Mal nos limpamos da areia contrabandeada do Réveillon, e o ano já chega repleto de propostas de trabalho,(e) estudo, esporte e lazer. Energias renovadas e um certo erro de cálculo nos fazem crer que as promessas assumidas hoje encontrarão a mesma pessoa para pagá-las amanhã.
Agenda cheia é a marca da pessoa produtiva e plena de energia, ou seja, eternamente jovem e bem-sucedida. Não é o caso da mão de obra em uma grande cidade, cujo deslocamento para o emprego ocupa grande parte do dia, da paciência e da saúde. Essa sonha com tempo livre do qual não pode dispor, pois seu sustento está sob ameaça perene.
Acostumada a receber convites para dar palestras em diferentes instituições e sem poder ir a todas,(a) me surpreendi com uma resposta específica a uma negativa minha. A pessoa queria entender a razão pela qual eu não poderia atender a solicitação dela(c) que, afinal, ocorreria à noite, só se estenderia por duas horas e era perto da minha casa. Para me justificar, desfiei o rosário dos compromissos que assumi logo nos primeiros dias do ano: consultório, aulas, grupos de estudo, livro, coordenação de um instituto. A petulância diante do meu “não” seria só uma anedota, se não me tivesse percebido tão irritada.(b) Daí, claro, já não se trata da falta de sensibilidade do anfitrião, a quem respondi educadamente, mas de um incômodo comigo mesma.(d)
Meu mal-estar decorria do fato de eu cobrar de mim aceitar um evento à noite, que só dura duas horas e é perto da minha casa. Minha resposta apresentando os compromissos previamente assumidos era para aplacar a fúria de alguém que se espelha em um fazer sem descanso. Daí que, se quisermos rever uma produtividade que começa logo ao abrir os olhos com o uso do celular, teremos que dizer “não” para nós mesmos antes de tudo.
(Vera Iaconelli. A arte de dizer não para si. www1.folha.uol.com.br, 29.01.2024. Adaptado)
Assinale a alternativa em que se observa expressão com ideia de tempo.
AAcostumada a receber convites para dar palestras em diferentes instituições e sem poder ir a todas…
BA petulância diante do meu “não” seria só uma anedota, se não me tivesse percebido tão irritada.
CA pessoa queria entender a razão pela qual eu não poderia atender a solicitação dela…
D… falta de sensibilidade do anfitrião, a quem respondi educadamente, mas de um incômodo comigo mesma.
EMal nos limpamos da areia contrabandeada do Réveillon, e o ano já chega repleto de propostas de trabalho…
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GabaritoE — Mal nos limpamos da areia contrabandeada do Réveillon, e o ano já chega repleto de propostas de trabalho…
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Expressões com ideia de tempo: o valor semântico no texto
Gabarito: letra E. A alternativa E é a única em que se observa expressão com ideia de tempo: a conjunção "Mal" (com sentido de "logo que", "assim que") e o advérbio "já" indicam uma sequência temporal imediata entre o fim do Réveillon e a chegada do ano com propostas. Como se lê no texto: "Mal nos limpamos da areia contrabandeada do Réveillon, e o ano já chega repleto de propostas de trabalho". As demais alternativas trazem outras relações semânticas (condição, causa, adversidade), não tempo.
O comando
A questão pede para assinalar a alternativa em que se observa expressão com ideia de tempo. Isso é uma tarefa de reconhecimento de valor semântico: você deve identificar, entre as opções, aquela em que uma palavra ou locução expressa circunstância temporal (quando, logo que, assim que, enquanto, etc.). Não se trata de interpretar o texto, mas de analisar a função semântica de conectivos e advérbios no trecho destacado.
