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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — VUNESP 2024

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
vu205346
Banca
VUNESP
Órgão
Pref SBC
Ano
2024
Cargo
ATIP ( )

O homem da Rabeca

 

A casa para onde me mudei nada tinha de confortável e resguardada. Somente alta e mais clara que o primeiro andar da rua do Sol.

 

Devia já ser velha; os tetos baixos e o soalho carunchoso tremiam em os chinelos arrastando. Pelos buracos do rodapé, as baratas saltavam de noite aos rebanhos, em cata de alimento. Mas de manhã a coisa mudava – rompia alegremente o sol, como um companheiro folgazão, e no parapeito da varanda, as pombas do marceneiro vinham arrulhar beijando-se, com esse movimento coquette1 de cabecinhas graciosas. Um pé de eloendro florido chamava as abelhas, abrindo-lhes as corolas róseas num cândido aroma de beijos, e em anfiteatro, alargando-se da Baixa ao cimo das colinas de uma banda, e até ao azul do rio da outra, a casaria da cidade, liberta dos últimos vapores da noite, expunha as suas fachadas brancas, monotonamente cortadas de janelas, sobre que os tetos caíam em pirâmides alongadas, e de que as chaminés furavam agressivamente aqui e além, fumando na risonha luz recém-nascida.

 

A primeira coisa que pude notar na vizinhança foi que não havia uma cara bonita. Em baixo, na loja do prédio fronteiro, a mulher do lugar, suja e gasta, era repelente com os seus enormes sapatos de ourelo e o corpete do vestido constantemente descerrado. No primeiro andar, engomadeiras com cara de homem, cabeludas e amarelas, vinham raro à janela para lançar olhares oblíquos sobre as casas alheias. Por cima era uma mestra – ao lado um veterano eternamente à janela, de barrete azul, fumando no seu cachimbo disforme. Na rua estreita e tortuosa, todos se conheciam; crianças brincavam descalças e ranhosas, tocando latas; de manhã era uma gralhada de janela para janela sobre a carestia das coisas e as carraspanas dos maridos – e o mesmo padeiro servia as famílias, demorando-se de palestra pelas escadas.

(Fialho de Almeida, “O homem da Rabeca”. Em:

Massaud Moisés. A Literatura Portuguesa Através Dos Textos, 2012. Adaptado) 1 sedutor

Leia o texto para responder à questão.   Ao discorrer sobre a casa onde estava morando, o narrador do texto deixa claro que
  1. Aa casa da rua do Sol e a nova moradia eram lugares repelentes, pois a cidade era um lugar tedioso.
  2. Ba nova moradia só apresentava problemas, seja pelas baratas noturnas, seja pelos vizinhos feios.
  3. Ca vontade a rondar seus pensamentos era de poder voltar a morar na casa da rua do Sol em breve.
  4. Do novo local devia ser uma construção velha, mas o lugar reunia belezas com a chegada da manhã.
  5. Ea casa da rua do Sol era mais aconchegante, pois nela não havia baratas a invadir o lugar dia e noite.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoD — o novo local devia ser uma construção velha, mas o lugar reunia belezas com a chegada da manhã.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Compreensão de texto: a casa velha que ganha beleza pela manhã

Gabarito: letra D. O narrador deixa claro que o novo local "Devia já ser velha" (construção antiga), mas que, com a chegada da manhã, o lugar se transforma e reúne belezas: o sol "rompia alegremente", as pombas "vinham arrulhar beijando-se", o eloendro florido "chamava as abelhas" e a casaria "expunha as suas fachadas brancas". A alternativa D é a única que sintetiza essa dualidade — velhice e beleza matinal — exatamente como o texto apresenta.

O comando pede compreensão ("deixa claro que"), ou seja, a resposta deve ser uma paráfrase fiel do que está explícito no texto, sem deduções ou acréscimos. Não se trata de inferir algo nas entrelinhas, mas de reconhecer a reescritura equivalente de uma ideia apresentada. Vamos ao método: leia o texto marcando as ideias centrais de cada parágrafo. O primeiro parágrafo já entrega a chave da questão — a descrição da casa e sua transformação pela manhã.

