Para muitos, a época do Natal é o momento da suprema hipocrisia. Durante 24 horas, ou talvez 48, os sorrisos são forçados, os sentimentos são de plástico e a gentileza, se merece o nome, não consegue esconder completamente a profundidade do ressentimento contra amigos ou familiares.
Mas será que os mortais ainda se lembram do sorriso franco, dos sentimentos limpos e de uma gentileza genuína? Será que sentem saudades?
Para esses nostálgicos, aconselho o filme “A Menina Silenciosa”, de Colm Bairéad, inspirado no livro “Foster”, de Claire Keegan. É o meu filme do ano, para usar a linguagem gasta dos balanços jornalísticos.
A história é simples, ou parece simples: Cáit (espantosa Catherine Clinch) é uma criança de nove anos que sobrevive (é o termo) numa família que a ignora e despreza. O seu método de sobrevivência é o silêncio, a quietude e a observação. Para usar uma palavra clássica, Cáit é uma “enjeitada”. A mãe é uma figura exausta e ausente. O pai alcoólatra tem a delicadeza própria das bestas. E as irmãs mais velhas são espectros sem rosto e sem voz.
Mas então os pais, que esperam uma nova criança e não têm tempo para Cáit, decidem enviá-la para a casa de Eibhlín e Seán, familiares distantes, só para passar o verão, e a garota é assim levada para um ambiente estranho. Decisão milagrosa, pois eles acolhem-na e, logo nos primeiros momentos, entendemos que algo mudou. Uma diferença nos gestos, digamos assim. Gestos de quem cuida.
Naquele verão, Cáit conhece essa coisa extraordinária: uma família, partilhando com ela as suas alegrias e tristezas, as suas rotinas, as suas conversas. Lentamente, a “menina silenciosa” vai saindo do seu casulo. “A Menina Silenciosa” é um filme revolucionário por tratar do mais revolucionário dos temas: a bondade humana.
Não é uma daquelas virtudes mentirosas para ser exibida nas redes sociais e que apenas serve para alimentar a vaidade do suposto virtuoso. Também não é uma mera proclamação ideológica, abstrata, ideal, própria de quem ama a humanidade, mas despreza o ser humano comum.
Como lembrava Emmanuel Levinas*, a bondade é uma virtude interpessoal. Ela só acontece face a face. A bondade nada exige, nada espera, nada impõe. É pura hospitalidade. É abertura e reconhecimento. E, como no filme, talvez seja um dia reciprocidade.
(João Pereira Coutinho. ‘A Menina Silenciosa’ é um filme revolucionário ao tratar da bondade humana. www.folha.uol.com.br/colunas, 22.12.2023. Adaptado)
*Emmanuel Levinas: filósofo francês (1906-1995)
Os parênteses empregados no parágrafo sinalizam observações do autor que são
Aadicionais e relativas, respectivamente, à ótima atuação da atriz e ao fato de a personagem ter de resistir à exclusão a que é submetida.
Bjocosas e relativas, respectivamente, ao evidente talento da atriz e ao fato de a personagem ter sido adotada por uma nova família.
Ccontundentes e relativas, respectivamente, ao grande sucesso do filme e ao fato de a personagem ter sido resiliente perante o desamor da família.
Dimprescindíveis e relativas, respectivamente, ao sucesso imediato da atriz e ao fato de a personagem reagir acintosamente ao descaso da própria família.
Eirônicas e relativas, respectivamente, à juventude da atriz e ao fato de a personagem sentir-se feliz, ainda que faça parte de uma família desestruturada.
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GabaritoA — adicionais e relativas, respectivamente, à ótima atuação da atriz e ao fato de a personagem ter de resistir à exclusão a que é submetida.
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Parênteses: observações adicionais do autor
Gabarito: letra A. Os parênteses no parágrafo sinalizam observações adicionais do autor, relativas, respectivamente, à ótima atuação da atriz e ao fato de a personagem ter de resistir à exclusão a que é submetida. A prova está no trecho: "Cáit (espantosa Catherine Clinch) é uma criança de nove anos que sobrevive (é o termo) numa família que a ignora e despreza." — o primeiro parêntese acrescenta um elogio à atriz; o segundo, uma ressalva sobre o sentido exato de "sobrevive", ligado à exclusão familiar.
