Questão de Português — Sinônimos e Antônimos — VUNESP 2024
Português›Sinônimos e Antônimos
Código
vu205512
Banca
VUNESP
Órgão
PM SP
Ano
2024
Cargo
Alun Of ( )
SONETO VIII
Pede o desejo, damab, que vos veja, Não entende o que pede, está enganado.d É este amor tão finoe e tão delgado1, Que quem o tem não sabe o que deseja.
Não há cousaa a qual natural seja Que não queira perpétuod seu estado, Não quer logo o desejo o desejado, Por que não falte nunca onde sobeja2.
Mas este puro afeito3 em mim se dana, Que como a grave4 pedra tem por arte O centro desejar da naturezac.
Assi5 o pensamento (pela parte Que vai tomar de mim, terrestrec, humanab) Foi, senhorab, pedir esta baixezae.
(Luís de Camões. 20 sonetos, 2018.)
1 delgado: delicado. 2 sobejar: sobrar, ter em excesso. 3 afeito: afeto, sentimento. 4 grave: pesada. 5 assi: assim.
Leia o poema de Luís de Camões para responder à questão. Há no soneto um conflito entre a afeição espiritual e o desejo carnal. Ratifica essa oposição o emprego dos termos
A“cousa” e “humana” .
B“dama” e “senhora” .
C“natureza” e “terrestre”.
D“enganado” e “perpétuo”.
E“fino” e “baixeza”.
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GabaritoE — “fino” e “baixeza”.
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Oposição entre afeição espiritual e desejo carnal no soneto de Camões
Gabarito: letra E. A alternativa E é a única que apresenta um par de termos que ratifica a oposição entre a afeição espiritual e o desejo carnal: "fino" (delicado, espiritual) e "baixeza" (desejo carnal, terreno). Essa oposição está ancorada no texto, especialmente no verso "Foi, senhora, pedir esta baixeza", em que o eu lírico confessa que seu pensamento, na parte terrestre e humana, foi pedir a "baixeza" — o desejo carnal —, contrastando com o "puro afeito" (afeto espiritual) que se "dana" (corrompe) nele.
O comando da questão pede que se identifiquem os termos que ratificam (confirmam, reforçam) a oposição entre a afeição espiritual e o desejo carnal. Não se trata de uma questão de compreensão literal, mas de interpretação semântica: é preciso reconhecer quais palavras, no contexto do poema, representam cada polo dessa oposição. A banca não pergunta o que o texto diz explicitamente, mas quais vocábulos, por seu sentido conotativo e pela estrutura do soneto, materializam o conflito central.
O soneto de Camões desenvolve um paradoxo amoroso típico do petrarquismo: o eu lírico deseja ver a dama, mas esse desejo é contraditório — "Pede o desejo, dama, que vos veja, / Não entende o que pede, está enganado". O amor é tão "fino e delgado" (delicado, espiritual) que quem o sente não sabe o que deseja. Na segunda estrofe, o eu lírico explica que, assim como tudo o que é natural quer perpetuar seu estado, o desejo não quer o desejado, para que não falte nunca onde sobra. Na terceira estrofe, surge o conflito: "Mas este puro afeito em mim se dana" — o afeto puro (espiritual) se corrompe, pois, como a pedra grave (pesada) que deseja o centro da natureza (a terra), o pensamento, na parte terrestre e humana, foi pedir a "baixeza" (o desejo carnal).
A técnica para resolver a questão é identificar, no texto, os campos semânticos opostos. De um lado, o campo da espiritualidade: "puro afeito", "fino", "delgado", "pensamento". De outro, o campo da carnalidade/terreno: "terrestre", "humana", "baixeza", "grave" (no sentido de pesada, ligada à terra). A alternativa E é a única que traz um termo de cada campo: "fino" (espiritual) e "baixeza" (carnal). As demais alternativas ou trazem dois termos do mesmo campo, ou termos que não estabelecem oposição direta no contexto.
Oposição no soneto: Campo espiritual ("puro afeito", "fino", "delgado"); Campo carnal/terreno ("terrestre", "humana", "baixeza"); Par que ratifica (gabarito) ("fino" (espiritual), "baixeza" (carnal))
Alternativa A — ❌ Incorreta
Os termos "cousa" e "humana" não formam uma oposição. "Cousa" é um termo genérico ("Não há cousa a qual natural seja"), e "humana" aparece em "terrestre, humana" (v. 12), referindo-se à parte do pensamento que é terrena. Não há, entre eles, relação de antagonismo que ratifique o conflito entre afeição espiritual e desejo carnal. A alternativa tangencia o tema, mas não apresenta a oposição pedida.
Alternativa B — ❌ Incorreta
"Dama" e "senhora" são sinônimos contextuais — ambos se referem à mulher amada, à destinatária do soneto. Não há oposição entre eles; pelo contrário, são usados para evitar a repetição (coesão lexical). A alternativa troca o conceito: em vez de oposição, apresenta equivalência.
Alternativa C — ❌ Incorreta
"Natureza" e "terrestre" pertencem ao mesmo campo semântico — o campo do mundo material, terreno. "Natureza" aparece em "O centro desejar da natureza" (v. 11), e "terrestre" em "terrestre, humana" (v. 12). Ambos remetem ao polo carnal/terreno, não à oposição entre espiritual e carnal. A alternativa restringe o alcance da oposição, apresentando apenas um dos polos.
Alternativa D — ❌ Incorreta
"Enganado" e "perpétuo" não formam uma oposição no texto. "Enganado" refere-se ao desejo que não entende o que pede (v. 2), e "perpétuo" refere-se ao estado que tudo o que é natural quer manter (v. 6). São termos de contextos diferentes, sem relação antonímica direta. A alternativa extrapola ao tentar criar uma oposição onde o texto não a estabelece.
Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO
"Fino" (delicado, espiritual) e "baixeza" (desejo carnal, terreno) são os termos que ratificam a oposição central do soneto. O texto sustenta essa leitura:
"É este amor tão fino e tão delgado" (v. 3)
"Foi, senhora, pedir esta baixeza" (v. 13)
O amor é descrito como "fino e delgado" — qualidade espiritual, elevada. Já o pensamento, na parte "terrestre, humana", foi pedir a "baixeza" — o desejo carnal, rebaixado. A oposição entre o que é elevado (fino) e o que é rebaixado (baixeza) materializa exatamente o conflito entre a afeição espiritual e o desejo carnal. A alternativa é a única inteiramente sustentada pelo texto.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre sinonímia e antonímia contextual. As alternativas A, B e C apresentam pares de palavras que pertencem ao mesmo campo semântico (ou são sinônimas), tentando fazer o candidato acreditar que há oposição. A correta exige reconhecer que "fino" e "baixeza" são antônimos contextuais — palavras que, no contexto do poema, representam polos opostos.
PEGA ESSA DICA!
Em questões de antonímia em poemas, identifique primeiro os campos semânticos em jogo (espiritual × carnal, elevado × rebaixado). Depois, procure nas alternativas um par que traga um termo de cada campo. Se ambos os termos pertencerem ao mesmo campo, a alternativa está errada.