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Questão de Português — Outras Questões de Português e Questões Mescladas (Interpretação de Textos ou Gramática) — VUNESP 2024

PortuguêsOutras Questões de Português e Questões Mescladas (Interpretação de Textos ou Gramática)
Código
vu205508
Banca
VUNESP
Órgão
PM SP
Ano
2024
Cargo
Alun Of ( )

Conheci outrora uma família que morava em São Clemente. Havia em sua casa agradáveis reuniões de que fazia os encantos uma filha, bonita moça de dezoito anos, corada como a aurora e loura como o sol.

 

Amália seduzia especialmente pela graça radiante, e pela viçosa e ingênua alegria, que manava dos lábios vermelhos, como dos olhos de topázio, e lhe rorejava1 a lúcida beleza.

 

Sua risada argentina era a mais cintilante das volatas2 que ressoavam entre os rumores festivos da casa, onde à noite o piano trinava sob os dedos ágeis da melhor discípula do Arnaud.

 

Acontecia-lhe chorar algumas vezes por causa de um vestido que a modista não lhe fizera a gosto, ou de um baile muito desejado que se transferia; mas essas lágrimas efêmeras, que saltavam em bagas dos grandes olhos luminosos, iam nas covinhas da boca transformar-se em cascatas de risos frescos e melodiosos.

 

Tinha razão de folgar.

 

Era o carinho dos pais e a predileta de quantos a conheciam. Muitos dos mais distintos moços da corte a adoravam. Ela, porém, preferia a isenção de menina; e não pensava em escolher um dentre tantos apaixonados, que a cercavam.

 

Os pais, que desejavam muito vê-la casada e feliz, sentiam quando ela recusava algum partido vantajoso. Mas reconheciam ao mesmo tempo que formosa, rica e prendada como era, a filha tinha o direito de ser exigente; e confiavam no futuro.

 

Outra e bem diversa era a causa da indiferença da moça.

 

Amália não acreditava no amor. A paixão para ela só existia no romance. Os enlevos3 de duas almas a viverem uma da outra não passavam de arroubos de poesia, que davam em comédia quando os queriam transportar para o mundo real.

 

Tinha sobre o casamento ideias mui positivas. Considerava o estado conjugal uma simples partilha de vida, de bens, de prazeres e trabalhos.

 

Estes não os queria: os mais ela os possuía e gozava, mesmo solteira, no seio de sua família.

 

Era feliz; não compreendia, portanto, a vantagem de ligar- se para sempre a um estranho, no qual podia encontrar um insípido companheiro, se não fosse um tirano doméstico.

 

Estes pensamentos, Amália não os enunciava, nem os erigia em opiniões. Eram apenas os impulsos íntimos de sua vontade; obedecendo a eles, não tinha a menor pretensão à excentricidade.

 

Ao contrário, como sabia do desejo dos pais, aceitava de boa mente a corte de seus admiradores. Mas estes bem percebiam que para a travessa e risonha vestal4 dos salões, o amor não era mais do que um divertimento de sociedade, semelhante à dança ou à música.

 

Conservando a sua independência de filha querida, e moça da moda, Amália não nutria prejuízos contra o casamento, que aliás aceitava como uma solução natural para o outono da mulher.

 

Ela bem sabia, que depois de haver gozado da mocidade, no fim de sua esplêndida primavera, teria de pagar o tributo à sociedade, e como as outras escolher um marido, fazer-se dona-de-casa, e rever nos filhos a sua beleza desvanecida.

 

Até lá, porém, era e queria ser flor. Das suas lições de botânica lhe ficara bem viva esta recordação, que o fruto só desponta quando as pétalas começam a fanar-se: se vem antes disso, eiva5.

(Encarnação, 2003.)

 

1 rorejar: gotejar.

2 volata: série de notas musicais executadas rapidamente.

3 enlevo: êxtase, deleite.

4 vestal: sacerdotisa da deusa romana Vesta; mulher muito bonita que devia guardar rigorosa castidade.

5 eivar: falhar.

Leia o trecho do romance Encarnação, de José de Alencar, para responder à questão.

 

“Os enlevos de duas almas a viverem uma da outra não passavam de arroubos de poesia, que davam em comédia quando os queriam transportar para o mundo real.” A concepção de amor presente no trecho indica um posicionamento crítico à literatura

  1. Abarroca.
  2. Bárcade.
  3. Cromântica.
  4. Drealista.
  5. Esimbolista.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoC — romântica.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

A concepção de amor e a crítica ao Romantismo

Gabarito: letra C. O trecho afirma que os enlevos amorosos "não passavam de arroubos de poesia, que davam em comédia quando os queriam transportar para o mundo real". Essa visão descreve o amor idealizado como algo irrealizável, que vira "comédia" na prática — exatamente a crítica que o Realismo faz ao Romantismo, escola que exaltava o amor platônico e a fusão das almas. A personagem Amália, ao não acreditar no amor e tratá-lo como "divertimento de sociedade", contrapõe-se ao ideal romântico.

