Questão de Português — Colocação Pronominal — VUNESP 2024
Português›Colocação Pronominal
Código
vu205348
Banca
VUNESP
Órgão
Pref SBC
Ano
2024
Cargo
ATIP ( )
O homem da Rabeca
A casa para onde me mudei nada tinha de confortável e resguardada. Somente alta e mais clara que o primeiro andar da rua do Sol.
Devia já ser velha; os tetos baixos e o soalho carunchoso tremiam em os chinelos arrastando. Pelos buracos do rodapé, as baratas saltavam de noite aos rebanhos, em cata de alimento. Mas de manhã a coisa mudava – rompia alegremente o sol, como um companheiro folgazão, e no parapeito da varanda, as pombas do marceneiro vinham arrulhar beijando-se, com esse movimento coquette1 de cabecinhas graciosas. Um pé de eloendro florido chamava as abelhas, abrindo-lhes as corolas róseas num cândido aroma de beijos, e em anfiteatro, alargando-se da Baixa ao cimo das colinas de uma banda, e até ao azul do rio da outra, a casaria da cidade, liberta dos últimos vapores da noite, expunha as suas fachadas brancas, monotonamente cortadas de janelas, sobre que os tetos caíam em pirâmides alongadas, e de que as chaminés furavam agressivamente aqui e além, fumando na risonha luz recém-nascida.
A primeira coisa que pude notar na vizinhança foi que não havia uma cara bonita. Em baixo, na loja do prédio fronteiro, a mulher do lugar, suja e gasta, era repelente com os seus enormes sapatos de ourelo e o corpete do vestido constantemente descerrado. No primeiro andar, engomadeiras com cara de homem, cabeludas e amarelas, vinham raro à janela para lançar olhares oblíquos sobre as casas alheias. Por cima era uma mestra – ao lado um veterano eternamente à janela, de barrete azul, fumando no seu cachimbo disforme. Na rua estreita e tortuosa, todos se conheciam; crianças brincavam descalças e ranhosas, tocando latas; de manhã era uma gralhada de janela para janela sobre a carestia das coisas e as carraspanas dos maridos – e o mesmo padeiro servia as famílias, demorando-se de palestra pelas escadas.
(Fialho de Almeida, “O homem da Rabeca”. Em:
Massaud Moisés. A Literatura Portuguesa Através Dos Textos, 2012. Adaptado)1 sedutor
Leia o texto para responder à questão. A colocação pronominal atende à norma-padrão em:
AA casa devia já ser velha; os tetos baixos e o soalho carunchoso tremiam quando me movimentava, arrastando os chinelos.
BNa rua estreita e tortuosa, todos se conheciam, e o mesmo padeiro servia as famílias, sempre demorando- se de palestra pelas escadas.
CTão logo mudei para a nova casa, a primeira coisa que pude notar na vizinhança foi que não encontrava- se uma cara bonita, por ali.
DPelos buracos do rodapé, apareciam as baratas, que espalhavam-se de noite aos rebanhos, em cata de alimento para sobreviverem.
EMe mudei para uma casa que nada tinha de confortável e resguardada, era apenas alta e mais clara que o primeiro andar da rua do Sol.
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GabaritoA — A casa devia já ser velha; os tetos baixos e o soalho carunchoso tremiam quando me movimentava, arrastando os chinelos.
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Colocação pronominal: a norma-padrão na prática
Gabarito: letra A. A alternativa A é a única que respeita integralmente a colocação pronominal exigida pela norma-padrão: o pronome me aparece em próclise (antes do verbo) porque é atraído pela conjunção subordinativa quando — "quando me movimentava". As demais alternativas apresentam erros de colocação (próclise obrigatória não aplicada) ou de regência, como se verá a seguir.
A questão cobra colocação pronominal, ou seja, a posição correta dos pronomes oblíquos átonos (me, te, se, o, a, lhe, nos, vos, lhes) em relação ao verbo. A norma-padrão estabelece três posições: próclise (pronome antes do verbo), ênclise (depois) e mesóclise (no meio, apenas com futuro do presente e futuro do pretérito). A regra de ouro é: há palavras que atraem o pronome para antes do verbo, tornando a próclise obrigatória. São elas: palavras negativas (não, nunca, jamais), advérbios (sempre, já, talvez), pronomes relativos (que, quem, onde), pronomes indefinidos (algo, ninguém), pronomes interrogativos e conjunções subordinativas (quando, se, embora, porque). Além disso, não se inicia período com pronome oblíquo átono — ou seja, a ênclise é obrigatória no início de frase.