O comando
A questão pede que se identifique a função dos parênteses no parágrafo e o conteúdo das observações que eles isolam. Não é uma questão de gramática pura (regra decorada), mas de interpretação do efeito de sentido da pontuação no texto: o que o autor quis acrescentar com cada parêntese? É preciso ler o trecho e verificar a que termo cada observação se refere.
O texto
O parágrafo em questão apresenta Cáit, a protagonista: "Cáit (espantosa Catherine Clinch) é uma criança de nove anos que sobrevive (é o termo) numa família que a ignora e despreza." O autor usa dois parênteses:
(espantosa Catherine Clinch) — uma observação adjetiva sobre a atriz, elogiando sua atuação ("espantosa" = impressionante, ótima).
(é o termo) — uma observação metalinguística: o autor justifica a escolha da palavra "sobrevive", indicando que ela é exata para descrever a situação de Cáit, que precisa resistir à exclusão familiar.
A técnica
Os parênteses, como as vírgulas e os travessões, servem para intercalar termos acessórios — informações que esclarecem, comentam ou acrescentam algo ao texto sem alterar a estrutura sintática principal. A função é sempre aditiva: o que está entre parênteses poderia ser retirado sem prejuízo gramatical, mas acrescenta um dado relevante. Aqui, o autor usa os parênteses para:
elogiar a atriz (observação subjetiva, de caráter avaliativo);
explicar o sentido exato de uma palavra (observação metalinguística, que reforça a precisão do vocábulo "sobrevive").
A pegadinha da banca está em trocar o referente do segundo parêntese: em vez de "sobreviver à exclusão", as alternativas erradas oferecem "adotada por nova família", "resiliente", "reagir acintosamente" etc. — todas fogem do que o texto realmente diz.
Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A alternativa A é a única que descreve com precisão o conteúdo dos dois parênteses:
(espantosa Catherine Clinch) — "ótima atuação da atriz": o adjetivo "espantosa" é um elogio à performance de Catherine Clinch.
(é o termo) — "o fato de a personagem ter de resistir à exclusão a que é submetida": o autor usa "sobrevive" para indicar que Cáit precisa resistir à exclusão familiar ("numa família que a ignora e despreza").
A palavra "adicionais" também está correta: os parênteses acrescentam informações que não são essenciais à estrutura sintática, mas enriquecem o sentido.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Erro: troca de referente. O segundo parêntese não se refere a "adotada por uma nova família" — o texto diz que Cáit é enviada para a casa de Eibhlín e Seán "só para passar o verão", não que foi adotada. Além disso, "jocosas" (brincadeira, zombaria) não se aplica ao tom do texto, que é sério e comovente.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Erro: troca de referente e tom. "Contundentes" (incisivas, fortes) não descreve o tom das observações, que são elogiosas e explicativas. O segundo parêntese não fala de "resiliência" — o texto diz que Cáit "sobrevive" à exclusão, mas não a qualifica como resiliente. Além disso, "grande sucesso do filme" não está no trecho: o autor diz que é "o meu filme do ano", mas isso é opinião pessoal, não um dado objetivo de sucesso.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Erro: troca de referente e tom. "Imprescindíveis" (indispensáveis) é exagero: os parênteses são adicionais, não essenciais. "Sucesso imediato da atriz" não está no texto — o autor elogia a atuação, não o sucesso. "Reagir acintosamente" (de forma proposital e provocadora) contradiz o texto: Cáit não reage, ela se cala e observa ("O seu método de sobrevivência é o silêncio, a quietude e a observação").
Alternativa E — ❌ Incorreta
Erro: troca de referente e tom. "Irônicas" não se aplica: o autor não usa ironia nos parênteses, mas elogio e explicação. "Juventude da atriz" não está no texto — o autor elogia a atuação, não a idade. "Sentir-se feliz" contradiz o texto: Cáit é uma criança excluída e ignorada, e o autor não diz que ela se sente feliz na família original.
Conclusão
A questão exige leitura atenta do referente de cada parêntese. A alternativa A é a única que identifica corretamente o elogio à atriz e a explicação sobre o sentido de "sobrevive" como resistência à exclusão. As demais trocam o referente ou atribuem ao texto informações que ele não contém.
NÃO CAIA NESSA!
Ao resolver questões sobre pontuação, pergunte-se: "a que termo essa observação se refere?" e "que informação ela acrescenta?". Isso evita a armadilha da troca de referente.