Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — VUNESP 2024
Português›Interpretação de Textos (Compreensão)
Código
vu205517
Banca
VUNESP
Órgão
PM SP
Ano
2024
Cargo
Alun Of ( )
Houve um diálogo difícil. Aparentemente não quer dizer muito, mas diz demais.a
— Mamãe, tire esse cabelo da testa. — É um pouco da franja ainda. — Mas você fica feia assim. — Tenho o direito de ser feia.b — Não tem! — Tenho! — Eu disse que não tem!
E assim foi que se formou o clima de brigac. O motivo não era fútil, era sério: uma pessoa, meu filho no caso, estava- me cortando a liberdade. E eu não suportei, nem vindo de filho. Senti vontade de cortar uma franja bem espessa, bem cobrindo a testa toda. Tive vontade de ir para meu quarto, de trancar a porta a chave, e de ser eu mesma, por mais feia que fosse. Não, não “por mais feia que fosse”: eu queria ser feia, isso representava o meu direito total à liberdade. Ao mesmo tempo eu sabia que meu filho tinha os direitos dele: o de não ter uma mãe feia, por exemplo. Era o choque de duas pessoas reivindicando — o que, afinal?dSó Deus sabe, e fiquemos por aqui mesmo.e
(Clarice Lispector. A descoberta do mundo, 1999.)
Leia a crônica “Liberdade”, de Clarice Lispector, para responder à questão. O gênero textual crônica pode provocar reflexões profundas a partir da apresentação de situações banais do cotidiano. A autora demonstra ter consciência desse aspecto no trecho:
A“Aparentemente não quer dizer muito, mas diz demais”
B“— Tenho o direito de ser feia”.
C“E assim foi que se formou o clima de briga”.
D“Era o choque de duas pessoas reivindicando — o que, afinal?"
E“Só Deus sabe, e fiquemos por aqui mesmo”.
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GabaritoA — “Aparentemente não quer dizer muito, mas diz demais”
Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.
Crônica e consciência do gênero: a metalinguagem de Clarice Lispector
Gabarito: letra A. A alternativa correta é a que transcreve o trecho em que a autora reflete sobre o próprio texto — "Aparentemente não quer dizer muito, mas diz demais" —, pois aí ela demonstra consciência de que uma situação banal (o diálogo sobre a franja) carrega um sentido profundo, exatamente a característica da crônica apontada no enunciado. As demais alternativas descrevem o conteúdo da crônica (o diálogo, a briga, o choque de direitos), mas não revelam essa consciência metalinguística da autora.
O comando: o que a banca pede
O enunciado afirma que a crônica "pode provocar reflexões profundas a partir da apresentação de situações banais do cotidiano" e pede o trecho em que a autora demonstra ter consciência desse aspecto. A palavra-chave é consciência: não basta o trecho tratar de algo banal ou profundo; é preciso que a autora comente sobre essa característica do gênero, ou seja, que haja uma reflexão metalinguística — o texto falando sobre o próprio texto.
O texto: onde mora a resposta
A crônica narra um diálogo banal entre mãe e filho sobre a franja, que evolui para uma briga sobre liberdade e direitos. No entanto, logo no primeiro parágrafo, a narradora faz um comentário que quebra a narrativa e revela sua intenção:
"Aparentemente não quer dizer muito, mas diz demais"
Esse trecho é uma avaliação da própria cena que será narrada: o diálogo parece trivial ("não quer dizer muito"), mas carrega um significado profundo ("diz demais"). É exatamente a definição de crônica apresentada no enunciado — partir do banal para o profundo. A autora não apenas faz isso, mas diz que está fazendo, demonstrando consciência do gênero.
A técnica: metalinguagem vs. conteúdo
A pegadinha central desta questão é confundir o que a crônica narra com a reflexão da autora sobre a crônica. As alternativas B, C, D e E são trechos que fazem parte da narrativa — o diálogo, a conclusão sobre a briga, o choque de direitos, o desfecho — mas nenhum deles comenta sobre o próprio texto. A alternativa A, por outro lado, é uma metalinguagem: a autora se coloca fora da narrativa para avaliá-la.
Para resolver, pergunte-se: este trecho fala sobre o quê? Se fala sobre a história (a briga, os direitos), é conteúdo. Se fala sobre o texto em si (o que ele parece, o que ele significa), é metalinguagem. A alternativa A é a única que fala sobre o próprio texto.
Análise das alternativas
Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO
"Aparentemente não quer dizer muito, mas diz demais"
Este trecho é a tese da crônica: a narradora anuncia que o diálogo banal ("não quer dizer muito") esconde uma profundidade ("diz demais"). É uma reflexão explícita sobre o gênero, pois a autora demonstra saber que situações cotidianas podem render reflexões profundas — exatamente o que o enunciado afirma. A alternativa é uma paráfrase fiel da ideia central do texto.
Alternativa B — ❌ Incorreta
"— Tenho o direito de ser feia".
Este trecho é uma fala da personagem dentro do diálogo, parte do conteúdo da narrativa. Não há nenhuma reflexão sobre o texto ou sobre o gênero crônica. A alternativa tangencia o tema (fala de liberdade, que é o assunto da crônica), mas não demonstra consciência da autora sobre o aspecto banal-profundidade.
Alternativa C — ❌ Incorreta
"E assim foi que se formou o clima de briga".
Aqui a narradora conclui a sequência do diálogo, explicando como a briga começou. É uma transição narrativa, não uma reflexão sobre o texto. A alternativa contradiz o pedido do enunciado, pois trata do enredo, não da consciência do gênero.
Alternativa D — ❌ Incorreta
"Era o choque de duas pessoas reivindicando — o que, afinal?"
Este trecho é uma interpretação da narradora sobre o conflito, mas ainda dentro da narrativa — ela reflete sobre o conteúdo (o choque de direitos), não sobre o texto. A pergunta retórica "o que, afinal?" mostra a profundidade do conflito, mas não demonstra consciência de que a situação é banal e poderia render uma crônica. A alternativa extrapola ao sugerir que isso seria uma reflexão sobre o gênero.
Alternativa E — ❌ Incorreta
"Só Deus sabe, e fiquemos por aqui mesmo".
Este é o desfecho da crônica, em que a narradora encerra a reflexão sobre o conflito. É uma conclusão temática, não uma metalinguagem. A alternativa tangencia o tema (a profundidade do conflito), mas não há nenhuma menção ao caráter banal do cotidiano ou à natureza do texto.
Fechamento
A regra de ouro para questões como esta: distinga o que o texto diz do que o texto faz. O enunciado pede o trecho em que a autora demonstra consciência de que a crônica parte do banal para o profundo — e isso só ocorre na alternativa A, que é uma reflexão metalinguística. As demais alternativas são conteúdo da narrativa, não comentário sobre ela.
PEGA ESSA DICA!
Ao ler o enunciado, sublinhe palavras como "consciência", "reflexão", "metalinguagem" — elas indicam que a resposta deve ser um trecho em que o autor fala sobre o próprio texto, não sobre o assunto dele.