O amor de madrasta e de padrasto é um amor elevado, um amor puramente desinteressado. Eles não têm o benefício da relação automática, do laço do sangue, precisam construir com o enteado uma amizade do zero, em que o conselho depende da doçura e da pontualidade para não agredir e não soar como censura.
São corajosos, pois alimentam uma relação desprovida de garantia e estabilidade. Enfrentam os rótulos e o preconceito por ocupar, no imaginário da infância, o lugar natural da mãe ou do pai. Provam o seu valor e adquirem credibilidade pouco a pouco. Só a constância da lealdade é que consolidará a influência.
Demonstram, na prática, que não vieram substituir ninguém, mas somar amizades e pontos de vista. Surpreendem com uma ternura desobrigada, uma atenção gratuita, uma dedicação sem a recompensa de abraços e beijos fáceis.
Talvez não recebam cartãozinho no Dia das Mães e dos Pais, talvez não sejam chamados para as festas da escola, talvez não estejam representados nos desenhos infantis, talvez tenham que superar a carência e entender que as vitórias são secretas e parciais. Andam no trapézio das emoções, evitando sofrer a desqualificação em qualquer embate: “Você não é meu pai”, “Você não é minha mãe”.
Não podem despertar a inveja e a concorrência sendo bons demais, nem a preocupação sendo indiferentes. Não podem dar bronca no momento de raiva nem devem ser tolerantes em excesso na alegria. Armados na paciência, amando a paciência, jamais invadem a privacidade, ficam na porta esperando um convite para entrar na sensibilidade dos pequenos.
Não há papel mais difícil dentro de casa. Encarnam o equilíbrio. Medirão as palavras e o tamanho do silêncio. Vão se apaixonar por uma pessoa que possivelmente não será para sempre. Mas o amor é para sempre quando o coração se mostra um duradouro ventre.
(Fabrício Carpinejar. Jornal Zero Hora. 24.07.2018. Adaptado)
Considere as frases a seguir.
• São corajosos, pois alimentam uma relação desprovida de garantia e estabilidade.
• Demonstram, na prática, que não vieram substituir ninguém, mas somar amizades e pontos de vista.
As palavras em destaque estabelecem, correta e respectivamente, relações de sentido de
Aexplicação e causa.
Bcausa e concessão.
Ccondição e oposição.
Dexplicação e oposição.
Ecausa e condição.
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GabaritoD — explicação e oposição.
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Relações de sentido: o valor de "pois" e "mas" no texto
Gabarito: letra D. Na primeira frase, "pois" introduz uma explicação (justifica por que são corajosos); na segunda, "mas" estabelece uma oposição (contrapõe "substituir" a "somar"). A alternativa D é a única que combina exatamente esses dois valores, como se comprova no próprio texto.
O comando da questão
O enunciado pede que se reconheçam as relações de sentido que as conjunções destacadas estabelecem entre as orações. Isso é uma tarefa de semântica contextual: não basta saber a classe da palavra, é preciso ver o que ela faz no trecho — que ligação lógica cria entre as ideias. A banca não pergunta "o que é pois?", mas "que relação o pois estabelece aqui?". A resposta mora no contexto, não na palavra isolada.
O texto e o movimento argumentativo
O texto defende que o papel de madrasta e padrasto é o mais difícil na família. No segundo parágrafo, o autor afirma que eles são corajosos e imediatamente justifica: "pois alimentam uma relação desprovida de garantia e estabilidade". O "pois" aqui explica o porquê da coragem — é uma justificativa, uma razão apresentada para sustentar a afirmação anterior.
No terceiro parágrafo, a frase "não vieram substituir ninguém, mas somar amizades" apresenta duas ideias contrárias entre si: a negação de uma ação (substituir) e a afirmação de outra (somar). O "mas" marca essa oposição, esse contraste entre o que não fazem e o que fazem.
A técnica que decide
Para resolver, você precisa dominar os valores semânticos das conjunções coordenativas. Veja o essencial:
Explicativas: introduzem uma justificativa, uma razão para o que foi dito. Conjunções: pois (antes do verbo), porque, porquanto, que. Ex.: "Ele não veio, pois estava doente." — o "pois" explica o motivo da ausência.
Adversativas: marcam oposição, contraste, quebra de expectativa. Conjunções: mas, porém, contudo, todavia, entretanto, no entanto. Ex.: "Estudou muito, mas não passou." — o "mas" opõe o esforço ao resultado.
Causais: indicam a causa de um fato. Conjunções: porque, pois (quando equivale a "porque"), como, visto que, já que. Ex.: "Não fui porque choveu." — a chuva é a causa da ausência.
Concessivas: indicam uma ressalva que não impede a ação principal. Conjunções: embora, ainda que, apesar de, conquanto. Ex.: "Embora chovesse, fui." — a chuva é uma ressalva, mas não impede a ida.
A pegadinha clássica é confundir explicação com causa e oposição com concessão. A explicação justifica uma afirmação; a causa explica um fato. A oposição contrapõe ideias; a concessão admite uma objeção sem invalidar a principal.
Análise das alternativas
Conjunções coordenativas: Explicativas (pois (antes do verbo), porque, porquanto, justificam uma afirmação); Adversativas (mas, porém, contudo, marcam oposição/contraste); Causais (porque, pois, já que, indicam a causa de um fato); Concessivas (embora, ainda que, ressalva que não impede)
Alternativa A — ❌ Incorreta
A alternativa A diz "explicação e causa". O primeiro valor está correto ("pois" é explicativo), mas o segundo está errado: "mas" não é causal. O "mas" não indica causa, e sim oposição. A banca troca o valor de "mas" para testar se você sabe diferenciar oposição de causa.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A alternativa B diz "causa e concessão". O primeiro valor está errado: "pois" aqui é explicativo, não causal. O segundo também está errado: "mas" é adversativo, não concessivo. A banca mistura dois valores que não se aplicam ao texto.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A alternativa C diz "condição e oposição". O primeiro valor está errado: "pois" não indica condição (condicional seria "se", "caso"). O segundo está correto ("mas" é oposição), mas como o primeiro falha, a alternativa inteira cai.
Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A alternativa D diz "explicação e oposição". É exatamente o que o texto mostra:
"São corajosos, pois alimentam uma relação desprovida de garantia e estabilidade."
O "pois" explica por que são corajosos: a falta de garantia e estabilidade é a justificativa da coragem.
"Demonstram, na prática, que não vieram substituir ninguém, mas somar amizades e pontos de vista."
O "mas" opõe a ideia de substituir à de somar: não substituem, somam. É um contraste claro.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A alternativa E diz "causa e condição". O primeiro valor está errado ("pois" é explicativo, não causal). O segundo também está errado ("mas" não é condicional). A banca oferece dois valores que não se aplicam.
Fechamento
A regra de ouro: conjunção se resolve pelo contexto. Pergunte sempre: "que relação essa palavra cria entre as ideias?" — justifica? opõe? causa? condiciona? Se você souber os valores básicos das coordenativas, essa questão se resolve em segundos.
PEGA ESSA DICA!
Decore os grupos: explicativas (pois, porque, porquanto), adversativas (mas, porém, contudo), causais (porque, pois, como, já que), concessivas (embora, ainda que). E lembre: "pois" antes do verbo é explicativo; depois, conclusivo.