Questão de Português — Orações Subordinadas Adverbiais — VUNESP 2024
Português›Orações Subordinadas Adverbiais
Código
vu205514
Banca
VUNESP
Órgão
PM SP
Ano
2024
Cargo
Alun Of ( )
SONETO VIII
Pede o desejo, dama, que vos veja,
Não entende o que pede, está enganado.
É este amor tão fino e tão delgado1,
Que quem o tem não sabe o que deseja.
Não há cousa a qual natural seja
Que não queira perpétuo seu estado,
Não quer logo o desejo o desejado,
Por que não falte nunca onde sobeja2.
Mas este puro afeito3 em mim se dana,
Que como a grave4 pedra tem por arte
O centro desejar da natureza.
Assi5 o pensamento (pela parte
Que vai tomar de mim, terrestre, humana)
Foi, senhora, pedir esta baixeza.
(Luís de Camões. 20 sonetos, 2018.)
1 delgado: delicado.
2 sobejar: sobrar, ter em excesso.
3 afeito: afeto, sentimento.
4 grave: pesada.
5 assi: assim.
Leia o poema de Luís de Camões para responder à questão.
Em “É este amor tão fino e tão delgado, / Que quem o tem não sabe o que deseja.”, o trecho sublinhado expressa, em relação à oração que o antecede, ideia de
Acausa.
Bconformidade.
Ccomparação.
Dconsequência.
Econcessão.
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GabaritoD — consequência.
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Orações subordinadas adverbiais consecutivas: a relação de consequência no soneto
Gabarito: letra D. No trecho “É este amor tão fino e tão delgado, / Que quem o tem não sabe o que deseja.”, a oração sublinhada expressa consequência: a delicadeza extrema do amor (fato da oração anterior) resulta em quem o tem não saber o que deseja. A pista decisiva é a estrutura correlata “tão… que”, marca clássica das orações consecutivas, como se lê no próprio verso.
“É este amor tão fino e tão delgado, / Que quem o tem não sabe o que deseja.”
A conjunção “que”, antecedida do intensificador “tão”, introduz a oração subordinada adverbial consecutiva: ela exprime o efeito (não saber o que deseja) provocado pela qualidade exaltada na oração principal (amor tão fino e delgado). Não há causa, conformidade, comparação ou concessão — a relação é de consequência.
O comando: identificar a relação semântica
A questão pede que se reconheça a ideia expressa pela oração sublinhada em relação à oração anterior. Isso é uma tarefa de compreensão de relações semânticas entre orações, típica de análise sintática de períodos compostos. O candidato deve:
Localizar a oração sublinhada e a oração a que ela se liga;
Identificar o conectivo (aqui, o “que”);
Verificar se há elementos correlatos (aqui, o “tão” antes do “que”);
Classificar a relação: causa, consequência, concessão, comparação, conformidade etc.
A técnica: o par “tão… que” e a inversão lógica
A oração consecutiva é introduzida por conjunções como “de modo que”, “de sorte que”, “tão… que”, “tanto… que”, “tamanho… que”. O par “tão… que” é o mais característico: o primeiro termo intensifica uma qualidade; o segundo apresenta o resultado dessa intensidade.
No verso, a estrutura é:
Oração principal: “É este amor tão fino e tão delgado” — afirma uma qualidade em grau elevado;
Oração subordinada adverbial consecutiva: “que quem o tem não sabe o que deseja” — apresenta a consequência dessa qualidade extrema.
A lógica é: o amor é tão delicado → por isso, quem o tem não sabe o que deseja. A segunda oração responde à pergunta “o que resulta disso?”. É exatamente o que define a consecutiva.
Por que não é causa?
A causal responde à pergunta “por quê?” e apresenta o motivo da oração principal. Aqui, a oração sublinhada não é o motivo de o amor ser fino; ela é o efeito dessa finura. Se fosse causal, a leitura seria: “porque quem o tem não sabe o que deseja, o amor é tão fino” — o que inverte a lógica do texto. O poeta não diz que o amor é fino porque as pessoas não sabem o que desejam; diz que, por ser tão fino, as pessoas não sabem o que desejam.
Por que não é concessão?
A concessiva apresenta uma ideia que se contrapõe à oração principal, sem impedi-la (ex.: “embora seja fino, não sabe o que deseja”). No trecho, não há oposição: a segunda oração continua e completa o sentido da primeira, apresentando um resultado esperado. Não há “apesar de”, “embora”, “ainda que” — marcas típicas da concessão.
Por que não é comparação nem conformidade?
A comparativa estabelece uma comparação entre dois elementos (ex.: “tão fino como o vento”). No trecho, o “que” não introduz um segundo termo de comparação, mas uma consequência. A conformativa indica conformidade com algo (ex.: “conforme foi dito”), o que não ocorre aqui.
Análise das alternativas
Orações subordinadas adverbiais: Consecutiva (Conectivos: tão… que, tanto… que, de modo que, Exprime efeito/resultado); Causal (Conectivos: porque, já que, visto que, Exprime motivo); Concessiva (Conectivos: embora, ainda que, apesar de, Exprime oposição/resalva); Comparativa (Conectivos: como, tal qual, Exprime comparação); Conformativa (Conectivos: conforme, segundo, Exprime conformidade)
Alternativa A — ❌ Incorreta
Causa. A oração sublinhada não apresenta o motivo de o amor ser fino; ela apresenta o resultado dessa finura. A relação é de consequência, não de causa. A banca explora a confusão entre causa e consequência, que são relações inversas.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Conformidade. Não há ideia de conformidade, que seria marcada por “conforme”, “segundo”, “como” (no sentido de acordo). O trecho não indica que algo ocorre em conformidade com outra coisa.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Comparação. Não há comparação entre dois elementos. O “que” não introduz um segundo termo de comparação (como em “tão fino como o vento”), mas uma consequência da qualidade expressa.
Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Consequência. A estrutura “tão… que” é a marca típica da oração subordinada adverbial consecutiva. A oração sublinhada exprime o efeito de o amor ser tão fino e delgado: quem o tem não sabe o que deseja. A relação é de consequência.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Concessão. Não há oposição ou ressalva. A oração sublinhada não apresenta uma ideia que se contrapõe à principal; ela a complementa com um resultado. Faltam as conjunções concessivas (“embora”, “ainda que”, “apesar de”).
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre causa e consequência. Na consecutiva, a oração subordinada é o efeito; na causal, é o motivo. A presença do par “tão… que” desfaz a dúvida: é consecutiva.
PEGA ESSA DICA!
Ao identificar orações adverbiais, procure o conectivo e os elementos correlatos. “Tão… que”, “tanto… que”, “tamanho… que” indicam consequência; “porque”, “já que”, “visto que” indicam causa; “embora”, “ainda que” indicam concessão.