Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — VUNESP 2024
Português›Interpretação de Textos (Compreensão)
Código
vu205497
Banca
VUNESP
Órgão
Pref Piracicaba
Ano
2024
Cargo
Adm ( )
Uma constante na doce relação entre os colunistas e seus leitores é que, na exigente opinião destes, todo colunista é um amnésico crônico – ao tratar de qualquer assunto, sempre deixa de citar alguém ou alguma coisa. Eles têm razão. Vide os comentários que começam por “Só se esqueceu de…” ou “Faltou dizer que…”. E, para vergonha do colunista, seguem-se os exemplos do que faltou ou foi esquecido.
Meu consolo é que nem sempre é por esquecimento. As colunas têm limite de tamanho – a que você está lendo não pode passar de 1 880 caracteres – e não permitem que se esgote o assunto. Às vezes, o colunista se vê diante de duas citações e só tem espaço para uma.
Daí tento aproveitar o espaço ao máximo, concentrando as ideias em poucas palavras, usando palavras mais curtas e apagando aquelas que se revelam redundantes. Qualquer advérbio de modo, por exemplo, é totalmente inútil. Se não acredita, corte o “totalmente” desta frase e veja se ela perde em sentido. Radicalizando a cirurgia, corte também o “por exemplo”, e verá que o sentido continua intacto. Com a extração dessas palavras ganham-se 20 caracteres, que podem ser necessários no caso de se ter de escrever “otorrinolaringologia”.
Em coluna recente, falei de como o Brasil tem mais faculdades de Direito do que a soma de todas no mundo, assim como somos imbatíveis em farmácias, agências de banco, supermercados, shoppings e lojas de colchões. […] Os leitores concordaram, mas disseram que faltou muita coisa.
E citaram: influencers, igrejas evangélicas, sites de apostas, botequins, motoqueiros, bocas de botox, academias de ginástica, gente tatuada, de mochila às costas, de boné ao contrário, de celular ao nariz. É verdade, faltou tudo isso. Mas, como não existe memória absoluta, desconfio que continua faltando alguém ou alguma coisa.
Leia o texto a seguir para responder à questão seguinte. Assinale a alternativa em cujo trecho o cronista se dirige ao leitor.
AE, para vergonha do colunista, seguem-se os exemplos do que faltou ou foi esquecido. (1o parágrafo)
BRadicalizando a cirurgia, corte também o “por exemplo”, e verá que o sentido continua intacto. (3o parágrafo)
CEm coluna recente, falei de como o Brasil tem mais faculdades de Direito do que a soma de todas no mundo… (4o parágrafo)
DOs leitores concordaram, mas disseram que faltou muita coisa. (4o parágrafo)
EE citaram: influencers, igrejas evangélicas, sites de apostas, botequins, motoqueiros… (5o parágrafo)
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GabaritoB — Radicalizando a cirurgia, corte também o “por exemplo”, e verá que o sentido continua intacto. (3o parágrafo)
Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.
O cronista se dirige ao leitor: a função apelativa no texto
Gabarito: letra B. A alternativa B é a única em que o cronista se dirige diretamente ao leitor, usando o modo imperativo ("corte") e o futuro do presente com valor de instrução ("verá"), criando um diálogo direto com quem lê. Como se lê no 3º parágrafo: "Radicalizando a cirurgia, corte também o 'por exemplo', e verá que o sentido continua intacto". As demais alternativas falam sobre o leitor ou sobre os leitores, mas não com eles.
O comando: o que a banca pede
A questão pede que você identifique o trecho em que o cronista se dirige ao leitor. Isso é diferente de um trecho que apenas menciona o leitor. "Dirigir-se ao leitor" significa que o texto estabelece uma interlocução direta, como se conversasse com quem está lendo. Isso se manifesta, na língua, por marcas como:
Verbos no imperativo (corte, veja, note, observe);
Pronomes de tratamento (você, o senhor);
Perguntas retóricas ("Se não acredita, corte...");
Futuro do presente com valor de instrução ("verá que...").
Essas marcas caracterizam a função apelativa ou conativa da linguagem, cujo foco é o receptor da mensagem. O objetivo é influenciar, convencer ou orientar o interlocutor.