A técnica que decide esta questão é o casamento entre a informação explícita e a paráfrase. O texto afirma que a casa "nada tinha de confortável e resguardada" e que "Devia já ser velha; os tetos baixos e o soalho carunchoso". Mas, em seguida, o narrador descreve a beleza da manhã: o sol "rompia alegremente", as pombas "vinham arrulhar beijando-se", o eloendro "chamava as abelhas" e a cidade "expunha as suas fachadas brancas". A alternativa D captura exatamente essa oposição: construção velha + belezas matinais.

"Devia já ser velha; os tetos baixos e o soalho carunchoso tremiam em os chinelos arrastando."

"Mas de manhã a coisa mudava – rompia alegremente o sol, como um companheiro folgazão, e no parapeito da varanda, as pombas do marceneiro vinham arrulhar beijando-se, com esse movimento coquette de cabecinhas graciosas."

Aqui está o coração da questão: o texto não apresenta a casa como um lugar apenas ruim ou apenas bom. Ele mostra uma dualidade: a casa é velha e desconfortável, mas a manhã traz beleza e vida. A alternativa D é a única que abraça essa dualidade, enquanto as demais ou exageram (A, B), ou inventam desejos (C), ou comparam com a casa anterior de forma não sustentada (E).

Por que as outras falham? Vamos analisar cada uma:

Alternativa A — ❌ Incorreta

A alternativa A diz que "a casa da rua do Sol e a nova moradia eram lugares repelentes, pois a cidade era um lugar tedioso". O texto não diz que a casa da rua do Sol era repelente — na verdade, ela é mencionada apenas como comparação de altura e claridade: "Somente alta e mais clara que o primeiro andar da rua do Sol". Além disso, o texto não afirma que a cidade era tediosa; pelo contrário, descreve a manhã com belezas. Erro: extrapolação — acrescenta informações que não estão no texto.

Alternativa B — ❌ Incorreta

A alternativa B afirma que "a nova moradia só apresentava problemas, seja pelas baratas noturnas, seja pelos vizinhos feios". O texto menciona as baratas e os vizinhos feios, mas não diz que "só" havia problemas — pelo contrário, descreve belezas matinais. A palavra "só" é um absoluto que restringe indevidamente o alcance do texto. Erro: restrição/generalização — transforma uma parte em todo.

Alternativa C — ❌ Incorreta

A alternativa C diz que "a vontade a rondar seus pensamentos era de poder voltar a morar na casa da rua do Sol em breve". O texto não menciona nenhum desejo de voltar. O narrador apenas compara a altura e a claridade, sem expressar saudade ou vontade. Erro: extrapolação — inventa um sentimento que não está no texto.

Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A alternativa D afirma que "o novo local devia ser uma construção velha, mas o lugar reunia belezas com a chegada da manhã". Isso é uma paráfrase fiel do texto: "Devia já ser velha" + "Mas de manhã a coisa mudava – rompia alegremente o sol...". A conjunção "mas" marca a oposição entre a velhice e a beleza matinal, exatamente como o texto apresenta. Correta — é a única que sintetiza a dualidade sem exageros ou invenções.

Alternativa E — ❌ Incorreta

A alternativa E afirma que "a casa da rua do Sol era mais aconchegante, pois nela não havia baratas a invadir o lugar dia e noite". O texto não diz que a casa da rua do Sol era mais aconchegante — apenas que a nova era "alta e mais clara". Além disso, o texto não diz que as baratas invadiam "dia e noite"; elas apareciam "de noite". Erro: contradição + extrapolação — inverte a comparação e acrescenta informações.

NÃO CAIA NESSA!

A banca adora extrapolar com um fato verdadeiro que o texto não traz. Aqui, a alternativa B usa "só" para restringir, e a E inverte a comparação. Desconfie de palavras absolutas como "só", "sempre", "nunca" — elas quase sempre restringem indevidamente.

PEGA ESSA DICA!

Grife o comando antes de ler as alternativas. "Deixa claro que" pede compreensão (paráfrase), não inferência. Se a alternativa exige acrescentar algo de fora, está errada.

Conclusão: a resposta correta é a letra D, pois é a única que permanece fiel ao texto, capturando a dualidade entre a velhice da casa e a beleza da manhã. As demais ou extrapolam, ou restringem, ou contradizem o que está escrito.

Gabarito: letra D

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