Questão de Português — Colocação Pronominal — VUNESP 2024
Português›Colocação Pronominal
Código
vu205479
Banca
VUNESP
Órgão
Pref Monte Alto
Ano
2024
Cargo
ASTI ( )
Compreendo perfeitamente o pintor Raimundo Nogueira. Ele, a mais bem-humorada e a mais cordial de todas as criaturas que conheço, cortou relações há alguns anos com um sujeito. Fez deste o seu único inimigo, negando-lhe cumprimento. E andou certo, a meu ver. O indivíduo em apreço, naquela época ainda em muito boas relações com o Raimundo, era dono duma churrascaria em Ipanema e dum terreno que desejava vender. O pintor se interessou pelo lote e foi vê-lo; no dia seguinte levou a família e, mal chegou ao lugar, ficou indignado e voltou: o proprietário do lote mandara derrubar uma frondosa mangueira que tinha lá. Na churrascaria, houve o seguinte diálogo:
Raimundo: – E a árvore? E a mangueira?
Dono: – Mandei cortar.
Raimundo: – Por quê, rapaz? Por quê?
Dono: – Acho que os pretendentes podem ver melhor o terreno sem a árvore.
Raimundo: – Ah, é assim, não é? Então, é favor não falar mais comigo.
Foi-se embora; desde então, quando passa defronte da churrascaria, Raimundo vira o rosto. Há entre churrasqueiro e pintor uma árvore morta.
Não sei com quem brigar, a quem virar o rosto. Mas cortaram também a amendoeira que existia debaixo da minha janela, no quintal ao lado. Era uma das maiores e das mais bonitas amendoeiras do Rio. Foi abaixo, para ceder lugar a uma garagem. Ora, seu tronco era longo, portanto, seria a coisa mais simples do mundo fazer um buraco no teto da garagem para o tronco passar, antes de se abrir em galhos e folhas no alto. A ideia não ocorreu ao proprietário do edifício que se constrói e que julgou ainda mais simples pôr a árvore no chão. Trata-se duma alma irmã à do churrasqueiro. Um sujeito que não merece o meu respeito ou a minha confiança. Assim, em meu nome, no do pintor Raimundo Nogueira e de todas as pessoas que gostam de árvores, eu o mando para o diabo que o carregue.
org.br/cronicas/19359/arvores. Acesso em 23.05.2024. Adaptado)
Leia o texto a seguir para responder à questão a seguir. Assinale a alternativa em que a expressão destacada reescrita entre colchetes mantém a norma-padrão de colocação pronominal.
AFez deste o seu único inimigo, negando-lhe cumprimento. (1o parágrafo) − [lhe negando]
BO pintor se interessou pelo lote e foi vê-lo… (1o parágrafo) − [o foi ver]
C… antes de se abrir em galhos e folhas no alto. (8o parágrafo) − [abrir-se]
DTrata-se duma alma irmã à do churrasqueiro. (8o parágrafo) − [Se trata]
E… eu o mando para o diabo que o carregue. (8o parágrafo) − [carregue-o]
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GabaritoC — … antes de se abrir em galhos e folhas no alto. (8o parágrafo) − [abrir-se]
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Colocação pronominal: a norma-padrão na reescrita
Gabarito: letra C. A alternativa C é a única em que a reescrita mantém a norma-padrão de colocação pronominal, pois, em locução verbal com verbo principal no infinitivo, a ênclise (abrir-se) é perfeitamente aceita, mesmo havendo palavra atrativa antes. Como se lê no 8º parágrafo: "antes de se abrir em galhos e folhas no alto" — a reescrita para "abrir-se" preserva a correção gramatical, pois o infinitivo admite tanto próclise quanto ênclise.
O comando: o que a banca pede
A questão pede que você identifique a alternativa em que a reescrita da expressão destacada mantém a norma-padrão de colocação pronominal. Isso significa que você deve verificar se a nova posição do pronome oblíquo átono (antes, depois ou no meio do verbo) está de acordo com as regras de próclise, ênclise e mesóclise. Não se trata de interpretar o texto, mas de aplicar a gramática normativa ao trecho citado.
O texto: o contexto da questão
O texto é uma crônica de Paulo Mendes Campos sobre a derrubada de árvores. A questão, porém, não explora o conteúdo temático, mas sim trechos específicos que contêm pronomes oblíquos átonos. O foco está na forma como esses pronomes são colocados em relação aos verbos, e não no sentido do texto.
