Ele trabalha o dia inteiro no moinho de seu primo,
à noite, quando chega em casa, senta-se àquela janela
e contempla a parte do dia que resta, o crepúsculo.
Deveria haver mais horas assim, para sentar e sonhar.
É como diz seu primo:
Viver – viver é o contrário de sentar.
Na janela, jamais o mundo, e sim uma paisagem esquadriada
do mundo. Mudam as estações,
visíveis apenas por algumas horas do dia.
O verde seguido de dourado seguido de palidez –
abstrações que trazem prazeres intensos,
como os figos sobre a mesa.
Quando cai a tarde, o sol se põe na névoa avermelhada
[entre dois álamos.
No verão demora a se pôr – às vezes é difícil esperar
[acordado.
Logo tudo desmorona.
O mundo ainda pode ser
assistido, em seguida apenas escutado,
grilos, cigarras.
Também farejado, o aroma dos limoeiros, laranjeiras.
Até isso o sono trata de subtrair.
(Louise Glück. Poemas 2006 - 2014. 2021)
O vocábulo destacado no verso “Deveria haver mais horas assim, para sentar e sonhar.” indica
Afinalidade.
Borigem.
Cdireção.
Dagente.
Ematéria.
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GabaritoA — finalidade.
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Valor semântico da preposição "para": finalidade no contexto
Gabarito: letra A. No verso "Deveria haver mais horas assim, para sentar e sonhar", a preposição para introduz a finalidade — o propósito de se ter mais horas: sentar e sonhar. A prova é a substituição pela locução "a fim de": "Deveria haver mais horas assim, a fim de sentar e sonhar" — o sentido permanece idêntico. Nenhuma das outras alternativas (origem, direção, agente, matéria) encontra respaldo no trecho.
O comando: identificar o valor da preposição
A questão pede que você reconheça qual ideia a preposição "para" expressa no contexto específico do verso. Isso é diferente de decorar uma lista de sentidos possíveis: a banca quer que você leia o trecho e perceba a relação lógica que a preposição estabelece entre as ideias. Aqui, "para" liga a oração "sentar e sonhar" ao desejo expresso antes — e essa relação é de propósito, objetivo.
O texto: o desejo de mais tempo para contemplar
O poema de Louise Glück descreve um trabalhador que, à noite, contempla o crepúsculo da janela. O verso em questão é um lamento: "Deveria haver mais horas assim, para sentar e sonhar". O eu lírico deseja que existam mais horas com a finalidade de sentar e sonhar. A preposição "para" não indica de onde vêm as horas (origem), nem para onde elas vão (direção), nem quem as produz (agente), nem de que são feitas (matéria). Ela indica o objetivo — o fim a que se destinam.
A técnica: o teste da substituição
O método mais seguro para identificar o valor de uma preposição é substituí-la por uma locução de sentido equivalente e verificar se a frase continua coerente:
Finalidade: "para" = "a fim de" → "Deveria haver mais horas assim, a fim de sentar e sonhar." ✅
Direção: "para" = "em direção a" → "Deveria haver mais horas assim, em direção a sentar e sonhar." ❌ (não faz sentido)
Origem: "para" não indica origem; origem seria "de" ou "desde". ❌
Agente: "para" não introduz agente da passiva; isso seria "por". ❌
Matéria: "para" não indica matéria; isso seria "de" (ex.: "feito de madeira"). ❌
A substituição por "a fim de" mantém o sentido perfeito, confirmando a finalidade.
Análise das alternativas
Preposição "para"
1Valores possíveis
Finalidade (a fim de)
Direção (em direção a)
Destino
2No verso
Finalidade
"a fim de sentar e sonhar"
Não é direção
Não é origem
Não é agente
Não é matéria
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Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A preposição "para" expressa finalidade: o propósito de ter mais horas é sentar e sonhar. Como visto, a substituição por "a fim de" comprova o valor. O contexto é inequívoco: o eu lírico deseja mais tempo com o objetivo de contemplar e sonhar.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Origem seria indicada por preposições como "de" ou "desde" (ex.: "venho de longe"). No verso, "para" não aponta a procedência das horas; aponta o destino (o uso que se fará delas). A alternativa extrapola um valor que a preposição pode ter em outros contextos, mas não aqui.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Direção seria "para" + lugar (ex.: "caminhamos para a praça"). Aqui, "para" não introduz um lugar físico, mas uma ação (sentar e sonhar). A relação é de finalidade, não de movimento espacial. A alternativa troca o sentido ao aplicar um valor de outra construção.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Agente é o termo que pratica a ação na voz passiva, introduzido por "por" (ex.: "o livro foi escrito por mim"). Não há voz passiva no verso, e "para" jamais introduz agente. A alternativa contradiz a estrutura sintática do trecho.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Matéria é indicada por "de" (ex.: "a casa é feita de madeira"). O verso não fala de composição material; fala de propósito. A alternativa tangencia o tema ao trazer um valor que não se aplica a "para" neste contexto.
NÃO CAIA NESSA!
A banca oferece valores que a preposição "para" pode ter em outras frases (direção, por exemplo), mas aqui o contexto é claro: "para" + verbo no infinitivo, com sentido de "a fim de". Não se deixe levar por associações automáticas — leia o trecho e teste a substituição.
PEGA ESSA DICA!
Sempre que a questão perguntar o valor de uma preposição, substitua-a por uma locução equivalente ("a fim de" para finalidade, "em direção a" para direção, "por causa de" para causa) e veja qual mantém o sentido. Esse teste resolve a maioria dos casos.