O texto e o movimento argumentativo
O texto de Vera Iaconelli discute a produtividade excessiva e a dificuldade de dizer "não" a si mesmo. No primeiro parágrafo, a autora situa o leitor no tempo: "Mal nos limpamos da areia contrabandeada do Réveillon, e o ano já chega repleto de propostas de trabalho". A expressão "Mal" (conjunção temporal) e o advérbio "já" marcam a imediatez entre o fim das festas e o início das obrigações. É exatamente essa passagem que a alternativa E reproduz, e é nela que mora a ideia de tempo.
A técnica que decide
Para resolver, você precisa classificar o valor semântico de cada conectivo/advérbio presente nas alternativas. Veja o quadro:
Alternativa
Expressão-chave
Valor semântico
A
"e"
adição
B
"se"
condição
C
"pela qual"
explicação/causa
D
"mas"
oposição/adversidade
E
"Mal... já"
tempo
A pegadinha clássica é confundir "se" (condicional) com tempo, ou "mas" (adversativa) com tempo. Mas a única expressão que explicitamente marca uma relação temporal é "Mal... já".
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre valores semânticos: "se" (condição) e "mas" (oposição) são distratores fortes, mas não expressam tempo. A expressão "Mal" (no sentido de "logo que") é a única que indica tempo.
PEGA ESSA DICA!
Ao procurar ideia de tempo, procure por conjunções temporais (quando, enquanto, assim que, logo que, mal) ou advérbios de tempo (já, ainda, agora). Se a alternativa tiver "se", "mas", "porque", desconfie: provavelmente não é tempo.
Alternativa A — ❌ Incorreta
A alternativa A traz: "Acostumada a receber convites para dar palestras em diferentes instituições e sem poder ir a todas". A conjunção "e" tem valor aditivo (soma informações), não temporal. Não há expressão que indique quando algo ocorre. O erro é de troca de valor semântico: o candidato pode achar que "acostumada" indica tempo, mas é um particípio com valor de estado, não de tempo.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A alternativa B traz: "A petulância diante do meu 'não' seria só uma anedota, se não me tivesse percebido tão irritada". A conjunção "se" introduz uma condição (hipótese), não tempo. O valor é condicional: a petulância seria anedota se não tivesse percebido irritada. Não há marca temporal. O erro é de troca de valor semântico: confundir condição com tempo.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A alternativa C traz: "A pessoa queria entender a razão pela qual eu não poderia atender a solicitação dela". A expressão "pela qual" é um pronome relativo que retoma "razão", com valor de explicação/causa (a razão pela qual = o motivo pelo qual). Não há ideia de tempo. O erro é de troca de valor semântico: confundir causa/explicação com tempo.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A alternativa D traz: "... falta de sensibilidade do anfitrião, a quem respondi educadamente, mas de um incômodo comigo mesma". A conjunção "mas" tem valor adversativo (oposição): contrapõe "falta de sensibilidade" a "incômodo comigo mesma". Não há expressão temporal. O erro é de troca de valor semântico: confundir oposição com tempo.
Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A alternativa E traz: "Mal nos limpamos da areia contrabandeada do Réveillon, e o ano já chega repleto de propostas de trabalho". A conjunção "Mal" (equivalente a "logo que", "assim que") e o advérbio "já" expressam tempo: indicam que, imediatamente após o Réveillon, o ano chega com propostas. É a única alternativa com ideia de tempo explícita.
"Mal nos limpamos da areia contrabandeada do Réveillon, e o ano já chega repleto de propostas de trabalho"
Aqui, "Mal" marca o momento exato em que a ação de limpar termina, e "já" reforça a imediatez da chegada do ano. Essa é a relação temporal que a questão pede.
Conclusão
A questão testa sua capacidade de reconhecer o valor semântico de conectivos e advérbios. A única alternativa com ideia de tempo é a E, pois "Mal... já" expressa uma sequência temporal imediata. As demais trazem adição, condição, causa e oposição. Lembre-se: tempo é marcado por conjunções como "quando", "enquanto", "assim que", "logo que", "mal", e por advérbios como "já", "ainda", "agora".