O texto: onde mora a resposta
O texto de Ruy Castro discute a limitação de espaço das colunas e como o cronista precisa cortar palavras. No 3º parágrafo, ele convida o leitor a fazer um experimento: cortar o advérbio "totalmente" e o "por exemplo" para verificar se o sentido se mantém. Veja o trecho:
"Se não acredita, corte o 'totalmente' desta frase e veja se ela perde em sentido. Radicalizando a cirurgia, corte também o 'por exemplo', e verá que o sentido continua intacto."
Aqui, o cronista usa o imperativo ("corte", "veja") e o futuro ("verá") para se dirigir diretamente ao leitor, desafiando-o a testar a afirmação. É uma interlocução clara.
A técnica: como identificar a função apelativa
A função apelativa é uma das seis funções da linguagem, centrada no receptor. Ela aparece quando o emissor busca influenciar o comportamento do interlocutor. No texto, isso ocorre por meio de:
Imperativo: "corte", "veja";
Vocativo implícito: o "você" está subentendido em "corte" e "verá";
Estrutura de conselho/instrução: o cronista orienta o leitor a fazer algo.
As outras alternativas não apresentam essas marcas. Elas apenas narram ou descrevem situações envolvendo leitores, mas não os interpelam.
Análise das alternativas
Função apelativa (foco no receptor): Marcas linguísticas (Imperativo (corte, veja), Futuro com valor de instrução (verá), Pronomes de tratamento (você), Perguntas retóricas); Falar COM o leitor (Interlocução direta, Ex.: "corte também o 'por exemplo', e verá"); Falar SOBRE o leitor (Apenas menciona, Ex.: "os leitores concordaram")
Alternativa A — ❌ Incorreta
"E, para vergonha do colunista, seguem-se os exemplos do que faltou ou foi esquecido."
Aqui, o cronista fala sobre os leitores ("os exemplos do que faltou"), mas não se dirige a eles. Não há imperativo, pronome de tratamento ou qualquer marca de interlocução. O trecho é narrativo/descritivo, não apelativo. Erro: fuga ao tema (fala sobre o leitor, mas não com ele).
Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO
"Radicalizando a cirurgia, corte também o 'por exemplo', e verá que o sentido continua intacto."
O verbo "corte" está no imperativo, e "verá" no futuro do presente, ambos dirigidos a um "você" implícito. O cronista ordena/convida o leitor a realizar uma ação, estabelecendo diálogo direto. É a única alternativa com função apelativa clara.
Alternativa C — ❌ Incorreta
"Em coluna recente, falei de como o Brasil tem mais faculdades de Direito do que a soma de todas no mundo…"
O cronista narra um fato sobre o Brasil, usando a primeira pessoa ("falei"), mas não se dirige ao leitor. Não há imperativo nem pronome de tratamento. Erro: fuga ao tema (conteúdo informativo, sem interlocução).
Alternativa D — ❌ Incorreta
"Os leitores concordaram, mas disseram que faltou muita coisa."
Aqui, os leitores são mencionados como terceiros ("os leitores"), mas não são interpelados. O cronista relata a reação deles, sem se dirigir a eles. Erro: fuga ao tema (fala sobre os leitores, não com eles).
Alternativa E — ❌ Incorreta
"E citaram: influencers, igrejas evangélicas, sites de apostas, botequins, motoqueiros…"
O trecho enumera itens citados pelos leitores, mas não há qualquer marca de interlocução. O cronista continua narrando o que os leitores disseram, sem se dirigir a eles. Erro: fuga ao tema (enumeração, sem apelo ao leitor).
Fechamento
A questão testa sua capacidade de distinguir falar sobre o leitor de falar com o leitor. A função apelativa é a chave: procure verbos no imperativo, pronomes de tratamento e perguntas diretas. Na dúvida, pergunte: "o autor está conversando comigo ou apenas mencionando leitores?" A alternativa B é a única que conversa.
PEGA ESSA DICA!
Sublinhe os verbos de cada trecho. Se houver imperativo (corte, veja, faça) ou futuro com valor de instrução (verá, notará), há forte indício de função apelativa.