Houve um diálogo difícil. Aparentemente não quer dizer muito, mas diz demais.
— Mamãe, tire esse cabelo da testa. — É um pouco da franja ainda. — Mas você fica feia assim. — Tenho o direito de ser feia. — Não tem! — Tenho! — Eu disse que não tem!
E assim foi que se formou o clima de briga. O motivo não era fútil, era sério: uma pessoa, meu filho no caso, estava- me cortando a liberdade. E eu não suportei, nem vindo de filho. Senti vontade de cortar uma franja bem espessa, bem cobrindo a testa toda. Tive vontade de ir para meu quarto, de trancar a porta a chave, e de ser eu mesma, por mais feia que fosse. Não, não “por mais feia que fosse”: eu queria ser feia, isso representava o meu direito total à liberdade. Ao mesmo tempo eu sabia que meu filho tinha os direitos dele: o de não ter uma mãe feia, por exemplo. Era o choque de duas pessoas reivindicando — o que, afinal? Só Deus sabe, e fiquemos por aqui mesmo.
(Clarice Lispector. A descoberta do mundo, 1999.)
Leia a crônica “Liberdade”, de Clarice Lispector, para responder à questão. Em “de ser eu mesma, por mais feia que fosse”, a locução conjuntiva “por mais que” pode ser substituída, sem prejuízo para o sentido do texto, por:
Aporquanto.
Bcaso.
Cconforme.
Dtodavia.
Eembora.
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GabaritoE — embora.
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Substituição de locução conjuntiva concessiva
Gabarito: letra E. A locução "por mais que" tem valor concessivo — introduz uma ideia que se contrapõe à oração principal sem impedir sua realização — e pode ser substituída por "embora" sem prejuízo de sentido. No trecho, a narradora afirma que quer "ser eu mesma" mesmo que seja feia: a feiura é uma objeção que não a impede. A passagem que ancora é:
"Tive vontade de ir para meu quarto, de trancar a porta a chave, e de ser eu mesma, por mais feia que fosse."
Aqui, "por mais feia que fosse" equivale a "embora fosse feia" — a concessão é exatamente essa: a condição desfavorável (ser feia) não bloqueia o desejo de ser ela mesma.
O comando
A questão pede uma substituição sem prejuízo de sentido. Isso significa que a alternativa correta deve preservar o valor semântico da locução original no contexto. Não basta ser sinônimo em dicionário; é preciso que a relação lógica entre as orações permaneça idêntica. Aqui, o foco é a classificação da oração subordinada adverbial: concessiva.
O texto
Na crônica, a narradora reflete sobre o direito à liberdade, inclusive o direito de ser feia. O trecho citado expressa uma concessão: ela quer ser ela mesma, apesar de ser feia. A feiura é apresentada como um obstáculo que não a impede. Essa é a essência da oração concessiva: fato que se contrapõe, mas não impede.
A técnica
Conjunções concessivas típicas: embora, ainda que, mesmo que, conquanto, por mais que, se bem que, apesar de que. Todas introduzem uma ideia de contrariedade sem impedimento. A banca explora justamente a capacidade de reconhecer esse valor e não confundi-lo com outros:
Causais (porque, porquanto): indicam causa, motivo.
Adversativas (mas, todavia, porém): indicam oposição entre orações coordenadas, não subordinadas.
A pegadinha está em "todavia" (letra D): parece sinônimo de "mas", mas é conjunção coordenativa adversativa, não subordinativa concessiva. A substituição por "todavia" quebraria a estrutura sintática e mudaria o sentido.
Conjunções subordinativas adverbiais: Concessivas (embora, ainda que, mesmo que, por mais que, fato que não impede); Causais (porque, porquanto); Condicionais (se, caso); Conformativas (conforme, como, segundo); Coordenativa adversativa (mas, todavia, porém)
Alternativa A — ❌ Incorreta
"Porquanto" é conjunção causal/explicativa (equivale a "porque", "pois"). No trecho, não há relação de causa: a feiura não é a causa do desejo de ser ela mesma. Substituir por "porquanto" inverteria a relação lógica. Erro: troca de valor semântico (causal por concessiva).
Alternativa B — ❌ Incorreta
"Caso" é conjunção condicional (equivale a "se"). Introduziria uma hipótese: "caso fosse feia". Mas o texto afirma um fato ("por mais feia que fosse"), não uma condição. Erro: troca de valor semântico (condicional por concessiva).
Alternativa C — ❌ Incorreta
"Conforme" é conjunção conformativa (equivale a "segundo", "como"). Indicaria conformidade, não concessão. "Conforme fosse feia" mudaria completamente o sentido. Erro: troca de valor semântico (conformativa por concessiva).
Alternativa D — ❌ Incorreta
"Todavia" é conjunção coordenativa adversativa (equivale a "mas", "porém"). Além de não ser subordinativa, ela ligaria orações coordenadas, não subordinadas. A estrutura "de ser eu mesma, todavia feia que fosse" é agramatical e sem sentido. Erro: troca de classe (coordenativa por subordinativa) e de valor (adversativa por concessiva).
Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO
"Embora" é a conjunção concessiva por excelência. Substituindo: "de ser eu mesma, embora feia que fosse" — ou, mais naturalmente, "de ser eu mesma, embora fosse feia". O sentido de concessão é preservado integralmente: a feiura não impede o desejo de ser ela mesma. É a única alternativa que mantém o valor semântico e a estrutura sintática.
PEGA ESSA DICA!
Ao substituir conectivos, pergunte: "qual relação lógica a oração estabelece com a principal?" Se a oração expressa um fato que não impede a ação principal, é concessiva — procure "embora", "ainda que", "mesmo que".