Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — VUNESP 2024
Português›Interpretação de Textos (Compreensão)
Código
vu205245
Banca
VUNESP
Órgão
Pref Sorocaba
Ano
2024
Cargo
Fisc (Sorocaba)
Ele trabalha o dia inteiro no moinho de seu primo,
à noite, quando chega em casa, senta-se àquela janela
e contempla a parte do dia que resta, o crepúsculo.
Deveria haver mais horas assim, para sentar e sonhar.
É como diz seu primo:
Viver – viver é o contrário de sentar.
Na janela, jamais o mundo, e sim uma paisagem esquadriada
do mundo. Mudam as estações,
visíveis apenas por algumas horas do dia.
O verde seguido de dourado seguido de palidez –
abstrações que trazem prazeres intensos,
como os figos sobre a mesa.
Quando cai a tarde, o sol se põe na névoa avermelhada
[entre dois álamos.
No verão demora a se pôr – às vezes é difícil esperar
[acordado.
Logo tudo desmorona.
O mundo ainda pode ser
assistido, em seguida apenas escutado,
grilos, cigarras.
Também farejado, o aroma dos limoeiros, laranjeiras.
Até isso o sono trata de subtrair.
(Louise Glück. Poemas 2006 - 2014. 2021)
É correto afirmar que o eu-lírico do poema
Aexpõe seus sentimentos de tristeza e desânimo em relação ao dia de trabalho passado em um moinho afastado de tudo.
Bexpressa seu incômodo em relação ao fato de, com a chegada da noite, não poder mais enxergar ou ouvir a natureza.
Centende que a paisagem que vê através da janela representa a parte mais relevante de tudo o que existe no mundo.
Dafirma haver prazer na contemplação das diferentes cores que se sucedem na paisagem à medida que o dia finda.
Eé impedido de descansar da maneira como deseja porque os diferentes ruídos e cheiros do anoitecer o perturbam.
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GabaritoD — afirma haver prazer na contemplação das diferentes cores que se sucedem na paisagem à medida que o dia finda.
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Interpretação de poema: o prazer na contemplação das cores do crepúsculo
Gabarito: letra D. O eu-lírico afirma haver prazer na contemplação das diferentes cores que se sucedem na paisagem à medida que o dia finda. Essa leitura é autorizada diretamente pelos versos "O verde seguido de dourado seguido de palidez – / abstrações que trazem prazeres intensos", em que as cores (verde, dourado, palidez) são apresentadas como "abstrações" que proporcionam "prazeres intensos". As demais alternativas ou extrapolam o texto, ou contradizem o que está escrito, ou tangenciam o tema central do poema.
O comando pede uma compreensão do poema: "É correto afirmar que o eu-lírico...". Isso significa que a resposta deve ser uma paráfrase fiel de uma ideia explicitamente presente no texto, sem deduções ou acréscimos. A tarefa é localizar a passagem que sustenta a alternativa e verificar se cada uma das outras ou acrescenta informação de fora (extrapolação), ou restringe o alcance do que foi dito, ou contradiz o texto.
O poema de Louise Glück descreve um trabalhador que, após o dia no moinho, senta-se à janela para contemplar o crepúsculo. O movimento central é a valorização desse momento de pausa e contemplação: "Deveria haver mais horas assim, para sentar e sonhar". A paisagem vista pela janela é "esquadriada", ou seja, um recorte do mundo, e as estações mudam "visíveis apenas por algumas horas do dia". É nesse contexto que as cores aparecem: "O verde seguido de dourado seguido de palidez – / abstrações que trazem prazeres intensos". A palavra "abstrações" indica que as cores são percebidas como ideias ou sensações, e "prazeres intensos" explicita o valor positivo que o eu-lírico atribui a essa contemplação.
