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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — VUNESP 2024

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
vu204987
Banca
VUNESP
Órgão
PM SP
Ano
2024
Cargo
Sold ( )
O chá, os fantasmas, os ventos encanados

        Nasci no tempo dos ventos encanados, quando, para evitar compromissos, a gente dizia estar com enxaqueca, palavra horrível mas desculpa distinta. Ter enxaqueca não era para todos, mas só para essas senhoras que tomavam chá com o dedo mindinho espichado. Quando eu via aquilo, ficava a pensar sozinho comigo (menino, naquele tempo, não dava opinião) por que é que elas não usavam, para cúmulo da elegância, um laçarote azul no dedo...

        Também se falava misteriosamente em “moléstias de senhoras” nos anúncios farmacêuticos que eu lia. Era decerto uma coisa privativa das senhoras, como as enxaquecas, pois as criadas, essas, não tinham tempo para isso. Mas, em compensação, me assustavam deliciosamente com histórias de assombração. Nunca me apareceu nenhuma.

        Pelo visto, era isso: nunca consegui comunicar-me com este nem com o outro mundo. A não ser através d’O tico-tico e da poesia de Camões, do qual até hoje me assombra este verso único: “Que o menor mal de tudo seja a morte!”

        Pois a verdadeira poesia sempre foi um meio de comunicação com este e com o outro mundo.

(Mario Quintana. Da preguiça como método de trabalho, 2013. Adaptado)
Leia o texto para responder à questão.   Para o narrador, a verdadeira poesia permite-lhe
  1. Acompreender sua pequeneza ante Camões.
  2. Binteragir com este e com o outro mundo.
  3. Centender as moléstias de senhoras.
  4. Devitar as histórias de suas criadas.
  5. Eser tão elegante como as senhoras.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoB — interagir com este e com o outro mundo.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

A verdadeira poesia como meio de comunicação

Gabarito: letra B. Para o narrador, a verdadeira poesia permite-lhe interagir com este e com o outro mundo — exatamente o que ele afirma na última frase do texto: "Pois a verdadeira poesia sempre foi um meio de comunicação com este e com o outro mundo." A alternativa B é uma paráfrase fiel dessa passagem, trocando "meio de comunicação" por "interagir". As demais alternativas ou tangenciam o texto ou extrapolam o que está escrito.

O comando: compreensão, não inferência

O enunciado pede o que a verdadeira poesia permite ao narrador — verbo que aponta para uma informação explícita no texto. Isso é compreensão/recorrência: a resposta está escrita, com outras palavras, em uma passagem localizável. Não se trata de deduzir, de ler nas entrelinhas; basta encontrar a paráfrase da ideia central. Quando a banca usa "permite-lhe", ela quer o efeito que o autor atribui à poesia, e esse efeito está declarado na conclusão do texto.

O texto: a tese mora na conclusão

O texto de Mario Quintana é uma crônica memorialista: o narrador relembra a infância, os "ventos encanados", as senhoras com enxaqueca, as histórias de assombração das criadas. No terceiro parágrafo, ele diz que nunca conseguiu se comunicar "com este nem com o outro mundo" — nem com as pessoas (as senhoras, as criadas) nem com os fantasmas. Mas a virada vem no último parágrafo:

"Pois a verdadeira poesia sempre foi um meio de comunicação com este e com o outro mundo."

Essa é a tese do texto: a poesia (a de Camões, a verdadeira) é o único meio de comunicação que o narrador encontrou — com o mundo real e com o mundo espiritual. A alternativa B captura exatamente isso: "interagir" = "comunicar-se"; "este e o outro mundo" = "este e o outro mundo".

A técnica: paráfrase com sinônimos

A questão é resolvida por substituição lexical: trocar "meio de comunicação" por "interagir" e manter o restante idêntico. A banca não pede inferência, não pede opinião do candidato — pede o que está escrito. Por isso, a alternativa correta é a que reescreve a passagem sem acrescentar nada. As erradas, como veremos, ou falam de assuntos que o texto não aborda (tangência) ou atribuem ao texto ideias que ele não sustenta (extrapolação).

Alternativa A — ❌ Incorreta

"compreender sua pequeneza ante Camões"Extrapolação. O texto menciona Camões e cita um verso seu, mas não diz que o narrador compreende sua pequeneza diante do poeta. A admiração pelo verso "Que o menor mal de tudo seja a morte!" não implica, em lugar nenhum, um sentimento de pequenez. A alternativa acrescenta uma ideia que não está no texto.

Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO

"interagir com este e com o outro mundo"Paráfrase fiel. O texto afirma: "a verdadeira poesia sempre foi um meio de comunicação com este e com o outro mundo". "Interagir" é sinônimo de "comunicar-se"; "este e o outro mundo" é repetido literalmente. A alternativa reescreve a passagem sem alterar o sentido. É a única que se ancora diretamente na tese do texto.

Alternativa C — ❌ Incorreta

"entender as moléstias de senhoras"Tangência. O texto menciona "moléstias de senhoras" nos anúncios farmacêuticos, mas não diz que a poesia ajuda a entendê-las. A alternativa mistura dois assuntos que o texto trata separadamente: as moléstias (no 2º parágrafo) e a poesia (no 4º). Não há qualquer relação entre eles no texto.

Alternativa D — ❌ Incorreta

"evitar as histórias de suas criadas"Contradiz o texto. O narrador diz que as criadas "me assustavam deliciosamente com histórias de assombração" — ou seja, ele gostava de ouvi-las, não queria evitá-las. Além disso, a poesia não tem relação com as criadas. A alternativa inverte o sentido do texto.

Alternativa E — ❌ Incorreta

"ser tão elegante como as senhoras"Extrapolação. O texto descreve as senhoras que tomavam chá "com o dedo mindinho espichado" e o narrador, menino, questionava por que não usavam um laçarote. Mas não há nenhuma afirmação de que a poesia o tornaria elegante. A alternativa inventa uma relação que o texto não estabelece.

NÃO CAIA NESSA!

A banca oferece alternativas que tangenciam o texto (C, D) ou extrapolam (A, E), mas a correta é uma paráfrase direta da última frase. A armadilha é o candidato se perder em detalhes da crônica e não perceber que a resposta está na conclusão.

PEGA ESSA DICA!

Em questões de compreensão, grife a tese (geralmente na introdução ou conclusão) e procure a alternativa que a reescreve com sinônimos. Desconfie de alternativas que falam de assuntos que o texto menciona, mas não relacionam à pergunta.

Gabarito: letra B — a única que o texto sustenta integralmente, sem acrescentar nem suprimir nada.

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