Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — VUNESP 2024
Português›Interpretação de Textos (Compreensão)
Código
vu205441
Banca
VUNESP
Órgão
Pref Piracicaba
Ano
2024
Cargo
Jorn ( )
O quarto em desordem
Na curva perigosa dos cinquenta derrapei neste amor. Que dor! Que pétala sensível e secreta me atormenta e me provoca à síntese da flor
que não se sabe como é feita: amor, na quinta-essência da palavra, e mudo de natural silêncio já não cabe em tanto gesto de colher e amar
a nuvem que de ambígua se dilui nesse objeto mais vago do que nuvem e mais defeso, corpo! corpo, corpo
verdade tão final, sede tão vária, e esse cavalo solto pela cama, a passear o peito de quem ama.
(Carlos Drummond de Andrade, Fazendeiro do ar)
Leia o soneto, para responder à questão. O eu lírico aborda a temática do amor, confessando-se
Adesiludido com a pessoa amada que o faz sofrer.
Binconformado com a possibilidade de viver esse sentimento.
Cconfiante no futuro, apesar de sentir-se atormentado.
Dpresa do sentimento que o tomou na madureza.
Eincrédulo diante da ideia de encontrar o ser amado.
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GabaritoD — presa do sentimento que o tomou na madureza.
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O eu lírico e o amor na madureza
Gabarito: letra D. O eu lírico se confessa presa do sentimento que o tomou na madureza, como prova a abertura do soneto: "Na curva perigosa dos cinquenta / derrapei neste amor". A imagem do "derrape" — perder o controle do veículo — e a referência explícita à idade ("curva perigosa dos cinquenta") sustentam exatamente a ideia de alguém tomado, dominado por um amor que chega na maturidade. As demais alternativas extrapolam: atribuem ao eu lírico emoções (desilusão, inconformismo, confiança, incredulidade) que o texto não autoriza.
O comando: compreensão, não inferência
O enunciado pede que se identifique como o eu lírico se confessa — ou seja, uma questão de compreensão: a resposta está explícita no texto, bastando localizar a passagem que resume a atitude do eu lírico diante do amor. Não se trata de deduzir algo nas entrelinhas, mas de reconhecer a paráfrase de uma ideia claramente expressa. Por isso, o método é: sublinhar as palavras-chave do poema que revelam o estado do eu lírico e confrontá-las com cada alternativa.
O texto: a tese do poema
O soneto de Drummond descreve um amor que chega de forma avassaladora na maturidade. Os versos iniciais são decisivos:
"Na curva perigosa dos cinquenta / derrapei neste amor."
A metáfora do derrape (perder o controle do carro) indica que o eu lírico não resistiu ao sentimento: ele foi apanhado de surpresa, dominado. A expressão "curva perigosa" remete à idade — os cinquenta anos —, fase da vida em que esse amor irrompe. O restante do poema reforça a entrega: "me atormenta / e me provoca", "colher e amar", "corpo, corpo, corpo", "cavalo solto pela cama". O eu lírico não expressa arrependimento, nem esperança, nem dúvida: ele se reconhece preso a esse sentimento.
A técnica: paráfrase fiel × extrapolação
A alternativa correta é uma paráfrase — reescritura com outras palavras, mas mesmo sentido — do que está no texto. "Presa do sentimento que o tomou na madureza" corresponde a "derrapei neste amor" + "na curva perigosa dos cinquenta". Já as erradas acrescentam informações que não estão no poema: desilusão, inconformismo, confiança no futuro, incredulidade. Esse é o erro clássico de extrapolação: o candidato projeta no texto sentimentos que ele não expressa, muitas vezes por associar "amor na velhice" a algum clichê. A regra de ouro: toda alternativa deve ser sustentada por uma passagem do texto; se for preciso "completar" com o que o poema não diz, está errada.
Alternativa A — ❌ Incorreta
Desiludido com a pessoa amada que o faz sofrer. O texto fala em "dor" e "atormenta", mas não há nenhuma referência a desilusão — o eu lírico não diz que se decepcionou com a pessoa amada. A dor aqui é parte da intensidade do amor, não consequência de uma frustração. A alternativa extrapola ao transformar o sofrimento amoroso em desilusão.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Inconformado com a possibilidade de viver esse sentimento. O eu lírico não demonstra inconformismo — pelo contrário, ele se entrega ao amor, descrevendo-o com imagens de entrega ("colher e amar", "corpo, corpo, corpo"). Não há revolta nem resistência. A alternativa acrescenta um sentimento que o texto não autoriza.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Confiante no futuro, apesar de sentir-se atormentado. O poema não menciona o futuro nem expressa confiança. O eu lírico está inteiramente voltado para o presente do sentimento. A alternativa extrapola ao introduzir uma expectativa positiva que não existe no texto.
Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Presa do sentimento que o tomou na madureza. A passagem "Na curva perigosa dos cinquenta / derrapei neste amor" é a prova: o eu lírico perdeu o controle (derrapou) diante de um amor que chegou aos cinquenta anos (madureza). A imagem do derrape indica que ele foi tomado pelo sentimento, exatamente o que a alternativa afirma. É a única que parafraseia o texto sem acrescentar nada.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Incréduo diante da ideia de encontrar o ser amado. O texto não fala em encontrar a pessoa amada, nem expressa incredulidade. O eu lírico já está dentro da experiência amorosa, não duvidando dela. A alternativa extrapola ao inventar uma reação de ceticismo que não tem base no poema.
NÃO CAIA NESSA!
A banca oferece alternativas que extrapolam o texto, acrescentando emoções (desilusão, inconformismo, confiança, incredulidade) que o eu lírico não expressa. A correta é a única que se limita ao que está escrito: o derrape amoroso na madureza.
PEGA ESSA DICA!
Em questões de compreensão, grife as palavras-chave do texto (aqui: "derrapei", "cinquenta", "amor") e confronte cada alternativa com elas. Se a alternativa exigir que você "complete" o sentido com algo que não está no poema, ela está errada.