A técnica central para resolver esta questão é testar cada alternativa contra o texto: a correta é a única que encontra respaldo literal em uma passagem, sem exigir que o leitor acrescente nada de fora. As alternativas erradas cometem erros típicos de interpretação: extrapolação (A, B, E) e contradição (C). A alternativa A, por exemplo, fala em "tristeza e desânimo", mas o poema não expressa esses sentimentos; o eu-lírico valoriza o momento de contemplação. A alternativa B afirma que o eu-lírico se incomoda por não poder ver ou ouvir a natureza à noite, mas o texto mostra que ele ainda pode "assistir" e "escutar" o mundo, e o sono é que subtrai essas percepções, sem incômodo explícito. A alternativa C diz que a paisagem da janela representa "a parte mais relevante de tudo o que existe no mundo", mas o texto a chama de "paisagem esquadriada", ou seja, um recorte, não o todo. A alternativa E afirma que os ruídos e cheiros o perturbam, mas o texto os apresenta como elementos que ele "fareja" e "escuta", sem conotação negativa.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a tendência de extrapolar sentimentos e julgamentos que não estão no texto. A alternativa A, por exemplo, é sedutora porque o leitor pode imaginar que trabalhar o dia inteiro no moinho cause tristeza, mas o poema não diz isso. A correta (D) é a única que se ancora em uma passagem literal.
PEGA ESSA DICA!
Em questões de compreensão, grife o comando ("É correto afirmar") e procure a paráfrase exata. Desconfie de alternativas que acrescentam emoções, causas ou generalizações que o texto não menciona.
Alternativa A — ❌ Incorreta
A alternativa afirma que o eu-lírico "expõe seus sentimentos de tristeza e desânimo em relação ao dia de trabalho passado em um moinho afastado de tudo". O texto não menciona tristeza ou desânimo. O eu-lírico trabalha no moinho, mas o foco é a contemplação do crepúsculo, que ele valoriza: "Deveria haver mais horas assim, para sentar e sonhar". A palavra "afastado de tudo" também não encontra respaldo; o poema fala de uma "paisagem esquadriada", mas não diz que o moinho é isolado. Erro: extrapolação — acrescenta sentimentos e informações que não estão no texto.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A alternativa diz que o eu-lírico "expressa seu incômodo em relação ao fato de, com a chegada da noite, não poder mais enxergar ou ouvir a natureza". O texto mostra o contrário: o eu-lírico ainda pode "assistir" o mundo ("O mundo ainda pode ser / assistido") e depois "escutado" ("grilos, cigarras"). Não há incômodo; o que ocorre é que "o sono trata de subtrair" essas percepções, mas isso é apresentado como um fato natural, não como motivo de irritação. Erro: contradiz o texto — inverte a ideia de que ele ainda percebe a natureza.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A alternativa afirma que o eu-lírico "entende que a paisagem que vê através da janela representa a parte mais relevante de tudo o que existe no mundo". O texto chama a paisagem de "paisagem esquadriada do mundo", ou seja, um recorte, não o todo. Não há hierarquia de relevância; o eu-lírico apenas contempla o que vê. Erro: contradiz o texto — a palavra "esquadriada" indica limitação, não totalidade.
Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A alternativa afirma que o eu-lírico "afirma haver prazer na contemplação das diferentes cores que se sucedem na paisagem à medida que o dia finda". Isso é uma paráfrase direta dos versos:
"O verde seguido de dourado seguido de palidez – / abstrações que trazem prazeres intensos"
As cores (verde, dourado, palidez) se sucedem "à medida que o dia finda" (o crepúsculo), e o eu-lírico as chama de "abstrações que trazem prazeres intensos". A palavra "prazeres" confirma o valor positivo. Correta — ancorada em passagem literal.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A alternativa afirma que o eu-lírico "é impedido de descansar da maneira como deseja porque os diferentes ruídos e cheiros do anoitecer o perturbam". O texto não diz que os ruídos e cheiros o perturbam; ao contrário, eles são apresentados como parte da experiência sensorial do anoitecer: "Também farejado, o aroma dos limoeiros, laranjeiras". Não há conotação negativa. Erro: extrapolação — atribui um incômodo que o texto não menciona.
Conclusão: a única alternativa inteiramente sustentada pelo texto é a D, que parafraseia os versos sobre as cores e os prazeres intensos. As demais ou extrapolam (A, E), ou contradizem o texto (B, C). Lembre-se: em compreensão, a resposta mora no texto — se a alternativa exigir que você acrescente algo de fora, ela está errada.