não tinha escutado escutou, multiplicando a
notícia. Aquela voz subindo do mar de barracas e legumes era
como a própria sirena policial, documentando, por seu uivo, a
ocorrência grave, que fatalmente se estaria consumando ali,
na claridade do dia, sem que ninguém pudesse evitá-la.
Moleques de carrinho corriam em todas as direções, atropelando-se uns aos outros. Queriam salvar as mercadorias
que transportavam. Não era o instinto de propriedade que
os impelia. Sentiam-se responsáveis pelo transporte. E no
atropelo da fuga, pacotes rasgavam-se, melancias rolavam,
tomates esborrachavam-se no asfalto. Se a fruta cai no chão,
já não é de ninguém; é de qualquer um, inclusive do transportador. Em ocasiões de assalto, quem é que vai reclamar uma
penca de bananas meio amassadas?
(Carlos Drummond de Andrade, 70 historinhas. Adaptado)
Leia o texto para responder à questão.
A senhora foi feira e, ao ver o preço do chuchu, começou bradar que aquilo era um assalto e não se preocupou repercussão de sua atitude. Os moleques, zelosos suas mercadorias, queriam .
De acordo com a norma-padrão, as lacunas devem ser preenchidas, respectivamente, com:
Aà ... a ... da ... perante ... salvar-lhes
Bna ... à ... na ... de ... salvar elas
Ca ... a ... sobre a ... à ... salvá-las
Da ... à ... pela ... com ... salvar-lhes
Eà ... a ... com a ... por ... salvá-las
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GabaritoE — à ... a ... com a ... por ... salvá-las
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Crase e regência no texto de Drummond
Gabarito: letra E. A alternativa E é a única que preenche as cinco lacunas respeitando, ao mesmo tempo, a crase obrigatória (à feira), a regência verbal (começou a bradar; não se preocupou com a repercussão; zelosos por suas mercadorias) e a colocação pronominal com verbo no infinitivo (queriam salvá-las). A passagem do texto que ancora a primeira lacuna é:
"Na feira, a senhora protestou a altos brados contra o preço do chuchu"
O verbo "ir" rege a preposição "a" e o substantivo "feira" admite artigo feminino "a" — logo, à feira. As demais lacunas são resolvidas pela regência de cada verbo, como se verá.
O comando
A questão pede o preenchimento de lacunas de acordo com a norma-padrão. Isso significa que você deve testar cada alternativa quanto à correção gramatical — não quanto ao sentido literário. O foco está em três fenômenos: crase (fusão de preposição + artigo), regência verbal (a preposição exigida por cada verbo) e uso de pronomes oblíquos (átonos ou tônicos).
O texto e o movimento argumentativo
O texto narra uma confusão na feira: a senhora reclama do preço do chuchu, grita "isto é um assalto", e a notícia se espalha como se fosse um assalto a banco. Os moleques, que transportam mercadorias, fogem e atropelam-se. A frase do enunciado resume essa cena: "A senhora foi à feira e, ao ver o preço do chuchu, começou a bradar que aquilo era um assalto e não se preocupou com a repercussão de sua atitude. Os moleques, zelosos por suas mercadorias, queriam salvá-las." A resposta está na gramática aplicada a esse contexto.
A técnica que decide
Vamos lacuna por lacuna, com a regra que resolve cada uma:
"foi ___ feira" — O verbo ir exige a preposição a (ir a algum lugar). O substantivo feira é feminino e, no contexto, está determinado (a feira específica da narrativa), portanto admite o artigo a. Preposição + artigo = à. Macete: troque por um masculino — "foi ao mercado" (a + o = ao). Se der "ao", no feminino será "à".
"começou ___ bradar" — O verbo começar rege a preposição a quando seguido de infinitivo: começar a fazer algo. Não há artigo antes de verbo, logo sem crase: a bradar. Compare: "começou a chorar", "começou a trabalhar".
"não se preocupou ___ repercussão" — O verbo preocupar-se exige a preposição com: preocupar-se com algo. Portanto: com a repercussão. Não há crase porque a preposição é "com", não "a".
"zelosos ___ suas mercadorias" — O adjetivo zeloso rege a preposição por: zeloso por algo. Logo: por suas mercadorias. (Também se usa "zeloso de", mas a alternativa E traz "por", que é a regência mais comum e aceita.)
"queriam ___" — O verbo salvar é transitivo direto: salvar algo/alguém. O pronome que substitui "as mercadorias" (objeto direto feminino plural) é as — e, em posição de ênclise após infinitivo, fica salvá-las (com hífen e adaptação: salvar + as = salvá-las). Não se usa "lhes" (objeto indireto) nem "elas" (pronome reto).
Alternativa A — ❌ Incorreta
à ... a ... da ... perante ... salvar-lhes
Erro na 3ª lacuna: "não se preocupou da repercussão" — o verbo preocupar-se rege com, não de. Além disso, "salvar-lhes" está errado: salvar é VTD, exige objeto direto (as), não indireto (lhes). A alternativa troca a preposição e usa pronome inadequado.
Alternativa B — ❌ Incorreta
na ... à ... na ... de ... salvar elas
Erro na 1ª lacuna: "foi na feira" — o verbo ir rege a, não em. Na 2ª lacuna, "começou à bradar" — crase antes de verbo é proibida. Na 3ª, "preocupou na" — rege com. Na 4ª, "zelosos de" — rege por. E "salvar elas" é coloquial; o correto é salvá-las. Múltiplos erros de regência e crase.
Alternativa C — ❌ Incorreta
a ... a ... sobre a ... à ... salvá-las
Erro na 1ª lacuna: "foi a feira" — falta a crase, pois há preposição + artigo (à). Na 3ª lacuna, "preocupou sobre a" — o verbo rege com, não "sobre". Na 4ª, "zelosos à" — rege por, não "a". A alternativa acerta a 2ª e a 5ª, mas erra nas demais.
Alternativa D — ❌ Incorreta
a ... à ... pela ... com ... salvar-lhes
Erro na 1ª lacuna: "foi a feira" — falta crase (à). Na 2ª, "começou à bradar" — crase antes de verbo é proibida (a). Na 3ª, "preocupou pela" — rege com. Na 4ª, "zelosos com" — rege por. E "salvar-lhes" novamente errado: objeto direto pede as. A alternativa erra em quase tudo.
Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO
à ... a ... com a ... por ... salvá-las
Todas as lacunas corretas: à feira (preposição + artigo), a bradar (preposição sem artigo), com a repercussão (regência de preocupar-se), por suas mercadorias (regência de zeloso), salvá-las (objeto direto com pronome átono). É a única alternativa inteiramente de acordo com a norma-padrão.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre objeto direto e indireto: "salvar-lhes" (A e D) parece elegante, mas salvar não admite "lhes"; e "salvar elas" (B) é coloquial. Além disso, mistura regências: "preocupar-se de/sobre/pela" são todas incorretas — o correto é com.
PEGA ESSA DICA!
Para crase, troque a palavra feminina por uma masculina: se aparecer "ao", no feminino será "à". Para regência, pergunte ao verbo: "preocupar-se com quê?", "zeloso por quê?". E lembre: pronome oblíquo átono (o/a/os/as) substitui objeto direto; lhes substitui objeto indireto.
Conclusão: a questão testa três habilidades em uma: crase, regência e pronome. A letra E é a única que acerta todas. Na prova, resolva lacuna por lacuna, eliminando as alternativas que erram a primeira (crase) e a última (pronome) — isso já reduz bastante o campo.