O comando: interpretação com inferência

A questão pede que você identifique, a partir da concepção de amor expressa no trecho, qual escola literária está sendo criticada. Não se trata de localizar uma informação explícita (como "o autor critica o Romantismo"), mas de inferir essa crítica a partir das ideias apresentadas. O comando "indica um posicionamento crítico" sinaliza que você deve deduzir, com base nas pistas do texto, qual movimento literário é alvo da ironia.

O texto: a visão pragmática de Amália

O trecho descreve Amália como uma moça que "não acreditava no amor" e considerava a paixão "só existente no romance". Ela via o casamento como "uma simples partilha de vida, de bens, de prazeres e trabalhos" — uma visão utilitária, oposta ao amor idealizado. A passagem-chave é:

"Os enlevos de duas almas a viverem uma da outra não passavam de arroubos de poesia, que davam em comédia quando os queriam transportar para o mundo real."

Aqui, "enlevos de duas almas" remete ao amor romântico, que a personagem considera "arroubos de poesia" — ou seja, algo belo apenas na teoria, mas ridículo ("comédia") na prática. Essa descrença no amor idealizado é uma característica do Realismo, que criticava o subjetivismo e a idealização romântica.

A técnica: identificar a escola criticada

Para resolver, você deve reconhecer que o texto desconstrói o amor romântico. O Romantismo valorizava o amor como sentimento absoluto, capaz de unir duas almas; o trecho ironiza exatamente isso, chamando-o de "arroubos de poesia" que não sobrevivem ao contato com a realidade. A crítica é típica do Realismo, que pregava a objetividade e a análise crítica dos sentimentos.

Análise das alternativas

Amor no trecho (crítica ao Romantismo)
  • 1Visão da personagem
    • Não acreditava no amor
    • Paixão só existia no romance
    • Casamento = partilha prática
  • 2Alvo da crítica
    • Amor idealizado (enlevos de duas almas)
    • Arroubos de poesia
    • Vira comédia na realidade
  • 3Escolas literárias
    • Romântica (idealiza o amor) → criticada
    • Realista (desconstrói o amor) → perspectiva adotada
    • Barroca, árcade, simbolista → sem relação
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Alternativa A — ❌ Incorreta

O Barroco caracteriza-se pelo conflito entre o espiritual e o material, o culto ao contraste e à dualidade. O trecho não aborda essas questões; a crítica é ao amor idealizado, não à estética barroca. Erro: tangenciou o tema — fala de uma escola que não tem relação com a ideia central.

Alternativa B — ❌ Incorreta

O Arcadismo valoriza a vida simples, a natureza e o equilíbrio, com influência clássica. Nada no trecho remete a esses ideais. A crítica é ao amor romântico, não ao bucolismo árcade. Erro: tangenciou o tema — escola sem vínculo com a concepção de amor apresentada.

Alternativa C — ✅ Correta

O Romantismo é a escola que idealiza o amor, a mulher e a fusão das almas. O trecho critica exatamente essa idealização, chamando-a de "arroubos de poesia" que "davam em comédia" na realidade. A personagem Amália, ao não acreditar no amor, representa a visão realista que se opõe ao romantismo. A passagem que sustenta:

"A paixão para ela só existia no romance."

Essa frase confirma que o amor idealizado é visto como algo fictício, próprio dos romances — ou seja, da literatura romântica. A crítica é direta a essa escola.

Alternativa D — ❌ Incorreta

O Realismo é a escola que critica o Romantismo, e é justamente a perspectiva adotada pelo texto. A alternativa inverte a relação: o texto não critica o Realismo, mas o utiliza como lente para criticar o Romantismo. Erro: contradiz o texto — atribui ao Realismo o papel de alvo, quando ele é o instrumento da crítica.

Alternativa E — ❌ Incorreta

O Simbolismo caracteriza-se pela subjetividade, pelo misticismo e pela sugestão, com ênfase no inconsciente. O trecho é objetivo e crítico, sem elementos simbolistas. Erro: tangenciou o tema — escola sem relação com a concepção de amor apresentada.

Conclusão

A questão exige perceber que a visão de Amália sobre o amor — como algo irreal, que "só existia no romance" — é uma crítica ao Romantismo, escola que idealizava o sentimento. As demais escolas não têm relação com essa ideia, e a alternativa D inverte a lógica, tornando o Realismo alvo da crítica quando ele é, na verdade, a perspectiva adotada.

PEGA ESSA DICA!

Ao identificar a escola criticada, pergunte-se: "qual movimento literário valoriza exatamente o que o texto desqualifica?". Se o texto ironiza o amor idealizado, o alvo é o Romantismo.

Gabarito: letra C.

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