No texto-base, há várias ocorrências de pronomes oblíquos, mas a questão pede que se avalie a reescrita de trechos. Vamos analisar cada alternativa com base nas regras:
Colocação pronominal
1Próclise (antes do verbo)
Palavras atrativas
Negativas (não, nunca)
Advérbios (sempre, já)
Pronomes relativos (que, quem)
Conjunções subordinativas (quando, se)
2Ênclise (depois do verbo)
Início de período
Após pausa
3Mesóclise (futuro do presente/pretérito)
4Proibido iniciar período com pronome átono
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Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A reescrita "A casa devia já ser velha; os tetos baixos e o soalho carunchoso tremiam quando me movimentava, arrastando os chinelos" está correta porque o pronome me é colocado antes do verbo "movimentava", em próclise, e isso é obrigatório porque há uma conjunção subordinativa ("quando") antes do verbo. A conjunção subordinativa é uma palavra atrativa que exige próclise. Além disso, a reescrita mantém o sentido original do texto: "os tetos baixos e o soalho carunchoso tremiam em os chinelos arrastando" (trecho do texto) foi reescrito como "tremiam quando me movimentava, arrastando os chinelos", sem alterar o sentido.
"os tetos baixos e o soalho carunchoso tremiam em os chinelos arrastando"
A reescrita preserva a ideia de que o movimento de arrastar os chinelos fazia o soalho tremer, e a colocação pronominal está perfeita.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A reescrita "Na rua estreita e tortuosa, todos se conheciam, e o mesmo padeiro servia as famílias, sempre demorando- se de palestra pelas escadas" apresenta erro de colocação no trecho "demorando- se". O pronome se está depois do verbo "demorando" (ênclise), mas deveria estar antes (próclise), porque há um advérbio ("sempre") antes do verbo. O advérbio é palavra atrativa que exige próclise. O correto seria "sempre se demorando". Além disso, há um erro de hifenização: "demorando- se" com hífen indevido (o hífen só é usado com ênclise em formas verbais como "demorando-se", mas aqui o pronome deveria vir antes). A banca explora a confusão entre ênclise e próclise após advérbio.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A reescrita "Tão logo mudei para a nova casa, a primeira coisa que pude notar na vizinhança foi que não encontrava- se uma cara bonita, por ali" apresenta dois erros: primeiro, o pronome se está depois do verbo "encontrava" (ênclise), mas deveria estar antes (próclise), porque há uma palavra negativa ("não") antes do verbo. O correto seria "não se encontrava". Segundo, há um erro de hifenização: "encontrava- se" com hífen indevido (o hífen só é usado com ênclise em formas como "encontrava-se", mas aqui o pronome deveria vir antes). A banca explora a confusão entre ênclise e próclise após palavra negativa.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A reescrita "Pelos buracos do rodapé, apareciam as baratas, que espalhavam-se de noite aos rebanhos, em cata de alimento para sobreviverem" apresenta erro de colocação no trecho "espalhavam-se". O pronome se está depois do verbo "espalhavam" (ênclise), mas deveria estar antes (próclise), porque há um pronome relativo ("que") antes do verbo. O pronome relativo é palavra atrativa que exige próclise. O correto seria "que se espalhavam". A banca explora a confusão entre ênclise e próclise após pronome relativo.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A reescrita "Me mudei para uma casa que nada tinha de confortável e resguardada, era apenas alta e mais clara que o primeiro andar da rua do Sol" apresenta erro de colocação no início: "Me mudei". A norma-padrão proíbe iniciar período com pronome oblíquo átono (me, te, se, o, a, lhe, nos, vos, lhes). O correto seria "Mudei-me" (ênclise) ou "Eu me mudei" (com sujeito explícito). Além disso, há um problema de regência: "resguardada" deveria ser "resguardada" (concordância nominal) — mas o erro principal é a colocação pronominal. A banca explora a proibição de iniciar frase com pronome átono.
PEGA ESSA DICA!
Ao reescrever frases, identifique se há palavra atrativa (conjunção subordinativa, advérbio, pronome relativo, palavra negativa, pronome indefinido, pronome interrogativo) antes do verbo. Se houver, o pronome deve vir antes (próclise). Se não houver, e a frase começar com verbo, use ênclise (pronome depois). Nunca inicie período com pronome átono.
NÃO CAIA NESSA!
A banca adora colocar o pronome depois do verbo mesmo quando há palavra atrativa antes, como em "sempre demorando- se" (advérbio) e "que espalhavam-se" (pronome relativo). Fique atento ao hífen indevido: "demorando- se" e "encontrava- se" são formas incorretas, pois o hífen só é usado com ênclise legítima.
Conclusão: A única alternativa que respeita a norma-padrão é a letra A, pois aplica a próclise obrigatória após a conjunção subordinativa "quando". As demais erram ao usar ênclise após palavras atrativas (B, C, D) ou ao iniciar período com pronome átono (E).