A técnica: as regras de colocação pronominal
A colocação pronominal segue três posições principais:
Próclise: pronome antes do verbo. É obrigatória quando há palavras atrativas, como advérbios, pronomes relativos, conjunções subordinativas, palavras negativas, entre outras. Ex.: "Não me diga" (palavra negativa atrai próclise).
Ênclise: pronome depois do verbo. É a posição padrão quando não há palavra atrativa, mas com verbos no infinitivo, a ênclise é facultativa, mesmo havendo palavra atrativa. Ex.: "para me enviar" ou "para enviar-me" — ambas corretas.
Mesóclise: pronome no meio do verbo, usada com futuro do presente e futuro do pretérito. Ex.: "dar-te-ei" (futuro do presente).
Proibições gerais: não se inicia período com pronome oblíquo átono ("Me dá" é errado; o correto é "Dá-me"), e não se usa ênclise após futuro do presente/pretérito ("Darei-te" é errado; o correto é "Dar-te-ei") nem após particípio ("Tinha emprestado-lhe" é errado; o correto é "Tinha-lhe emprestado").
Análise das alternativas
Colocação pronominal
1Próclise (antes do verbo)
Palavras atrativas
Negação
Advérbios
Pronomes relativos
Conjunções subordinativas
Início de período (proibido)
2Ênclise (depois do verbo)
Posição padrão sem atrativo
Infinitivo: facultativa (mesmo com atrativo)
Após futuro do presente/pretérito (proibido)
Após particípio (proibido)
3Mesóclise (meio do verbo)
Futuro do presente
Futuro do pretérito
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Alternativa A — ❌ Incorreta
A reescrita "lhe negando" está incorreta. No trecho original, "negando-lhe cumprimento", o pronome "lhe" está em ênclise, posição correta após o gerúndio. A reescrita propõe a próclise "lhe negando", mas não há palavra atrativa que a justifique — o gerúndio, sem palavra atrativa, exige ênclise. Portanto, a reescrita viola a norma-padrão.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A reescrita "o foi ver" está incorreta. No original, "foi vê-lo", o pronome "o" está em ênclise no infinitivo "vê-lo". A reescrita propõe a próclise "o foi ver", mas não há palavra atrativa antes do verbo "foi" — o sujeito "O pintor" não atrai próclise. Portanto, a próclise é inadequada; a forma correta seria "foi vê-lo" ou "foi o ver" (esta última, com próclise no infinitivo, também seria aceitável, mas a banca não a ofereceu).
Alternativa C — ✅ Correta
A reescrita "abrir-se" está correta. No original, "antes de se abrir", o pronome "se" está em próclise, atraído pela preposição "de" (palavra atrativa). A reescrita propõe a ênclise "abrir-se", que é facultativa com verbos no infinitivo, mesmo havendo palavra atrativa. Portanto, ambas as formas são aceitas pela norma-padrão.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A reescrita "Se trata" está incorreta. No original, "Trata-se", o pronome "se" está em ênclise, posição correta no início do período (não se inicia com pronome oblíquo átono). A reescrita propõe a próclise "Se trata", que viola a proibição de iniciar período com pronome oblíquo átono. Portanto, a reescrita é inadequada.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A reescrita "carregue-o" está incorreta. No original, "que o carregue", o pronome "o" está em próclise, atraído pelo pronome relativo "que". A reescrita propõe a ênclise "carregue-o", mas a presença do pronome relativo "que" torna a próclise obrigatória. Portanto, a ênclise é inadequada.
Conclusão
A única reescrita que mantém a norma-padrão é a da letra C, pois a ênclise com infinitivo é facultativa, mesmo com palavra atrativa. As demais alternativas ou violam a próclise obrigatória (A, B, E) ou a proibição de iniciar período com pronome átono (D).
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre próclise obrigatória (após palavra atrativa) e a facultatividade da ênclise com infinitivo, além de testar a proibição de ênclise após futuro e particípio.
PEGA ESSA DICA!
Ao reescrever, verifique se há palavra atrativa antes do verbo. Se houver, a próclise é obrigatória, exceto com infinitivo, onde a ênclise também é aceita. E lembre: nunca inicie período com pronome oblíquo átono.